"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, setembro 19, 2007

RUA VIEIRA DA SILVA








Batentes, espelhos de fechadura, aldrabas, trancas... Há um pouco de tudo nesta rua, em termos da linguagem da porta.
Sobreviveram à rapina e às fúrias da ignorância, que esvaziam a cidade de uma parte do património identitário.
Efectivamente estes objectos acompanharam aquelas pessoas na sua caminhada. Pertencem ao seu imaginário, às recordações de toda uma vida...
Gostaria que a Junta de Freguesia dos Prazeres (como todas as outras) e a Câmara Municipal de Lisboa (como todos os municípios do país) pudessem fazer qualquer coisa.
Nem que fosse a edição de livros e postais sobre estes utensílios...
Parafraseando o jornalista Augusto Baptista, de Oliveira de Azeméis: "Por favor, Salvem os Batentes!"
Texto e fotos de Luís Filipe Maçarico

terça-feira, setembro 18, 2007

Uma Tela de Cristina Maria


Conheci-a no dia 7 de Junho em Évora. Chama-se Cristina Maria, é jovem e minha irmã.
Pinta a realidade com um olhar naturalista e romântico, que transforma a vida num festival de cor e sensibilidade. O paraíso que não há, procurado e exaltado na Arte...
Tive de entrar no Hi 5 para poder ver alguns dos quadros que tinha pintado e copiar este, porque a marota não me enviou nenhuma imagem para o meu e.mail...
É, pareceu-me, uma mulher discreta, de poucas falas, que se sente bem a voar nas asas da criatividade.
Por isso, também com poucas palavras, porque o que conheço dela é muito escasso, deixo aqui para vocês (e para ela) esta lembrança.

segunda-feira, setembro 17, 2007

José Esteves e o pater alígena dos grelos em forma de x


Há 11 anos o professor José Esteves escreveu estas palavras que estão, infelizmente, cada vez mais actuais:
"O maior crime político deste país tem sido, porque sem escândalo nacional, o desinteresse pela educação."
No passado fim de semana participei num debate acerca do património imaterial, durante o qual,a certa altura, um interveniente questionava-se sobre o desinteresse geral das pessoas por tudo o que tenha a ver com cultura e de que maneira se poderia alterar esta situação.

Sugeri que a solução do problema passasse pela escola e que fosse estimulada a curiosidade científica, em vez da tolerância sem acompanhamento, que deixa os putos horas e horas entregues aos computadores, não para se adestrarem no sentido da descoberta enriquecedora, mas para jogarem jogos por vezes violentíssimos e viciarem-se na vida virtual dos chats, onde numa idade em que a língua ainda não é devidamente conhecida, se escreve com muitos "K" e muitos "x" para abreviar palavras... O que parece ser a face menos perigosa desse saborear da liberdade do Mundo Novo, oferecido (e confundido) por pais outrora fustigados por exigências e excessos moralistas, onde a censura castrava qualquer voo, e dos quais graças ao 25 de Abril nos libertámos.

Logo fui criticado por um daqueles indivíduos que entendem que a Internet nas mãos dos jovens é de grande alcance, coisa que segundo ele, eu não possuo por temer um futuro de analfabetos linguísticos (que podem saber dominar as técnicas de navegação na web, mas dificilmente saberão redigir). "Deixa-os escrever com xis e com Kapas, pá! os gajos têm uma criatividade e uma imaginação que tu não atinges, pá!"

Quer-me parecer que o fulano em vez de filhos, deve ter criado alígenas na horta onde semeia cebolas transgénicas (ou andará a fazer experiências com bróculos formato k e grelos parecidos com um x?)

Pois é! Antigamente uma família tinha de dividir uma sardinha para 4 ou mais membros.
Agora a miudagem é obesa (as percentagens são alarmantes!)
Mas há quem considere que estamos no melhor dos mundos possíveis...
Texto: LFM; Fotografia: Rosário Fernandes

domingo, setembro 16, 2007

A Aldraba na EncontrArtes de Estremoz








Decorreu no Parque das Feiras de Estremoz a 1ª EncontrArtes, onde a Aldraba conduziu um debate sobre o Património Imaterial.
A iniciativa teve o patrocínio da Câmara Municipal de Estremoz, a coordenação de Hugo Guerreiro, do Museu Joaquim Vermelho e a participação de associações ligadas à salvaguarda do património local como a Lincemoz e a Fica.
Além da intervenção de Luís Maçarico, que apresentou as 7 Maravilhas do Património Imaterial Estremocense, intervieram os poetas Francisco Cunha e António Simões.
O debate foi moderado por José Prista e houve intervenções de Domingos Xarepe, Maria Eugénia Gomes e de outros espectadores.
Na assistência, a poetisa São Baleizão seguiu com interesse as intervenções.

sexta-feira, setembro 14, 2007

RAÍZ DE SEDES



Sou uma semente lançada
ao deserto.

Perdido, invento a gota
de água para ganhar asas.

Sou uma raíz de sedes
a germinar no território do nada.

Esquecido, resisto e bebo a força
que guardo na alma.

Solto sonhos, teimosamente.
Acredito ainda num sorriso

que vai chegar e devolver-me
a vida que me roubaram.

Poema de Luís Filipe Maçarico, escrito em 14-9-07 (13h 40m); Fotografia de Sónia Frade

TENHO SAUDADES DOS AROMAS DESSE PAÍS DISTANTE




Tenho saudades dos aromas desse país distante, que me enchem as narinas de encanto. Odores de mar e harissa, colorindo o sol de cada dia. Músicas estranhas desinquietando os sentidos.
Tenho saudades daquele que fui, percorrendo os envolventes caminhos da descoberta, buscando uma energia única no silêncio dos horizontes desmedidos...
Tenho saudades de ser, no Outro, o Eu que me falta!
Texto: LFM; Fotos: Sónia Frade.

sábado, setembro 08, 2007

INGLESES, ESTATÍSCAS, MEDIATIZAÇÃO & SARAMAGO


Há alguns anos atrás, quando dava os primeiros passos na Internet li um site inglês - que me revoltou - onde se assegurava que Portugal era Marrocos da Europa.
A única coisa errada nesse site era ele ser feito por gente arrogante e estúpida, que se julga superior.
Constantemente escuto relatórios estatísticos, quando faço a barba:
Menos mortos no período x, do que em idêntico período em ano anterior;
Menos incêndios no período y ,comparativamente com anos passados.
Mas houve ou não houve mortos?
Mas houve ou não incêndios?
Na Grécia houve: terríficos, dantescos noticiários, relatando a agonia prolongada de aldeias, de paisagens, de patrimónios, de seres humanos...Morremos sempre um pouco quando o mundo que conhecemos se evapora do mapa, e o triunfo da destruição cunha a sua maléfica pata.
Oliveiras queimadas, velhos, crianças e animais fulminados por uma Dor que não se consegue transmitir com nenhuma palavra.

O mediático casal inglês, com poderosas ligações ao Governo de Sua Majestade, Fátima, Vaticano, etc., protagonista da misteriosa tragédia , que tem ocupado todos os dias, desde Maio, neste país terceiro - mundista, um mínimo de meia hora nos telejornais, com repórteres in loco, comentadores, entrevistas, especulações, espalhou no início, abundantemente, fotografias da malograda criança desaparecida, para três meses decorridos criticar que há imagens da menina em excesso...
O que me impressionou neste caso, foi a falta de emoção. Disseram-me que os british são frios. Todavia, as imagens que diariamente nos chegam do planeta, com reportagens de calamidades em todas as latitudes, mostram (até de forma obscena) o sofrimento da perda. Mas nem precisamos de buscar comparações com os rostos torturados da Somália, do Líbano, da Palestina, da Bósnia, do México, ou de Timor. Basta retermos o olhar lancinante daquela mãe do Norte de Portugal cujo infeliz filho, foi raptado há demasiado tempo.

A história está mal contada... Há qualquer coisa que não bate certo...
Lembro-me de, nos primeiros dias do caso da criança britânica desaparecida, o criminalista Barra da Costa, estranhamente silenciado, ter revelado pormenores inquietantes e sublinhar que se devia perceber quem era esta gente, qual o seu percurso e de Moita Flores insistir na importância do excesso de garrafas de vinho consumidas na fatídica noite, que todas as pistas deviam ser investigadas...

Pobre menina, desgraçados miúdos, cujas existências se apagam, por sinistra supressão das suas inocentes esperanças ou por negligência monstruosa.
Se a tese da ocultação de cadáver veiculada pela Imprensa é verdade, estamos perante um crime com consequências devastadoras, pois a generosidade das pessoas ficará abalada e se voltarmos a estar perante uma aflição com contornos idênticos à história inicial, contada pelos protagonistas, correm-se riscos inomináveis...

Acabei de saber, em notícia de última hora, pela TV, que o casal pretende abandonar o nosso país...quando ainda há não muito tempo diziam que só saíam daqui quando soubessem o que tinha sucedido...
Estão cercados pela fogueira mediática, que eles próprios alimentaram. Vítimas de si mesmos, personagens de ficções propícias ao surgimento de um ou vários Best Seller ou de películas intensas, candidatas a prémios. A Sociedade de consumo integra os furúnculos, tudo é vendável...

Cercados nós, de ilusões que mascaram a pobreza mental do país..
Saramago afirmou que a única esperança é integrarmo-nos em Espanha... As carpideiras de um nacionalismo bacoco que nos empobrece e menoriza vomitaram fogo.
Não fui de férias, nunca vou no Verão. Assisti silencioso a tudo isto.
Entretanto, fui lendo a prosa ímpar de Baptista Bastos no Jornal do Fundão: inconformista e excelso, desancando quase isolado uma situação política insuportável, digna de novelas de países da América latina, outrora muito distantes, pela corrupção que por lá avultava.
Salem Omrani durante um telefonema que fiz para Tozeur, falou-me em Português...qualquer coisa estremeceu dentro de mim...mas cada vez menos sinto orgulho em viver aqui.
Apenas tristeza. Por isso o silêncio...
Texto e foto de LFM