"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, janeiro 31, 2008

O Olhar de Cristina Maria



Cristina Maria vive e trabalha em Évora. O seu olhar capta quotidianos de um mundo, onde lhe coube aprender a fruir formas e cores, transpondo para a tela das emoções vozes e tons de realidades tão diversas, como a da ceifeira e da mãe africana.
Cristina pinta com sensibilidade e cada quadro seu apresenta-nos os seres humanos no seu contexto. Gente do sul, desse sul onde a água rareia. Gente do sul, desse sul onde a poesia floresce, entre o deserto e o sorriso.
Obrigado, Cristina pela tua paleta mágica!

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Três Poemas Sobre a Natureza deste Tempo, de José Filipe Rodrigues




Não resisto a partilhar mais poesia, que me chega do outro lado do Atlântico, desde Fall River. José Filipe Rodrigues, já aqui apresentado há dias, continua a escrever os seus poemas, enquanto respiração da alma, que são reflexões sobre um tempo frio (metafórico), onde além do gelo de uma Natureza, por vezes tão instável, existe a instabilidade do gelo/desvairo que atravessa as egoístas e explosivas relações humanas, outrora criticáveis, hoje rotineiras.

A poesia, esta, fica como registo destes tempos difíceis, em que o frio também é interior, mal de vivre...

AS VAGAS DE BRANCO

As sucessivas vagas de branco
penetram o interior das convicções
e deixam a ideia de que os nevões
são momentos de purificação
purga e início da regeneração.
Mas esse branco que tanto promete
depressa petrifica ou derrete
e desvanecem-se todas as intenções originais
como acontece com muitas pessoas normais.
O LAGO

Este lago que alimenta a cidade
e sacia a sede das pessoas e os jardins
dizem ter sido propriedade de tribos
presidentes e figuras da realeza.
Essas lendas são de desmesurada ambição
porque ele é pertença de ninguém.
O lago é uma parte da natureza.
e só na natureza ele está bem.

O ESTADO DO TEMPO

os esquilos andam baralhados
com os diferentes estados do tempo
neste inverno confuso e inconsistente.
há quem diga ser normal na Nova Inglaterra.
há quem diga tratar-se de mutações
meteorológicas no planeta Terra.
a verdade é que nas previsões
pode-se ter calor frio ou assim assim.
das três temperaturas e situações
que podem acontecer, cá p’ra mim
eu prefiro ou o frio ou o calor de cada momento
sejam qual forem as estações ou o estado do tempo
porque é no assim assim de indefinições
que adoeço, que apanho as constipações.
Poemas e fotos de José Filipe Rodrigues

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Perfil de Eduardo Ramos, publicado no nº 27 do Jornal "Conversas de Café"





“Como sou dos poucos que faz este género de música sempre vou sobrevivendo.”

Uns anos antes de conhecer Eduardo Ramos em 2001, no Festival Islâmico de Mértola, já ouvira falar da sua primeira incursão na música arabista, cantando poetas luso-árabes. O seu disco “Andalusino” circulava. Seguiu-se “O Ocidente do Al-Andaluz”, “Moçárabe”, “Cântico para Al-Mutamid”, “Uma Noite no Palácio do Jasmim” (gravado em Janeiro de 2006, no Centro Cultural de Belém) e “Romances de Peregrino.” Inspirado na poesia de João de Deus, “Canto de Flores, Canto de Amores”, fora o seu primeiro trabalho discográfico.
Animador de festas reinventadas, como as “Noites da Moura Encantada”, em Cacela, ou da comemoração da Feira Medieval de Lamego, Eduardo Ramos tornou-se presença requisitada para concertos em Lagoa, Loulé, Silves, Albufeira ou nos Jerónimos (no Museu de Arqueologia) sob a égide da Associação de Amizade Portugal-Egipto. Nas suas actuações os filhos acompanham-no: Tiago na precursão e Carolina na dança do ventre.
Natural de Penedo Gordo, Beja, é em Silves que mora, há quase duas décadas, depois de uma dúzia de anos a residir no Carvoeiro. Aqui compõe as melodias mágicas com que nos brinda para ilustrar a poesia de Al-Mutamid e Ibn Amar.
O seu percurso está ligado à prenda que o pai lhe ofereceu na adolescência –uma viola. Com ela aprendeu a voar nos caminhos da Música. Filho de militar, viveu em Luanda, absorveu os ritmos africanos, fundou e tocou em conjuntos dos anos 60 e 70, prosseguindo no Algarve, onde conheceu a sua mulher Janica, uma busca musical que o levaria à escolha do universo poético e sonoro árabe, através de uma actuação de Anuar Brahem. Eduardo Ramos tomou então a decisão de adquirir um alaúde na Tunísia, durante uma viagem àquele país.
Eduardo recorda: “Formei em Angola, os “Windies”, “Grande Malha” e “Ki Kanta”, sempre com dois angolanos, Beto na bateria e Rakar na viola baixo. Viemos juntos para o Algarve e tocámos em grupos, bailes...Foi uma aprendizagem musical, para saber estar em cima do palco, o que é muito importante. Depois foi a fase de tocar em hotéis sozinho, com viola de doze cordas, música anglo-saxónica, tradicional portuguesa e angolana. Quando comecei a dedicar-me à música árabe, foi como reencontrar uma coisa que andava à procura. Ao ficar imbuído desses sons, dessa cultura musical, senti que era o que andava à procura há anos e anos, e do qual não quero mais sair. Ao nível profissional tem sido muito bom, tenho evoluído musicalmente, e ao nível de concertos, por causa de festivais/feiras medievais, árabes e islâmcas, há uma abertura à medievalidade e arabidade. Como sou dos poucos que faz este género de música sempre vou sobrevivendo.”
Eduardo Ramos compõe “de cabeça e fixo tudo. Não sei uma nota de música.” Quando as melodias surgem“ É um mistério. Às vezes estou na cama, ligo o gravador, toco o alaúde e aprendo o que tinha gravado no dia anterior. São coisas repentinas, que não sei de onde vem, parece que são deuses, musas, que nos sopram a inspiração. A improvisação faz muito parte da minha música. Isso é capaz de vir da minha passagem do jazz-rock.” Tem três alaúdes, todos tunisinos e está à espera do quarto. Mas utiliza também a flauta indiana, a zucra (que é uma gaita da Tunísia, feita em cana que tem um corno), gambry de Marrocos, berimbau, quissange (de África, que aprendeu em Angola) e viola.
Com espectadores fiéis que o acompanham pelo país (“Em todos os espectáculos senti que o público sempre teve uma grande comunhão”), Eduardo Ramos é um músico de referência pelo excelente desempenho, de grande originalidade e qualidade. “As poucas pessoas que têm tido conhecimento, têm elogiado o meu trabalho, mas como é fora do circuito comercial e só uma minoria liga à cultura, é conhecido de um pequenino público que se interessa pelas minhas coisas.”
O alaúde nas suas mãos é fonte de poesia, asa feliz de pássaro livre. Pergunte urgentemente pelos discos dele, pois nem sabe o que anda a perder...

Texto e fotos: LUÍS FILIPE MAÇARICO

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Eduardo Ramos Actuou Em Lisboa




Carolina dançou, Tiago tocou e Eduardo Ramos cantou, tangendo o seu alaúde novo...Foi durante as primeiras horas desta noite no Pestana Palace Hotel, Alto de Santo Amaro, durante um evento destinado a divulgar as pousadas de Portugal.
texto e fotos LFM

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Inverno


No meu largo, de vez em quando, o Inverno adormece...

sexta-feira, janeiro 18, 2008

O Comboio de Boston e Olhos Cristalinos - Dois Poemas de José Filipe Rodrigues



Tenho recebido inúmeros mails, desde Fall River, repletos de beleza, na partilha de uma sensibilidade que as pessoas com coração de artista não podem deixar morrer, algumas vezes chega igualmente o comentário e a crítica aos malefícios das decisões dos senhores do Mundo, ou simplesmente o júbilo pelos pequenos triunfos do quotidiano, que constituem alimento para continuar a caminhada.

José Filipe Rodrigues tem-me presenteado com imagens maravilhosas: a Natureza captada no esplendor do Outono ou expondo nevões que, sendo envolventes, impedem o sol. E a imensa fraternidade, nas palavras escritas e ditas ao telefone. É que o Filipe, se adivinha que eu não ando bem, liga-me desde essa distante América, para me dar aquele estímulo, que me ajuda a renovar. Bom amigo este, que conheço à distância, pela net, mas nascido na mesma Évora, a que também pertenço. Não podia deixar de voltar a falar dele e da sua poesia... e direi mais: este vate, pela sua voz singular e por ser senhor de uma lírica original, onde o conhecimento académico se mescla com a linguagem coloquial, originando uma matriz essencial desta escrita, merece ser publicado e divulgado no país que o viu nascer.
Bem Hajas José Filipe!

O COMBOIO DE BOSTON

O comboio de boston descarrilou
nos escritórios almofadados da capital do estado.
Triste, mas é daquelas situações normais
a que o ingénuo cidadão já está habituado.
Agora passou a fazer parte das campanhas eleitorais
em todos os dias, semanas, e meses do ano:
prometem resoluções, obras, e medidas extraordinárias,
oferecem sofismas, estudos e planos de engano.
O comboio de boston descarrilou na capital do estado.
Ao menos ainda existe o caminho para lembrar aos atentos:
que os papagaios já têm o disco riscado,
que grande é a distância entre os discursos e a coerência,
e que, para continuar a ser eleitor,
é necessária muita paciência.
OLHOS CRISTALINOS
(Obrigado Luis, e tu sabes porquê!)

Só uns olhos cristalinos
Podem ver a pureza e simplicidade
nas paisagens sem mácula
dos diferentes ciclos do tempo.
Mesmo nos dias de céu nublado
Cinzento, confuso e gelado
Há lírios e rosas e rosmaninho
Sorrisos sonhos e um caminho
A flutuar em todos os momentos
Para os peregrinos atentos.

Poemas e Fotografias de José Filipe Rodrigues. Introdução:LFM

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Portugal Islâmico vai ser tema de Mestrado em Mértola












Recebi hoje uma mensagem que me encheu de alegria. Confesso a minha pena por não ter neste momento as condições (económicas, inclusivé) para poder participar no que é proposto no blogue que me chegou via mail. Transcreva-se então a notícia desse blogue, para gáudio dos leitores deste ÁGUAS DO SUL que tenham interesse: http://mestrado-portugalislamico.blogspot.com/

"O Mestrado será promovido conjuntamente pela Universidade do Algarve, através do Departamento de História, Arqueologia e Património da FCHS, e pelo Campo Arqueológico de Mértola. As aulas decorrerão em Mértola, nas novas instalações do Campo Arqueológico de Mértola - http://www.camertola.pt/ -, de acordo com um esquema ainda a definir. Em princípio, os tempos lectivos terão lugar às sextas-feiras à tarde e aos sábados (todo o dia). Início do Mestrado - Outubro de 2008 (aguarda aprovação por parte do Ministério da Ciância, Tecnologia e Ensino Superior).
Objectivos deste Mestrado:

O Mestrado em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo foi criado por iniciativa da Profª Doutora Teresa Gamito e teve a sua primeira edição no ano lectivo de 2003/2004.

Contou então com sete alunos, número que se repetiu na edição seguinte, ora em fase de conclusão, quase todos originários de diferentes áreas científicas de base, facto que, sendo em uma riqueza, não facilitou o desenvolvimento de uma formação homogénea.

A docência tem sido assegurada por professores da Universidade do Algarve, com recurso a colaborações externas, mas de carácter pontual. O actual director do Mestrado é o Prof. Doutor António Rosa Mendes, professor auxiliar do Dep. de História, Arqueologia.

Por várias razões, este capital de saber e de experiência deve ser mantido e renovado. Em primeiro lugar, porque o seu âmbito interessa sobremaneira aos territórios do Sul, quer pela sua feição mediterrânea e pelas ligações pluri-seculares a esse mar interior, quer pelo impacto da história e da cultura islâmica na fisionomia das gentes e do espaço e na trajectória daqueles territórios.

O mestrado em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo foi, por outro lado, o primeiro curso de 2º ciclo neste domínio a ser criado em Portugal, facto que deve ser recordado e devidamente sublinhado. Sem que isso deva impedir, contudo, a adaptação a novas exigências, reforçando as componentes histórico culturais mediterrâneas e centrado-o num domínio específico que se designou como o Portugal Islâmico. Por tudo isso, não admira que, nesta proposta de adequação, se mantenham inteiramente válidos os pressupostos gerais da criação do curso de Mestrado em Cultura Árabe, Islâmica e o Mediterrâneo. Aí se dizia, e ora se repete, que era necessário “organizar um curso (....) como reflexão sobre o Mediterrâneo e as grandes culturas e civilizações que se desenvolveram nas suas margens, bem como o enorme contributo que tiveram nas formações da Europa e de Portugal (...)”. Parece também importante manter como base de trabalho ideias como o estudo dos povos e civilizações que viveram nas margens do Mediterrâneo, nas múltiplas facetas que a primeira versão do mestrado se propunha abordar. Consideram-se igualmente pertinentes as considerações incluídas no enquadramento científico e nos objectivos que sustentaram aquela proposta inicial e que se reproduzem em seguida.

Quanto ao enquadramento científico, dizia-se “Este curso de mestrado insere-se na área das Ciências Humanas e Sociais, no conhecimento das linhas de força e desenvolvimento das civilizações e povos do Mediterrâneo, na sua especificidade e na sua articulação com a Europa. Só conhecendo as civilizações e a cultura do Mediterrâneo poderemos compreender a civilização europeia ocidental”.

No que respeita ao objectivo geral, esclarecia-se: “O objectivo (…) é o de preparar os estudantes para um conhecimento mais profundo do nosso passado e do nosso presente, da região onde nos encontramos inseridos, das civilizações que aqui se desenvolveram, e habilitá-los a participarem em acções de interacção e colaboração entre os povos, em relações e contactos diplomáticos de conhecimentos, inter-colaboração e desenvolvimento mútuos, em projectos de investigação e desenvolvimento (…).
Em suma, o curso de mestrado em Portugal Islâmico e o Mediterrâneo propõe:

- aprofundar e estudar problemas culturais e civilizacionais;
- aprofundar a reflexão sobre as correlações entre o ambiente e a civilização dos diversos povos do Mediterrâneo;
- aprofundar os conhecimentos sobre civilizações que nos influenciaram em diversos domínios: científico, linguístico, artístico etc.
- desenvolver mecanismos de maior entendimento e conhecimento entre os povos;
- capacitar o desenvolvimento de projectos em comum;
- e dotar, por fim, os alunos com a formação adequada para desenvolverem investigação pós-graduada e prosseguirem estudos através da frequência de um curso de 3º ciclo (doutoramento).

Estrutura Curricular:
1º Ano / 1º semestre O Islão e o Mundo Mediterrâneo: islamização, cultura e sociedade (História) 10 créditos; Perspectivas Teóricas e Metodológicas da Investigação Científica (História) 10 créditos;

1º Ano / 2º semestre História e Património do al-Andalus (História) 10 créditos;

Opção I (H, Arq, HA) 6 créditos Opção II (H, Arq, HA) 6 créditos

2º Ano / 1º semestre Opção III (H, Arq, HA) 6 créditos; Opção IV (H, Arq, HA) 6 créditos; Opção V (H, Arq, HA) 6 créditos; Dissertação 15 créditos
2º Ano / 2º semestre Dissertação 45 créditos. História (H) Créditos obrigatórios 30 / créditos optativos 12; Arqueologia (Arq) Créditos optativos 6 -12; História da Arte (HA) Créditos optativos 6-12; Dissertação H/Arq/HA 60;
Total 120 créditos (90 obrigatórios / 30 optativos)
No âmbito do Mestrado estão, para já, previstas as seguintes opções:

1º ano/2º semestre: O Mediterrâneo entre os Finais do Mundo Antigo e o Início do Espaço Atlântico (H) Semestral 6 créditos; O Norte e o Sul: a Jihad e a Cruzada (H) Semestral 6 créditos
Estruturas Sociais do Islão: Arcaísmo e Modernidade (H) Semestral 6 créditos.

2º ano/1º semestre: O Quotidiano e a Cultura Material no al-Andalus (Arq) Semestral 6 créditos. Arte Islâmica (HA) Semestral 6 créditos. O Mudejarismo em Portugal (HA) Semestral 6 créditos. Estruturas de Povoamento no Gharb al-Aldalus (Arq) Semestral 6 créditos.
Os docentes do Mestrado, e cuja participação está desde já assegurada, são provenientes de universidades nacionais e estrangeiras:
António Malpica Cuello (Univ. Granada) *António Rei *António Rosa Mendes (Univ. Algarve) *Christophe Picard (Univ. Paris 1 - Sorbonne) *Claire Delery (CAM) *Cláudio Torres (CAM) *Fernando Branco Correia (Univ. Évora)Filipe Themudo Barata (Univ. Évora) *Francisco Teixeira (Univ. Algarve)Hermenegildo Fernandes (Univ. Lisboa) *Isabel Cristina Ferreira Fernandes (CAM)João Pedro Bernardes (Univ. Algarve) *José E. Horta Correia (Univ. Algarve)*Luís Filipe Oliveira (Univ. Algarve) *Maria dos Anjos Cardeira da Silva (Univ. Nova de Lisboa) *Maria Filomena Barros (Univ. Évora) *Santiago Macias (Univ. Algarve / CAM) *Susana Gómez Martínez (CAM) *Nº de docentes proposto: 18;

Nº de docentes com doutoramento: 16 (*)

Conferencistas:António Borges Coelho *Jean-Pierre van Staevel (Univ. Paris 4 - Sorbonne) *José Mattoso *Juan Zozaya Stabel-Hansen *
Conferencistas com doutoramento (*)
Para mais informações envie um mail para:
Prof. Doutor Luís Filipe Oliveira - lfolivei@ualg.pt
Prof. Doutor Santiago Macias - smacias@ualg.pt
Fotografias: Rosário Fernandes