


A lembrança do dia 4 de Abril de 2008 ficará como um momento singular das nossas vidas.
Parabéns mais uma vez e um obrigado, com "abraço redondo" como diria Bual.
Fotos e texto: Luís Filipe Maçarico
"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"






Mértola é um castelo enluarado, um amendoal sobre o Guadiana, pedras repletas de História, gente como Cláudio Torres ou Santiago Macias, que ajudaram a vila adormecida a acordar para o Futuro, com o entusiasmo de Serrão Martins, um autarca que deixou semente.
Calcurreando as ruas estreitas do casco velho, fascinamo-nos ao entrar no Museu Islâmico onde o resultado de três décadas de estudo, escavações e descoberta do Campo Arqueológico (CAM) trouxeram até nós objectos, testemunhos, documentos, através dos quais é possível saber-se muita coisa.
Cláudio Torres chegou a dizer que quem quiser conhecer a História do Al-Ândaluz na Península, é aqui e não nas Bibliotecas do Egipto que encontra respostas.
Em colaboração com a Universidade do Algarve, o CAM vai realizar no próximo ano lectivo o mestrado “Portugal Islâmico e o Mediterrâneo”, que promete reflectir as raízes de lugares como este.
Vista do outro lado do rio, Mértola é belíssima. E lá do alto do cerro, o morábito da Senhora das Neves, é uma atalaia guardando o azul.
A Mesquita, com as suas colunas, a sua porta lateral de arco em ferradura e o mirhab virado para Meca, constitui um património notável.
Subindo e descendo pelo labirinto das apertadas ruelas, apercebemo-nos dos postigos, das aldrabas, das oliveiras que por vezes irrompem dos muros brancos, os rostos tisnados pelo sol do Alentejo, passadiços, recantos, larguinhos, os miradouros e o anfiteatro de cal e xisto que se espelha no Grande Rio do Sul.
O criptopórtico, a cisterna do castelo, a torre de menagem, o núcleo paleocristão, o núcleo de Arte Sacra, a oficina do ferreiro, o núcleo romano na cave do edifício da Câmara Municipal e a ermida de São Sebastião são partes de um todo que marca para sempre olhar e coração.
Até um bar, que já se chamou Al Sacrane e foi renomeado Al Safir, participou nesta envolvência, a par do Lancelote, todos espaços de convívio e fruição.
Os moinhos de maré, os percursos pela natureza em pleno Parque Natural, a beleza de freguesias como Santana de Cambas ou Alcaria Ruiva, a memória mineira de São Domingos, os lugares de vento, silêncio e água como Pomarão, onde os carris das vagonetas das Minas e os veleiros falam de duas realidades, dois tempos…
Ou os topónimos que remetem para uma identidade rural como Picoitos, Bens, Formoa, Salgueiros, Sapos, Montes Velhos, Monte do Guiso…
Mértola festeja de dois em dois anos o seu passado árabe com uma tradição reinventada: O Festival Islâmico.
Marroquinos e tunisinos de verdade aqui mostram doçaria, artesanato, dança, música e gastronomias deliciosas como o couscous e a tagine.
No pequeno e simpático cais é possível embarcar no “Vendaval” e passear rio abaixo até Alcoutim e Vila Real de Santo António.
Por esses montados e barrancos, quantos tesouros do passado dormem ainda o seu sono de séculos?
Mértola é um dos grandes lugares do Mundo, pela sua paisagem, pela História que os homens escreveram no seu território, pelo espaço mágico partilhável, onde revemos o que fomos.
O aroma das especiarias, o rumor das vozes, cânticos de Muezzines e sons de alaúde são imaginados ao pôr do sol ou revisitados de dois em dois anos em Maio, quando alaúdistas, dançarinas e vendedores de tudo povoam estas ruas para nos maravilharem.
Marque encontro com Mértola, com a sua tela de cores que se transmuta em cada época do ano e com os sabores da cozinha alentejana em alguns dos seus restaurantes.
Deixe-se encantar com os seus monumentos e habitantes. A Primavera inunda de poesia os campos deste Baixo Alentejo, espalhando alegria e aromas. Esta antiquíssima vila do sul, onde até a brisa é mágica, aguarda a sua viagem. O seu destino é ser feliz!
Luís Filipe Maçarico
Foto de Rosário Fernandes







ONTEM
O território alentejano onde os seus habitantes desenvolvem actividades e projectos, corresponde a um terço do espaço geográfico continental português.
Os largos horizontes, o trigo, a oliveira, a azinheira marcam os indivíduos, a par das suas vivências, dos sonhos, das lendas, da poesia em que mergulham, fazendo décimas, associando-se no cante.
Nas tabernas, nos convívios, nas feiras, nas festas, os alentejanos soltam as gargantas e delas irrompe um sol de sílabas, uma brisa fraterna, um trilar de pássaros, um rumor de chuva.
A tradição, a sabedoria popular, os rituais, os costumes ancestrais, observáveis nos comportamentos, na gastronomia, na cultura, que evidencia em Fialho de Almeida e Manuel da Fonseca dois expoentes de vulto, são valores identitários, que sublinham o carácter de um povo, que foi resistindo a um certo abandono, disseminado por políticas governamentais autistas e dilatado pela desertificação e o envelhecimento.
HOJE
As autarquias locais sustêm parte substancial da população, proporcionando trabalho, estancando a sangria migratória, ajudando a manter pertenças.
Os apoios comunitários nem sempre foram parar a boas mãos. A ostentação dos bafejados, visível em espampanantes pecúlios e a falência de experiências empresariais oportunistas empobreceram ainda mais a região.
Alqueva alimentou o imaginário de gerações. A escassez de terra disponível para usufruto da população activa e o desinteresse dos jovens pela actividade agrícola, determinaram a inversão de um desígnio promissor. Entretanto, os espanhóis vão ocupando o território…
Não obstante a esperança de um Mundo mais justo, reanimada em 25 de Abril de 1974, intuitos seculares de escassos privilegiados, têm conseguido maior enriquecimento, à custa da agonia do colectivo com parcos recursos, parecendo eternizar-se.
E como se tudo isto já não fosse suficientemente acabrunhante, os iluminados bajuladores de Bruxelas inventaram um alargamento artificial da região, abarcando agora o Alentejo - para efeitos dos subsídios comunitários que visam beneficiar o distrito de Santarém - parte substancial do Ribatejo.
AMANHÃ
Restam os valores decorrentes da herança transmitida pelos antepassados. A pujança do património material constatável na monumentalidade dos castelos, das catedrais, dos paços, dos centros históricos, no espírito de lugares míticos como Aviz, Beja, Évora, Marvão, Mértola, Monsaraz, Montemor-o-Novo, Noudar, Vidigueira, só para citar alguns exemplos.
A preservação da memória - histórias de vida como as dos contrabandistas, que originaram rotas de veraneio e aventura para gente citadina, os tesouros da oralidade, perceptíveis no adagiário e no cancioneiro.
O património imperceptível, como é o caso da linguagem das velhas portas de madeira trabalhada, repletas de autênticas jóias das forjas de antanho, com artísticas aldrabas, batentes, puxadores, postigos.
O património imaterial como as saias, a viola campaniça, as modas. A preciosidade de uma gastronomia sem par. Um saber fazer que deixou na paisagem dos montados, das searas, das serras, dos rios, da raia e da costa, a taipa e a abobadilha, os tapetes de Arraiolos, os oleiros do Redondo e São Pedro do Corval, os queijos de Serpa e Nisa, o pão alentejano, os montes, a arte de abegões e ferreiros, a panóplia patrimonial que a forma de estar dos alentejanos originou.
O Turismo será o ouro do futuro.
Todavia, para que o património seja fruído, indispensável é divulgá-lo para que todos, visitantes e população residente sintam a importância incontornável do legado que recebemos. É preciso guardar as palavras que as velhas bibliotecas vivas podem partilhar. Não deixem morrer os velhos, sem registar o que eles aprenderam com os seus!
A açorda, as migas, o ensopado de borrego, o cozido de grão, o gaspacho, a sericaia, a moda da silva, as recordações do ferrador, são momentos de grande intensidade e beleza da Comunidade, que urge proteger do esquecimento. Para que haja interesse em continuar a viver nas terras do sul, proporcionando aos que buscam estes espaços uma identidade singular, genuína, com múltiplas propostas à escala humana.
Lisboa, 6 e 7 de Dezembro de 2007
Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)









Évora é, como me disse certa vez uma jovem brasileira (Helen Dias) aquela cidade onde apetece viver "mil anos".
As suas praças de vivências, rumores e tanta harmonia onde a vida respira sob um azul rútil, como diria a minha conterrânea e amiga Maria Amélia, uma eborense que tem no quintal um jardim andaluz, com cerejeiras, limoeiros e odores de jasmim, hortelã, alfazema, alecrim e rosmaninho.
Évora apresenta uma das mais belas catedrais do país e o templo de "Diana", que emblematicamente coroa a passagem dos séculos, tesouro romano que continua a ser cenário de deslumbre para os viajantes de todo o Mundo.
A luminosidade do Alentejo inunda e destaca a brancura dos edifícios, projecta jogos de claridade e penumbra entre arcadas e fachadas de imóveis onde o traço de grandes arquitectos em épocas distintas sobressai.
Procurem e admirem o esplendor das igrejas da Graça, S. Francisco, S. Antão, S. Mamede, da Misericórdia, detenham-se diante da Capela de São Brás, observando a minuciosa e criativa elegância dos seus contornos.
Embrenhem-se no labirinto medievo das suas ruelas, arcos, becos, espantem-se com a profusão de aldrabas e batentes, ainda intactos e contemplem os postigos misteriosos, que nos fazem imaginar personagens de romances antigos, talvez de Herculano ou Alexandre Dumas.
Sentem-se na Praça do Giraldo, deambulem por todas as esquinas, por todo o serpenteado de ruínhas, saboreiem nomes como a Rua do Imaginário, da Mangalaça, a Travessa Torta, o Beco do Themudo, e outras toponímias que Túlio Espanca interpretou.
O manuelino e o barroco convivem por todo o lado.
Desde o Largo das portas de Moura, desfruta-se a inigualável varanda do palácio Cordovil, o tanque onde o azul e a pedra se reflectem num fantástico leque de espelhos e ao fundo, lá para os lados da Sé, a janela manuelina de Garcia de Resende. É impossível ignorar tanta beleza e não ficar bafejado pelo espírito desta cidade com uma aura particular, comparável às urbes da Itália renascentista.
A muralha que abraça e se entrelaça em artérias como as Alcaçarias, o Aqueduto das Águas de Prata, as arcadas de luz mágica. A estatuária que irrompe nos frontespícios, nas fontes, em palácios e templos, os nichos de alguns recantos, a cantaria presente em inúmeros prédios, as preciosidades das forjas que ainda cantam, o silêncio inesperado de travessas salpicadas pela voz dos sinos. Évora é também o prazer de aspirar aromas de cozinhados irresistíveis, ou a possibilidade de saborear uma gastronomia autêntica, vinhos divinais e uma doçaria conventual incontornável.
Évora é uma terra de emoções fortes e cores vibrantes. O azul como o sol, bem como a lua e as nuvens escuras não têm meia - medida. São intensos.
A noite profunda, quente, dos "sepulcros caiados de branco" acorda "espíritos benéficos". É ainda Maria Amélia, a senhora do jardim perfumado que fala, passeando no espaço de cágados e alcachofras, de trepadeiras e malmequeres onde os pássaros irrompem até que o crepúsculo os adormeça.
Entre cereais, Évora cintila, alvejando na presença ancestral uma luz que enleva e cativa.
Luís Filipe Maçarico (Artigo publicado no número 32 do quinzenário "Conversas de Café"
http://www.conversasdecafe.pt/cc/ConversasDeCafe_032_Mar2008.pdf






