"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, abril 28, 2008

Uma Semana em Moreanes


A viagem começou com chuva mas mal cheguei a Moreanes participei no aniversário da minha amiga Dina que reuniu à volta de uma mesa enorme, gente fraterna de todas as idades. Um dos convivas mais divertidos foi o Norberto, cujas anedotas puseram os convidados a rir desbragadamente.
Nos dias que se seguiram visitei Serpa, petisquei em Corte Pinto, assisti ao lançamento do nº 10 da Arqueologia Medieval em Beja, num hotel de Huelva deliciei-me com a confraternização dos povos fronteiriços de Granado e Santana de Cambas, da Andaluzia e do Baixo Alentejo, celebrei o 25 de Abril em Mértola, espreitei a feira do Mel, do queijo e do Pão, comi, descansei, passeei.
E até vi Juvenal Antena!
Regressei ontem, a tempo de festejar o terceiro aniversário da fundação da Aldraba e de me espantar com a bela prenda que o Luís Ferreira ofereceu à Associação do Espaço e Património Popular, da qual ele é um dos 80 fundadores.
Apeteceria cantar "Gracias à La Vida", se um dos amigos que ficou em Lisboa mais a sua família pudessem cantar. Calo-me, solidário com esta curva apertada do caminho. A Luta Continua!
Luís Filipe Maçarico (texto e fotografia)

domingo, abril 13, 2008

Confederação das Colectividades realizou Conselho Nacional em Mira






Ontem, em Mira, o jovem vereador da Câmara Municipal de Mira, Luís Grego, emocionou os veteranos do Associativismo Popular português, ao exprimir o seu apreço pelas colectividades que tão bem conhece, dizendo a certa altura que estava grato a estas associações, pois nelas enriqueceu-se enquanto cidadão.
A Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto foi recebida de forma muito fraterna pelo município gandarense, tendo os seus conselheiros visitado a Igreja da praia de Mira, situada num palheiro, o monumento ao pescador e o Museu Etnográfico, alojado numa casa palafítica da região. O almoço foi um belo momento de convívio desfrutando da gastronomia local.
A tarde decorreu de forma intensa, como é timbre desta entidade, sendo objectivo das dezenas de participantes apreciar e votar o relatório e contas do ano de 2007, que foi aprovado por unanimidade.
Regressámos todos às nossas terras (somos cerca de 7 dezenas de Norte a Sul do país) com boa memória de Mira e lembrando as palavras de Luís Grego que se despediu, recomendando: "Regressem bem a casa e tragam as vossas associações até cá, que serão sempre bem recebidos pelas nossas gentes!"
O professor Barbosa da Costa, ilustre estudioso e profundo conhecedor da questão associativa no Porto e o antropólogo Dr. Augusto Flor, dinamizaram a magna assembleia, o primeiro enquanto presidente da mesa do Congresso e o segundo como presidente da direcção.
Texto e fotos de Luís Filipe Maçarico

domingo, abril 06, 2008

Um Chá de Longe


A flor de jasmim
É agora uma pequena mancha
de células descoloridas, murchas
Mortas. Há uma gramática
de ausência nesse vulto
que repousa entre a memória
e uma cerâmica de Nabeul.

Embalando o corpo, poiso na mesa
um chá de longe enquanto
a nuvem de pombos atravessa
o domingo e o "Adagio"
de Albinoni...

Luís Filipe Maçarico, "Caligrafia do Silêncio", p.13, Lisboa, 2004 (1ª edição), 2006 (2ª edição).
Foto:LFM

sábado, abril 05, 2008

Aniversário Inesquecível




Graças à Maria Amélia (nas fotos) e ao seu inseparável companheiro Manuel Bastos, tive o privilégio de celebrar o aniversário dela de forma ímpar. Após o jantar (muito bom) na casa do Alentejo, assistimos a uma noite inesquecível da Grande Canção de Portugal: "Vozes de Abril".
A lembrança do dia 4 de Abril de 2008 ficará como um momento singular das nossas vidas.
Parabéns mais uma vez e um obrigado, com "abraço redondo" como diria Bual.
Fotos e texto: Luís Filipe Maçarico

"Vozes de Abril"




O Coliseu dos Recreios de Lisboa foi ontem palco de um espectáculo único: "Vozes de Abril", numa organização conjunta Associação 25 de Abril/RTP.
Entre outros, cantaram Vitorino, Janita Salomé, Filipa Pais, Manuel Freire, Helena Vieira e Ermelinda Duarte, Waldemar Bastos, José Barata Moura, Pedro Barroso, Luís Goes, Samuel, Francisco Fanhais, Luísa Bastos, José Jorge Letria, Carlos Alberto Moniz, Carlos Mendes, Fernando Tordo, Brigada Vítor Jara, Maria do Amparo e Lúcia Moniz, João Afonso, Jacinta, Erva de Cheiro, José Mário Branco e Patxi Andion.
As bandas da Marinha, Exército e Força Aérea interpretaram conjuntamente a Marcha do MFA e os grupos corais "Os Alentejanos" da Damaia e "Grupo da Liga dos Amigos da Mina de S. Domingos", de Sacavém, cantaram a "Grândola".
Disseram poemas Maria Barroso, José Fanha, Joaquim Pessoa e Vítor de Sousa.
Foram evocadas outras "Vozes de Abril" como os poetas António Gedeão, Jorge de Sena, José Carlos Ary dos Santos, Manuel da Fonseca, Sophia de Mello Breyner, o actor Mário Viegas, os cantores Adriano Correia de Oliveira e José Afonso e também Carlos Paredes e Fernando Lopes Graça.
O espectáculo, apresentado por Júlio Isidro e Sílvia Alberto, teve ainda as presenças de Adelino Gomes, João Paulo Guerra, Joaquim Furtado e Luís Filipe Costa.
O belo serão começou pelas 21h 30 e terminou cerca das 3h e 30.
Texto e fotos de LFM

sexta-feira, abril 04, 2008

Artigo de Luís Filipe Maçarico sobre Mértola no nº31 de 14 de Março de 2008, pág. 3 do Quinzenário "Conversas de Café"



MÉRTOLA, UM DOS GRANDES LUGARES DO MUNDO ONDE ATÉ A BRISA É MÁGICA

Mértola é um castelo enluarado, um amendoal sobre o Guadiana, pedras repletas de História, gente como Cláudio Torres ou Santiago Macias, que ajudaram a vila adormecida a acordar para o Futuro, com o entusiasmo de Serrão Martins, um autarca que deixou semente.

Calcurreando as ruas estreitas do casco velho, fascinamo-nos ao entrar no Museu Islâmico onde o resultado de três décadas de estudo, escavações e descoberta do Campo Arqueológico (CAM) trouxeram até nós objectos, testemunhos, documentos, através dos quais é possível saber-se muita coisa.

Cláudio Torres chegou a dizer que quem quiser conhecer a História do Al-Ândaluz na Península, é aqui e não nas Bibliotecas do Egipto que encontra respostas.

Em colaboração com a Universidade do Algarve, o CAM vai realizar no próximo ano lectivo o mestrado “Portugal Islâmico e o Mediterrâneo”, que promete reflectir as raízes de lugares como este.

Vista do outro lado do rio, Mértola é belíssima. E lá do alto do cerro, o morábito da Senhora das Neves, é uma atalaia guardando o azul.

A Mesquita, com as suas colunas, a sua porta lateral de arco em ferradura e o mirhab virado para Meca, constitui um património notável.

Subindo e descendo pelo labirinto das apertadas ruelas, apercebemo-nos dos postigos, das aldrabas, das oliveiras que por vezes irrompem dos muros brancos, os rostos tisnados pelo sol do Alentejo, passadiços, recantos, larguinhos, os miradouros e o anfiteatro de cal e xisto que se espelha no Grande Rio do Sul.

O criptopórtico, a cisterna do castelo, a torre de menagem, o núcleo paleocristão, o núcleo de Arte Sacra, a oficina do ferreiro, o núcleo romano na cave do edifício da Câmara Municipal e a ermida de São Sebastião são partes de um todo que marca para sempre olhar e coração.

Até um bar, que já se chamou Al Sacrane e foi renomeado Al Safir, participou nesta envolvência, a par do Lancelote, todos espaços de convívio e fruição.

Os moinhos de maré, os percursos pela natureza em pleno Parque Natural, a beleza de freguesias como Santana de Cambas ou Alcaria Ruiva, a memória mineira de São Domingos, os lugares de vento, silêncio e água como Pomarão, onde os carris das vagonetas das Minas e os veleiros falam de duas realidades, dois tempos…

Ou os topónimos que remetem para uma identidade rural como Picoitos, Bens, Formoa, Salgueiros, Sapos, Montes Velhos, Monte do Guiso…

Mértola festeja de dois em dois anos o seu passado árabe com uma tradição reinventada: O Festival Islâmico.

Marroquinos e tunisinos de verdade aqui mostram doçaria, artesanato, dança, música e gastronomias deliciosas como o couscous e a tagine.

No pequeno e simpático cais é possível embarcar no “Vendaval” e passear rio abaixo até Alcoutim e Vila Real de Santo António.

Por esses montados e barrancos, quantos tesouros do passado dormem ainda o seu sono de séculos?

Mértola é um dos grandes lugares do Mundo, pela sua paisagem, pela História que os homens escreveram no seu território, pelo espaço mágico partilhável, onde revemos o que fomos.

O aroma das especiarias, o rumor das vozes, cânticos de Muezzines e sons de alaúde são imaginados ao pôr do sol ou revisitados de dois em dois anos em Maio, quando alaúdistas, dançarinas e vendedores de tudo povoam estas ruas para nos maravilharem.

Marque encontro com Mértola, com a sua tela de cores que se transmuta em cada época do ano e com os sabores da cozinha alentejana em alguns dos seus restaurantes.

Deixe-se encantar com os seus monumentos e habitantes. A Primavera inunda de poesia os campos deste Baixo Alentejo, espalhando alegria e aromas. Esta antiquíssima vila do sul, onde até a brisa é mágica, aguarda a sua viagem. O seu destino é ser feliz!

Luís Filipe Maçarico

Foto de Rosário Fernandes

segunda-feira, março 31, 2008

Alentejo, Um Povo, Uma Cultura - Um Artigo de Luís Filipe Maçarico no Almanaque Alentejano








ALENTEJO, UM POVO, UMA CULTURA


ONTEM


O território alentejano onde os seus habitantes desenvolvem actividades e projectos, corresponde a um terço do espaço geográfico continental português.

Os largos horizontes, o trigo, a oliveira, a azinheira marcam os indivíduos, a par das suas vivências, dos sonhos, das lendas, da poesia em que mergulham, fazendo décimas, associando-se no cante.

Nas tabernas, nos convívios, nas feiras, nas festas, os alentejanos soltam as gargantas e delas irrompe um sol de sílabas, uma brisa fraterna, um trilar de pássaros, um rumor de chuva.

A tradição, a sabedoria popular, os rituais, os costumes ancestrais, observáveis nos comportamentos, na gastronomia, na cultura, que evidencia em Fialho de Almeida e Manuel da Fonseca dois expoentes de vulto, são valores identitários, que sublinham o carácter de um povo, que foi resistindo a um certo abandono, disseminado por políticas governamentais autistas e dilatado pela desertificação e o envelhecimento.


HOJE


As autarquias locais sustêm parte substancial da população, proporcionando trabalho, estancando a sangria migratória, ajudando a manter pertenças.

Os apoios comunitários nem sempre foram parar a boas mãos. A ostentação dos bafejados, visível em espampanantes pecúlios e a falência de experiências empresariais oportunistas empobreceram ainda mais a região.

Alqueva alimentou o imaginário de gerações. A escassez de terra disponível para usufruto da população activa e o desinteresse dos jovens pela actividade agrícola, determinaram a inversão de um desígnio promissor. Entretanto, os espanhóis vão ocupando o território…

Não obstante a esperança de um Mundo mais justo, reanimada em 25 de Abril de 1974, intuitos seculares de escassos privilegiados, têm conseguido maior enriquecimento, à custa da agonia do colectivo com parcos recursos, parecendo eternizar-se.

E como se tudo isto já não fosse suficientemente acabrunhante, os iluminados bajuladores de Bruxelas inventaram um alargamento artificial da região, abarcando agora o Alentejo - para efeitos dos subsídios comunitários que visam beneficiar o distrito de Santarém - parte substancial do Ribatejo.


AMANHÃ


Restam os valores decorrentes da herança transmitida pelos antepassados. A pujança do património material constatável na monumentalidade dos castelos, das catedrais, dos paços, dos centros históricos, no espírito de lugares míticos como Aviz, Beja, Évora, Marvão, Mértola, Monsaraz, Montemor-o-Novo, Noudar, Vidigueira, só para citar alguns exemplos.

A preservação da memória - histórias de vida como as dos contrabandistas, que originaram rotas de veraneio e aventura para gente citadina, os tesouros da oralidade, perceptíveis no adagiário e no cancioneiro.

O património imperceptível, como é o caso da linguagem das velhas portas de madeira trabalhada, repletas de autênticas jóias das forjas de antanho, com artísticas aldrabas, batentes, puxadores, postigos.

O património imaterial como as saias, a viola campaniça, as modas. A preciosidade de uma gastronomia sem par. Um saber fazer que deixou na paisagem dos montados, das searas, das serras, dos rios, da raia e da costa, a taipa e a abobadilha, os tapetes de Arraiolos, os oleiros do Redondo e São Pedro do Corval, os queijos de Serpa e Nisa, o pão alentejano, os montes, a arte de abegões e ferreiros, a panóplia patrimonial que a forma de estar dos alentejanos originou.

O Turismo será o ouro do futuro.

Todavia, para que o património seja fruído, indispensável é divulgá-lo para que todos, visitantes e população residente sintam a importância incontornável do legado que recebemos. É preciso guardar as palavras que as velhas bibliotecas vivas podem partilhar. Não deixem morrer os velhos, sem registar o que eles aprenderam com os seus!

A açorda, as migas, o ensopado de borrego, o cozido de grão, o gaspacho, a sericaia, a moda da silva, as recordações do ferrador, são momentos de grande intensidade e beleza da Comunidade, que urge proteger do esquecimento. Para que haja interesse em continuar a viver nas terras do sul, proporcionando aos que buscam estes espaços uma identidade singular, genuína, com múltiplas propostas à escala humana.


Lisboa, 6 e 7 de Dezembro de 2007

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)