"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, novembro 21, 2006

Chafariz Monumental de D. João V: Um dos Postais de Alpedrinha e do Fundão






Felizmente que podemos ainda beber a quantidade de água que nos apetece sem pagar nada, nos chafarizes do país e respirar o ar serrano necessário para ganharmos asas e limparmos a alma dos atentados diários que as cidades grandes nos fazem, entre fumos, nevoeiros de poluição e milhares de escapes...
Aqui há natureza genuína: água pura brotando da pedra, jorros de música que anunciam o tempo de não haver sedes, na abastança do precioso líquido.
Uma paisagem sem pessoas não tem poesia.
Felizmente, que além dos monumentos que a singularizam, Alpedrinha tem um vasto punhado de gente que a estima, que contribui para a sua divulgação, sabendo receber bem, com rostos, saberes e o afecto de quem a sente como uma parte do seu ser, como uma pele, que prolonga o genes, a biografia, e se espelha na pedra, no património que os antigos nos legaram.
Nunca me cansarei de mostrar a beleza desta terra.
Para que ela seja procurada, desejada, visitada e dela se leve sempre a lembrança dessa hospitalidade, desse saber, dessa partilha que nos impele a voltar.
Dia 9 de Dezembro o Grupo Dramático e Escolar "os Combatentes", cujos corpos sociais do centenário integro, repetirá a excursão cujo pretexto foi uma representação do grupo cénico que nos anos 90 encantou a população de Alpedrinha, e desta vez volta renovado e com uma revista à portuguesa.
A minha forma de estar é esta: trazer mais e mais amigos à bela Sintra da Beira. Como aconteceu na Feira dos Chocalhos e nos 8 encontros de poesia realizados desde 1993.
Quantas pessoas se podem gabar de ter esta forma de gostar de um sítio?
Quem ama uma terra não tem outra forma de agir.
Amar é semear, construir, partilhar a luz.
Sempre ouvi dizer que as acções ficam com quem as pratica e a propósito de toda esta água que parece uma orquestra de trompetes irrompendo do granito apetece-me citar a minha sábia e magnífica avó que dizia "a água tudo lava, só não lava é a má língua"...
texto e fotos (em 19-11-2006) de LFM

segunda-feira, novembro 20, 2006

Apresentação do livro "Ar Serrano" - A Reportagem de Mário Sousa



No passado mês de Setembro realizou-se em Alpedrinha a Festa dos Chocalhos. No último dia do evento foi apresentado pelo vereador da Cultura da Câmara Municipal do Fundão, dr. Paulo Fernandes, o livro de minha autoria "Ar Serrano".
Um dos fotógrafos presentes foi Mário de Sousa e partilho connvosco dois momentos em que o olhar dele captou o que estava a suceder, que foi bastante intenso.
Em tempo reproduzi o que disse. Vejamos agora um sopro do que foi...

sábado, novembro 18, 2006

Tozeur


Por quanto tempo
os pés do peregrino
pisarão estas areias
onde o vento escreve
o grande poema
dos séculos?

Quem acordará
para o efémero sol
de um dia?

Tozeur, 30-12-2000
Luís Filipe Maçarico

segunda-feira, novembro 13, 2006

Biblioteca Municipal de Faro: Um Conto das Mil e Uma Noites


Entrada da Biblioteca Municipal de Faro: atravessa-se o belíssimo Jardim João de Deus e deparamo-nos com um magnífico edifício que o Blogger não permite agora mostrar melhor.
A arquitectura neo-árabe do antigo matadouro valoriza sobremaneira uma das mais bem organizadas bibliotecas do sul.
Conheço a de Portimão, a de Loulé, a de Silves, todas com pessoal simpático, mas esta está de facto bem apetrechada com uma panóplia de publicações (fundo local, arquitectura, ciências sociais) que pede meças a muita casa de saber que ilumina a alma das cidades que habitamos.
Parabéns ó povo de Faro! Aproveitem bem essa dádiva.
Texto e foto:LFM

domingo, novembro 12, 2006

Pedra Fingida


perto da janela entreaberta, por onde espreita o sol,
um sol devorador, os ângulos do corpo, do corpo
adormecido na tarde de cedros longínquos,
longínquos...

nos teus olhos vejo os meus
de pedra fingida...

1981

Luís Filipe Maçarico

(Foto de LFM:Parede exterior da igreja de Vila Nova de Erra, em Coruche)

segunda-feira, novembro 06, 2006

A Categoria da Marcha de Alcântara está na Capacidade de Trabalho e Criatividade da Comissão Técnica da SFAE



Na sede da Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, cujo espaço está bem cuidado e organizado, a marcha do ano seguinte começa a ser preparada após as férias do Verão.
Ontem voltei a estar com aquelas pessoas, a quem reconheço, além da dedicação, bastante qualidade, pois há uma participação entusiástica, com pesquisa bibliográfica, relativamente aos temas que se propõem evocar, e surgem sempre sugestões, durante a elaboração do novo projecto, o que tenho comprovado ao longo destes anos de colaboração.
À medida que o tempo passa, eles são como o vinho do Porto. Por isso, a marcha de Alcântara tem-se destacado pela beleza da cenografia que imagina para encantar os lisboetas e maravilhar os alcantarenses. Parabéns a todos pelo bom desempenho que estão a ter e viva a marcha de Alcântara e a SFAE!
Texto e fotos de LFM

domingo, novembro 05, 2006

Metáfora


A vida dos portugueses é desde há anos comparável com esta janela: emparedada e pintada de ocre em tons de céu. Ou seja, a asfixia disfarçada de sonho azul.
LFM (fotografia realizada em Vila Nova de Erra, Coruche; Fev.2006)

sexta-feira, novembro 03, 2006

RAQUEL TAVARES


A primeira vez que escutei esta voz, ela já era um ser de garganta e alma iluminadas, espalhando aos quatro ventos a benção dos deuses da sua arte de (en) cantar.
Não é possível ficar indiferente à sua interpretação, pois as palavras na sua boca são frutos do paraíso, sagrados néctares, voos em busca da pureza inicial.
Raquel Tavares canta com a força das fontes e a graciosidade dos pássaros, mas há nela a telúrica revelação de uma paisagem suprema, a leveza dos dias envolvidos em saudade.
Raquel era ainda uma menina quando venceu a Grande Noite do Fado (1997). Aos 21 anos prepara-se para colher o resultado de muito trabalho e dedicação. Auguro-lhe muitos triunfos, o carinho do público e o êxito que merece, por ser uma mulher inteligente e sensível, Fadista com F grande, de Festa e Felicidade.
Parabéns, Raquel por seres digna de um património chamado Amália!
LFM
Nota: A Raquel actua hoje no Auditório Ruy de Carvalho em Carnaxide, às 22h.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Cobras e Lagartos: Um Achado







A capacidade de nos surpreendermos é qualquer coisa de mágico que nos pertence como um tesouro...
Quem diria que uma telenovela me ia tirar do sério? Qual Gato Fedorento, qual Revolta dos Pastéis de Nata!
Farto de chachadas delicodoces, de más que fazem agora de boazinhas, e de boas que fazem de más, ao virar de novela, na TVI que dá sempre a mesma novela, uma amiga recomendou-me que purificasse os fígados na mais alucinada filigrana televisiva concebida e representada por brasileiros de grande gabarito que devem desbundar até mais não.
Fiquei fã e agora peço a todos que não me telefonem entre as 22 e 30 e as 23 e 45...
Há quem goste dos Gift, há quem não perca a Maria Laurinda, há quem prefira a Net e quem chupe no dedo...
Eu cá voto em Cobras e Lagartos para melhor divertimento televisivo que alguma vez foi feito em qualquer parte do mundo.

Cavalgada Alucinante


Os últimos governos antes daquele que nos (des) governa passaram o tempo a paralisar-nos a esperança. Este, corta-nos as pernas e espezinha-nos os sonhos.
De bom, Portugal já só tem um clima também ele desregulado, uma gastronomia ainda genuína (até quando?) e um Povo (que para alguns deve ser renomeado como Sociedade Civil) que apesar de hipnotizado e manipulado pelos poderes, integra muitos elementos sensíveis e criativos, capazes de encontrar uma solução para o Estado a que chegámos.
Fala-se com amigos professores e é terrível o ponto de vista com que caracterizam quem (des) governa, fala-se com amigos que trabalham em organismos do Poder Central e nada se augura de bom, fala-se com amigos que trabalham na Saúde e o panorama é desolador.
Será que enlouqueceu tudo, ou quem tem as rédeas desta cavalgada alucinante nas mãos não sabe o que está a fazer?
Responda quem souber!
Texto e foto:LFM

quarta-feira, novembro 01, 2006

Caos


Hoje não me apetece escrever nada. A rua onde moro está um caos. São duas e meia da manhã e centenas de indivíduos ocupam o espaço público berrando, estou cansado de um dia de trabalho e não me posso deitar porque não consigo dormir com tanto barulho. A polícia esteve uma vez mais aqui, multou dezenas e dezenas de carros mal estacionados, mandou fechar o bar que origina tudo isto, mas as multidões continuam a beber e a berrar como se o ar, o sítio, o meu sono, tudo fosse deles. O caos é este insuportável barulho: permitido, tolerado. De repente, um largo de Lisboa tornou-se um pesadelo. Não consigo escrever mais nada.
Foto: Candeeiro de Coruche (LFM)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Fantasmas deste Tempo



O convívio é numa sociedade humana algo de muito sagrado. O descanso está ao mesmo nível, no meu entendimento das coisas do mundo. No entanto, há quem deturpe territórios e invada, em nome dessa convivência, o sossego de quem trabalha ou trabalhou uma vida inteira...
A questão que está em causa não é retirar aos que gostam de beber um copo e divertir-se com os amigos, o prazer de fruírem esses momentos, mas de impedir que centenas de pessoas alcoolizadas o façam em zonas residenciais.
Na rua onde moro (Praça da Armada), desde há dois meses, os moradores das casas pequenas e com quartos virados para o largo, doentes e idosos, na maioria dos casos, são impedidos de dormir, mesmo que as janelas tenham vidro duplo, pois há mais de uma década existe um bar, cujos frequentadores fazem ocupação abusiva da via pública, deixando atrás de si em cada noite vasta poluição sonora (gritos, palavrões) além da poluição visual (garrafas de vidro e latas de cerveja, copos de plástico) e poluição do ar (tabaco e urina).
Ao longo de mais de dez anos os moradores sofreram um autêntico inferno, recorrendo muitos deles à esquadra do Calvário, que em grande parte deu resposta positiva, solicitando aos clientes do estaminé que depois de consumirem bebidas alcoólicas conversavam alto na rua, o silêncio devido.
Qual não foi o nosso espanto quando constatámos que a ocupação do espaço público se ampliou, das anteriores dezenas para as actuais centenas de frequentadores, observáveis nas noites sem chuva de quinta para sexta, sexta para sábado e sábado para domingo.
Verdadeiramente agora o bar é na rua!
O estabelecimento abre uma porta adaptada a balcão de onde escorre a cerveja e outras bebidas alcoólicas, potenciando um negócio chorudo, e os convivas bebem, berram e abandonam o recinto por volta das 4 horas - 4 horas e 30 da madrugada, altura em que cessa a animação musical emitida em decibéis descontrolados, seguramente interditos, a partir da baiuca.
Permitimo-nos não entender como foi possível ter sido concedido alvará a um espaço sem condições (uma parte substancial dos utentes urina na via pública) higiénicas e de insonorização, pois o ruído da música ouve-se nas nossas residências. Mas o mais surpreendente é que o alvará exibido no interior do estabelecimento impede o seu funcionamento para lá das 2 horas da madrugada, o que por si, tendo em conta o comportamento dos frequentadores é gerador de muito constrangimento nos habitantes dos prédios onde o ruído é dolorosamente sentido.
Foi pois com enorme espanto que assistimos nas últimas semanas a um recrudescer da actividade, frequência e consequentes resultados, em termos de algazarra e produção anárquica de resíduos sólidos, tudo confirmável in loco a quem se disponha actuar, salvaguardando-nos desta ameaça a prerrogativas básicas, em termos de direitos humanos e da legislação em vigor, própria de um Estado de Direito.
Quem tem de cumprir horário de trabalho é impedido de repousar o suficiente. Quem é doente fica pior. Quem é velho pasma com este estado de coisas.
Não acreditamos que seja possível à luz da Lei do Ruído suceder o que sucintamente descrevemos poder suceder sem submissão pelas regras sociais e legislação do País, numa zona residencial problemática com pessoas hipertensas, com risco da própria vida, pela noite dentro com total desprezo pelos moradores e pela cidade, pois reconhecemos que estes indivíduos não amam a cidade, porque amar a cidade é ter o sentido cívico de saber que outras pessoas residem ali e merecem não ser violentadas da forma que referimos, com tanta brutalidade sonora e estética.
Efectivamente, o lixo que fica após cada investida das multidões de frequentadores da referida betesga - e utilizamos estes termos porque sentimos que estamos a ser massacrados, torturados - testemunha, para quem tiver de intervir, com a incontornável força da realidade, que esta gente despreza a Lisboa onde crescemos, trabalhamos, vivemos e onde gostaríamos de morrer com dignidade, com direito a viver os últimos anos de vida com outra qualidade que não esta balbúrdia intolerável.
Esperemos que seja providenciado, no sentido de ser comprovado e analisado, durante várias noites de fim-de-semana o caos descrito, agindo de forma a repôr o normal usufruto da cidadania amputada por uns quantos, que desrespeitam o bem-estar da comunidade, usurpando direitos e espaços que não lhes pertencem.
Entretanto, na Rua Prior do Crato nº 10 estaõ a ser efectuadas profundas obras de recuperação do espaço de uma antiga peixaria e o povo diz que vai ser um novo bar. Na Rampa das Necessidades perfilam-se obras ideênticas na antiga carvoaria do Albino, ex-Miratejo. Será que a população não tem direito a ser ouvida e um dia destes acordamos todos no meio de uma imensa depressão, enquanto bandos de gente que se realiza com uma cerveja e berros na via pública deambula delirando na madrugada, como fantasmas deste tempo, a perturbar o sono a que temos direito?
Texto: excertos de um abaixo assinado entregue às autoridades competentes.
Fotos:LFM (madrugada de 30 de Setembro de 2006, cerca da 1h 30m; uma hora depois, a frequência documentada era o triplo e prolongou-se até às 4 e meia)

domingo, outubro 22, 2006

Marcha de Alcântara


A meio da tarde deste domingo choveu bastante aqui onde moro. Mesmo assim saí para uma reunião na Sociedade Filarmónica Alunos Esperança. O tema era preparar a próxima marcha de Alcântara.
Falámos da Lisboa bairrista, operária, popular e da outra Lisboa, da aristocracia palaciana e dos jardins barrocos.
Mestres Gabão e João Calvário, Mário Rui Ferreira, José Francisco, Lurdes Ferreira, Ruben Gomes e Luís Santos foram os intervenientes aos quais me juntei.
À saída, verifiquei que o espaço está bonito e arrumado. E ao olhar para as imagens da marcha deste ano, cuja temática versou as fragatas e os fragateiros do Tejo fiquei emocionado pela beleza que conseguiram.
É bom pertencer a um bairro assim e poder colaborar todos os anos na discussão da marcha que participa nas festas da cidade cada vez com mais qualidade e com grande impacto pela criatividade e pela investigação prévia que fazem questão de desenvolver.
Obrigado pelo convite!
Texto e foto (Beco dos Contrabandistas, anos 80 do século XX): LFM

sábado, outubro 21, 2006

António Simões: Um Poeta a Descobrir


Tenho o privilégio de o conhecer. O professor António Simões vive em Estremoz, onde o contactei com uma antiga aluna das suas aulas de inglês, que fala dele com a admiração que as pessoas de categoria merecem.
Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, António Simões nasceu em Beringel, concelho e distrito de Beja a 29 de Novembro de 1934.
A São Baleizão, poetisa discreta com uma poesia de fôlego, telúrica, extremamente sensorial, levou-me um dia à sua pequena pátria, àquele lugar mágico onde a infância lhe concedeu asas para resistir ao quotidiano e apresentou-me este cidadão cuja obra e postura nos toca, pois é um ser humano fraterno, senhor de uma conversação que nos cativa.
António Simões foi aparecendo em artigos de jornais e poemas em revistas, com uma singularidade que o distingue. Depois de um belíssimo FESTA DAS LETRAS surgiu um destes dias na minha saudade dos seus gestos serenos e das suas palavras luminosas. Telefonei-lhe, soube que a saúde podia estar melhor e recebi poesia no endereço electrónico e livros na caixa do correio.
Trago até aos meus leitores excertos do envolvente MINHA MÃE AMASSA O PÃO.
Saboreiem...

"Minha mãe amassa a vida,
E a vida cabe-lhe inteira
Na farinha desmedida,
No infinito da peneira.

Minha mãe amassa o dia,
No alguidar, sobre o banco,
E do forno da alegria
O pão loiro sai tão branco.

Minha mãe amassa o ar,
Duma leveza infinita-
Quando fica a levedar,
A massa inteira levita.

Minha mãe amassa as flores,
As que no campo se dão-
E há mil cheiros, mil sabores
Numa fatia de pão.

Minha mãe amassa e diz
Pra dentro do coração,
Que só pode ser feliz
Quando os outros também são.

Minha mãe amassa o verde
Duma seara de trigo-
Vais matar-me fome e sede,
Alentejo, eu te bendigo!

Se gostaram desta amostra, escrevam à Câmara Municipal de Beja ou vão até à magnífica Biblioteca José Saramago e comprem este livro cujo conteúdo é de uma cariciosa criatividade que nos deixa maravilhados. Não menos bonito é o aspecto gráfico desta obra. Insisto: procurem-no pois é uma fabulosa prenda para um amigo cujo aniversário ocorra por estes dias ou ternurento presente para celebrar o Natal que se aproxima.
Texto de LFM
Foto gentilmente cedida por São Baleizão representando o casamento de seus pais, no início dos anos 50 do século passado.

quarta-feira, outubro 18, 2006

ARY DOS SANTOS E O FUTURO DE PORTUGAL


Portugal é um país de praias maravilhosas, de paisagens extraordinárias, com uma gastronomia (ainda) excelente. Todavia, as semelhanças com o território onde se desenrola a trama do livro de Tahar Ben Jelloun "L'Homme Cassé" é perturbante. A corrupção, a mediocridade, a inveja alastram, são públicos, vêm todos os dias nos jornais, aparecem constantemente nas televisões, enquanto os discursos oficiais proclamam justeza nas medidas tomadas e a tomar. E o que se vê e sente no dia a dia desmente toda a basófia. A demagogia é o prato forte da governança. Atiça-se a mesquinhês e de forma seleccionada, atacam-se os juízes num mês, no outro os taxistas, depois os professores, os funcionários públicos são o bombo da festa permanente, seguem-se os autarcas, e o carrocel só pára quando se cumprirem as profecias de José Carlos Arydos Santos. Quero acreditar que a poesia dele é visionária:

O FUTURO

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai."

terça-feira, outubro 17, 2006

Constância, a Bela


Constância é um oásis. O património merece olhar atento. A par da pedra dos edifícios comuns e dos monumentos, existe uma natureza digna de se fruir: junto ao Zêzere e antes da junção deste rio com o Tejo, podemos apreciar uma vegetação cariciosa que parece aguardar a nossa passagem para nos encantar...
L.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Na Fonte Filipe em Querença


Esta imagem foi recolhida na Fonte Filipe de Querença na passada quinta-feira. A Antropóloga Sónia Tomé em pleno trabalho de campo mostra como se retira água da fonte através da bomba volante.
Aquela investigadora está a estudar as Fontes de Querença e tive muito prazer em acompanhá-la nessa descoberta de um património tão repleto de estórias e simbologia.
L.

domingo, outubro 15, 2006

Homenagem a Adriano Correia de Oliveira


As férias que idealizei para Outubro deste ano foram integralmente gozadas entre Odeceixe e Loulé. Primeiro, a percorrer caminhos de aromas e silêncio entre a vila onde o Alentejo acaba e o Algarve começa e a praia. Dias felizes em boa companhia. Obrigado São, Ana e Cláudio!
Depois, participando num aliciante trabalho de campo, identificando as fontes de Querença ao lado da colega antropóloga Sónia Guerreiro Tomé.
O mar de Outubro foi uma vez mais bálsamo e regenerou-me. As fontes constituíram um bom exercício espiritual.
Ontem, participei no Fórum das Casas Regionais, durante o dia, no Fórum Lisboa e à noite no Mercado da Ribeira integrei o grupo de poetas que evocou, ao lado de músicos que interpretaram velhas baladas com renovada beleza musical, a voz inesquecível e o cidadão Adriano Correia de Oliveira. Participaram Paulo Sucena, Jorge Castro e Alexandre Castanheira e o músico Vítor Sarmento, à frente de um elenco de virtuosos da guitarra e do acordéon.
Texto e foto LFM

quinta-feira, setembro 28, 2006

O ÚLTIMO A RIR...


Um dia em Alpedrinha um miúdo veio ter comigo e interpelou-me desta maneira: o senhor faz livros, mas como não vai à televisão não é importante!
Perguntei-lhe se os pais eram importantes para ele. Respondeu-me com incontida frontalidade: claro que são! Prossegui o inquérito: e alguma vez foram à televisão?
Esta conversa vem a propósito de um telefonema, recebido há dias, da minha amiga Ana. "Luís, já és uma pessoa importante, até aqui era só aplausos e unanimidade, agora passaste a ser criticado... és importante!"
A questão da importância que nos damos ou que nos atribuem merece reflexão.
A opinião que tenho, acerca daquilo que os outros pensarão do meu desempenho social, opinião antiga, é a mesma do poeta que foi ter com o Fuhrer, segundo um texto de Brecht, e pediu que lhe queimassem os livros para não ser comparado com aqueles que perante a ignomínia assobiam para o lado. Escrevi há anos que "pago o preço" por ter uma intervenção na Sociedade deste tempo em que respiro e sonho.
Há muitos anos que me envolvo nas questões associativas, políticas e culturais. Publiquei quinze livros de poesia, mais seis com temática diversa onde se aborda o associativismo comunitário, as colectividades, e ainda uma biografia, uma investigação sobre o contrabando e conto, além de sete títulos de literatura infantil, num total de 28 publicações (7x4) ... não contando com as quinze antologias, organizadas e editadas por entidades credíveis e respeitáveis, onde as minhas palavras assinalam um olhar genuíno sobre o mundo.
São inúmeros os artigos, da crónica ao ensaio académico, os milhares de poemas dispersos em jornais e revistas de norte a sul, inclusivé em periódicos estrangeiros. As sessões de animação de leitura para crianças e jovens (interrompidas pelo Mestrado) são mais de 120.
Mesmo que tudo isto possa ser beliscado pela incompreensão de um país que hostiliza quem trabalha, protegendo o parasitarismo - embora a discursata oficial ataque tudo e todos, metendo o zelo e a incompetência no mesmo saco - tenho orgulho no que sou. Gosto de mim, coisa que nem toda a gente sabe ser. E isso, com a imensa solidariedade dos amigos, me basta para continuarem a ter de levar comigo. Não se livram de mim tão cedo, se depender da minha vontade. Estou cá para ver a queda dos títeres, dos pseudos, dos tiranos, dos que não valem nada e estão convencidos do contrário, dos que julgam os outros vivendo com telhados de plástico. O último a rir...
Fotografia de Jorge Cabral

terça-feira, setembro 26, 2006

JORGE RUA DE CARVALHO: O HOMEM PÁSSARO QUE VIVERÁ PARA LÁ DA VIDA


"É para mim um extraordinário privilégio apresentar Jorge Rua de Carvalho, este ser multifacetado cujo percurso comecei a seguir de perto há doze anos.
“Retalhos da Vida Saloia” é o quarto livro deste autor com quem convivi na I Festa das Colectividades, na Arruda dos Vinhos e Alpedrinha, quando nessas terras representou os Pregões de Lisboa, e nesta última tive o prazer de estar ao seu lado dizendo poemas, nomeadamente na Capela do Leão, onde o Jorge foi inexcedível e arrebatou a plateia que o aplaudiu de pé.
Acompanhei Jorge Rua de Carvalho nas suas exposições por escolas, associações e bibliotecas.
Escutei com atenção o testemunho da sua experiência, tive a honra de representar ao seu lado e escrevinhei uns textos para sketchs que ele apurou.
Um homem assim é da nossa família.
Por isso, queremos que viva muito, porque com ele aprendemos sempre!

Jorge Rua de Carvalho é um herói.
Fez do quotidiano um espaço mágico de convivência, vencendo a doença e a solidão, que costumam ensombrar a existência dos mais velhos.
Jorge rejuvenesceu nas páginas onde revisita a infância.
Respirou o oxigénio das palavras, para enfrentar os sobressaltos da vida.
E não pára de sonhar!
Solidário, pertence ainda ao Conselho Fiscal dos “Combatentes”, há um ano e meio fundou a “Aldraba” e aceitou o desafio de escrever um novo livro para partilhar as suas memórias do Associativismo.
Tenho-o seguido nos últimos tempos pelas ruas de Lisboa, nos miradouros e eléctricos, percebendo o quanto a cidade significa num imaginário que repovoou de saloios e pregões.
Para lá das sílabas, escreveu poesia na madeira, produzindo uma exposição magnífica sobre pregões que sucedeu a uma primeira, idealizada para imortalizar as recordações das brincadeiras da infância.
No fim de semana de 7 e 8 de Outubro, Jorge Rua de Carvalho irá ao Festival do Chícharo, em Alvaiázere, para apresentar as duas centenas de bonecos que criou com carinho de pai.
Como Geppetto idealizou dar forma à madeira, esculpindo figuras às quais se afeiçoou de tal maneira que me parece fazer todo o sentido criar um Museu com estes trabalhos que contam a história da cidade dos humildes e laboriosos, da criatividade dos simples.
Todavia, ao contrário de Pinóquio, os bonecos de Jorge Rua de carvalho falam a linguagem da verdade. São património e identidade. Espelhos da memória que iluminam o silêncio.

O livro, após as notas biográficas e o prefácio percorre umas saloiadas soltas onde se caracteriza a figura do saloio – gente sã, alimentadores de Lisboa, que levam o grão ao moinho, amanham a horta, trabalhadores do campo de sol a sol, vendendo depois o produto do seu trabalho para sustento da família mas que ainda têm tempo para se divertir nas feiras e romarias.
As primeiras férias introduzem o tema: Jorge tem dez anos, acabou de fazer o exame da quarta classe e o pai polícia, “orgulhoso de mim, ou talvez arrependido das sovas que me dera, resolveu recompensar-me” (pág. 21)
É assim que o miúdo é metido num comboio a caminho de Sobral da Lourinhã.
A partir daí, as descrições são uma delícia e o livro desenrola-se como um filme em que reconhecemos personagens que pertencem ao nosso imaginário, que o cinema português retratou, e tudo à nossa volta exaltava: o mundo rural povoado de gente laboriosa e humilde, com a sua cultura, a sua sabedoria, que constituía então a maioria da população.
Não admira que no epílogo Jorge escreva “sem dar pelo tempo passar, continuo à janela, com a cabeça entre as mãos, meditando, esperando, sem eu próprio saber por quem ou porquê” (p.72)
É natural num tempo tão diferente ter saudades e recordações dos dias felizes “cantinho delicioso do paraíso” (p.72)
Na página 24 do livro Jorge descreve assim a sua chegada:
“Olhei em volta, deslumbrado com a beleza dos fascinantes e variados tons verdes do arvoredo, das vinhas e das hortas, contrastando com as bandeirinhas dourados dos campos de milho que cercavam a brancura das casas do povoado.”
Senhor de uma escrita sem artifícios muito visual, colorida, próxima da oralidade, Jorge Rua conseguiu escrever um grande livro juntando os fragmentos da memória e do esquecimento, onde procura o rigor dos factos e cenários, embora nesse esforço de reconstituição dos acontecimentos, o factor efabulação acabe por condimentar os diversos takes do enredo, moldando as falésias da memória com a sedimentação das vagas e ventos do olvido para citar Marc Augé.
O livro prossegue com a apresentação da casa dos tios, seguimos os protagonistas nas idas à horta, ao moinho, à feira, saboreando uma narrativa riquíssima de sequências fílmicas recheadas de vocábulos e ritmos envolventes.
A matança do porco, a desfolhada, os saloios na cidade e a descrição de uma teimosia do “Pataco” (burro é sempre casmurro”) são outros capítulos que se lêem com bastante agrado.
Maria José Lascas Fernandes, mulher de uma escrita poética marcante foi a ilustradora, que soube transmitir com mestria e puerilidade as ambiências do livro.

Todos nós tivemos uma aventura assim numa qualquer terra onde havia um tio, uma prima, uma avó, frutos, arvoredo, festas, silêncios, lendas e a magia da infância.
Se não tivemos, ouvimos falar ou lemos.

Este livro evoca a nostalgia do lugar a que pertencemos. E este homem é o resultado do que podemos ser quando sonhamos. Cada livro seu é um capítulo do romance da sua existência fantástica.
Jorge Pássaro, Jorge Sempre Menino, Jorge Amigo, Jorge Irmão, Jorge Eterno.
Prometo-te que viverás para lá da vida, no nosso coração, na nossa memória, nos nossos textos, no amor fraterno que dedicamos aos nossos Maiores.
Obrigado por tudo o que continuas a dar-nos, com tanta qualidade e carinho.
Bem Hajas pelo exemplo da tua Vida!

Lisboa, 23-9-2006

LUÍS FILIPE MAÇARICO

Foto de LFM: Jorge Rua de Carvalho durante a homenagem nos "Combatentes".

segunda-feira, setembro 25, 2006

Jorge: A Festa, o Documentário e o Livro

Sábado passado a festa de homenagem a Jorge Rua de Carvalho foi um grande momento nas nossas vidas.
Pena é que não consiga postar imagens, o computador há algumas semanas que se recusa a funcionar bem.
Como informar é preciso, cumpre dizer que durante o encontro o autarca de Santa Isabel anunciou estar previsto chamar a uma sala da Junta de Freguesia Sala Jorge Rua de Carvalho, que foi a grande notícia da festa.
A Aldraba esteve presente, bem como o grupo de pregões de Lisboa. Fernando Duarte apresentou um excerto do documentário que está a realizar com Fernando Amaral. A sequência de imagens cativou de tal modo o público presente que foi brindada com uma sonora e prolongada salva de palmas. E o livro "Retalhos da Vida Saloia" foi recebido com agrado.
Parabéns à colectividade GDE "Os Combatentes" e às Juntas de Freguesia dos Prazeres e de Santa Isabel pela organização e patrocínio do evento.

terça-feira, setembro 19, 2006

Viva Alpedrinha!

CHEGADO AQUI, OU COMO ALPEDRINHA É NOVELO DE AFECTOS*

A primeira vez que visitei Alpedrinha, vim de comboio, esse mítico comboio da Beira Baixa, que ziguezagueia, perseguindo o Tejo, numa carruagem com compartimentos, que permitia abrir a janela e desfrutar de um convívio com pessoas da região, propiciado pela alegria da juventude, num tempo de mais esperança.
Foi de comboio que viajei algumas vezes com o pintor José Barata Moura e sua esposa Adriana Rodrigues. Ao lado daquele casal maravilhoso o tempo voava, falávamos de coisas empolgantes, enquanto em redor, os idosos se queixavam de tromboses, assaltos, idas a Lisboa aos hospitais, desfolhando maleitas, suspirando lamentos.
Foram centenas de viagens a emocionar-me com alvoradas e crepúsculos, repudiando incêndios que amputaram paisagens, inundações calamitosas, suportando chuvas e gelos implacáveis, sóis de lume…escrevendo poemas, projectos, artigos, descobrindo ou revisitando versos do poeta da Póvoa de Atalaia.

Devo ao Carlos Fatela e à Fernanda Neto a descoberta deste esplendor e ao Estáquio, ao Tomás, ao Atanásio, ao Manuel e outros, o regozijo de ter sido integrado num grupo de moços da minha idade, que, de casa em casa, nesse distante Dezembro de 1979 cantou as Janeiras, com viola e pandeireta e as vozes acesas que a bela jeropiga afinava.

Tive a sorte de encontrar ainda algumas tradições como o Santoro e o Madeiro, descritas por António Salvado Motta, na sua Monografia e por Jaime Lopes Dias na Etnografia da Beira. E a satisfação de conhecer o avô Barnabé, narrando fábulas para os bisnetos, de olhos arregalados, à volta da lareira. Escutei com gosto as explicações de Mestre Mário Brás na oficina Museu dos Embutidos, agora silenciosa. Assisti à Gota de Mel, de Leon Chancerel, dinamizada no antigo Cepa, pelo senhor Guerra. Deslumbrei-me com a sabedoria de Clara Nabais, com as canções que inventava, as lendas que compartia. Em sua casa experimentei sensações inesquecíveis, nomeadamente a comoção de encontrar em pleno século XX alguém que sendo contemporânea, possuía características de personagens de Júlio Dinis ou de Camilo Castelo Branco.

Foi na sua pensão que reencontrei Eugénio de Andrade. De quem ela costumava dizer que tinha andado em pequeno ao seu colo. A quem me obrigou a escrever, julgando que o autógrafo do autor de “Branco no Branco,”num exemplar comprado na Feira do Livro era sintoma de alguma proximidade.
Não esqueço as palavras que o poeta dirigiu a Fernando Paulouro Neves, que o entrevistava, quando abri a porta, a meio de uma tarde estival de frutos refrescantes que salpicavam a mesa da conversa: “Este rapaz também faz versos!”
Correspondemo-nos a partir de Alpedrinha. Quase até se despedir deste mundo, por onde passou de forma obstinada, despojado da ilusão temporal que embriaga os incautos. Era sábio. Assim o conheci desde estes lugares, que partilhou nos seus livros. Campos da Póvoa, que prolongam o Alentejo. Chão onde colheu a luz, a terra, a água, o ar, elementos essenciais da sua obra.

Acompanhei alguns amigos desta vila ao altar e ao sepulcro.
Na matriz, durante a Páscoa de 1989, a professora Monia transportou-me para o ambiente fantástico da Salzburgo de Wolfgang Amadeus Mozart, tangendo um órgão de tubos que é um dos tesouros de Alpedrinha. Na varanda da Casa do Barreiro saboreei o sublime hálito da tranquilidade, escutando as palavras encantadoras e avisadas de dona Francisca Cabral. E como esquecer as manhãs de segunda-feira a deliciar-me com uma canjinha dos deuses, no mercado do Fundão, num tascório que desapareceu ou com pataniscas no pão, acompanhadas por um tentador Alcambar, na baiuca da Estação?
Impossível limpar da memória a noite em que fui com um grupo de jovens, ajudar a apagar fogos. Não olvido o dia em que o chão da vila foi manto de cinzas…

À terra mágica trouxe gente de Leiria, do Alentejo, de Trás-os-Montes, de Lisboa. Da terra mágica partimos sempre mais enriquecidos.
Com a gastronomia apurada, a fruição de um património surpreendente, a tradição e o saber fazer singulares, evidenciados por amáveis bibliotecas vivas.
Com a informação da Liga dos Amigos, onde dirigentes diversos divulgaram textos de minha autoria, nomeadamente intervenções a favor das casas de granito, cuja beleza durante um certo período foi escondida pela alvenaria.
Com o usufruto de admiráveis realizações, que revelam a capacidade dos alpetrinienses, quando se unem em torno de projectos, como a inesquecível “A Talha” de Pirandello, no Teatro Clube, que revelou actores brilhantes ou o fascinante desafio que é a popular Festa dos Chocalhos, animando as ruas da estupenda Sintra da Beira.
Com a estima do amigo doutor João Costa - que me levou a Poitiers, através da Escola Profissional do Fundão - para apresentarmos a 2ª edição dos “Pastores do Sol”.
Com a sensibilidade do Eduardo Serra, que em 1989 revelou nas páginas da “folhinha” da Liga muitos dos escritos que configuram este meu décimo quinto livro de poesia.
Com o companheirismo do Francisco Roxo, homem diligente e solidário, que proporcionou a edição de “Vagabundo da Luz” e a consumação deste vosso amigo no cidadão honorário que acolhesteis, diante do Pelourinho, quando em Agosto de 1992, ao som do ditoso coro ficámos “Mais Perto da Terra”.
Com a fraternidade da Paula Silva e do Paulo Grilo, que trouxeram o recheio das gavetas e paredes que habito, para darem a conhecer às gentes da sua terra, a casa do poeta. Paula, prefaciadora de vários livros meus, nomeadamente em “A Celebração da Terra”, patrocinada por autarquias alentejanas e pela delegação regional de cultura e apresentada no Palácio D. Manuel II, em Évora, cidade onde nasci, com uma delegação de alpetrinienses presente.

Ninguém nasce sozinho; tenho consciência que a cadeira, onde me sento, já estava aquecida por grandes homens e mulheres, que viveram antes de mim. Por isso, vale a pena recordar o que aprendemos com Gedeão: “Venho da terra assombrada/do ventre de minha mãe/não pretendo roubar nada/nem fazer mal a ninguém/ Só quero o que me é devido/ por me trazerem aqui/ (…) Venho do fundo do tempo/não tenho tempo a perder (…) Quero eu e a natureza/ que a natureza sou eu/ e as forças da natureza/nunca ninguém as venceu/ Com licença com licença/ que a barca se fez ao mar/ não há poder que me vença/ mesmo morto hei-de passar” Lembro Raul de Carvalho: “Ajuda-me a cumprir a missão do poeta, / (…) Vem, serenidade, / e faz que não fiquemos doentes, só de ver/que a beleza não nasce dia a dia na terra.”

Tenho um percurso, um rosto, uma palavra de honra. E estou grato a Alpedrinha pelo que pudemos partilhar nestes quinze anos de publicações.
Quase todos os meus livros foram apresentados aqui, motivando o apoio voluntário e a simpatia de pessoas como a dona Manuela, a dona Lurdes, a dona Gracinha e de vários dirigentes da colectividade cultural.

Alpedrinha tem sido um novelo de surpresas, que incitou a voltar e me fez sentir em casa., quando visitei a quinta de dona Amélia, quando subi ao cabeço do senhor Mota, quando provei o doce caseiro, o pitéu ou a sopa de sabor antigo confeccionados pelas mãos sabedoras da Maria dos Anjos ou da Maria Luísa.
Contudo, ficaria incompleta esta partilha e até seria ingratidão se não contasse uma outra estória, digna de exaltar, pela generosidade e grandeza de carácter dos seus protagonistas.
Na passada feira da Transumância, um velho amigo, que me ensinou a cantar as Janeiras e outros saberes da terra, José António Atanásio, fez questão de me apresentar ao doutor Manuel Frexes. Confesso que me senti embaraçado, mas ele pegou-me por um braço e levou-me até à presença do autarca.
O senhor presidente da Câmara Municipal do Fundão, quando soube que tinha escrito sobre Alpedrinha, demonstrou um redobrado interesse em conhecer o meu trabalho poético.
Assistindo à conversa, o presidente da junta de freguesia sublinhou que havia um livro a aguardar melhor ocasião, num gabinete municipal, situação que o doutor Frexes desbloqueou, comprometendo-se a publicar a obra, fazendo fé nos testemunhos escutados.
No início da semana seguinte fui informado, a partir da autarquia fundanense, que o esboço do livro estava nas mãos do doutor Manuel Frexes, o que confesso muito me surpreendeu, pois tinha apostado no meu trabalho, sem me conhecer, confiando no que escutara da boca de um colaborador próximo e de um autarca..

Cumpre-me agradecer a aposta que facultou esta reunião. Bem Hajas pelo teu gesto, José António Atanásio! Bem Hajam senhores presidentes Frexes e Roxo, ambos com este xis no apelido, que me recorda o xi coração com que Bual assinava telas para os amigos. Artur Bual, o grande pintor gestualista, que me deu a honra de ter assistido aqui, há catorze anos, com António Salvado e Sampaio Lopes, ao lançamento do meu segundo livro de poesia, inteiramente escrito e dedicado à mágica Gardunha e editado com o meu salário de funcionário público, que fiz questão de oferecer à Liga dos Amigos de Alpedrinha.
Ainda tenho na memória a imagem de uma parte substancial da população, com crianças e jovens a presenciar e a comprar a pagela com os meus versos por um preço acessível.

Oxalá essa nova geração saiba continuar o labor dos que os antecederam para a terra continuar a ser lugar de referência, na Beira Baixa, conquistado pela excelência do património monumental e humano. Brecht escreveu que uma casa à beira de um lago, rodeada de árvores, ganha outra beleza se da sua chaminé sair fumo. Desejo que o calor e a sabedoria da hospitalidade alpetriniense não se evaporem na voragem dos tempos.

Entretanto, não posso esquecer que um dia, um rapaz me disse que a minha poesia o tinha salvo, pois decidira suicidar-se, mas que ao ver um cartaz a anunciar-me, quis saber o que era um poeta. A dedicatória que escrevi mexeu de tal modo com o seu espírito que desistiu dos pensamentos sombrios. Todavia, eu só me apercebi desta situação uns anos depois, quando num dos muitos Natais passados em Alpedrinha, o encontrei. Com uns copinhos a mais, abraçou-me, afirmando que eu era naquele momento a pessoa mais importante e estimada que ele conhecia, pois tinha-lhe salvo a sua vida.

É tempo de terminar, entregando palavras afectuosas de reconhecimento, ao senhor vereador da Cultura doutor Paulo Fernandes, que enquanto estudante me entrevistou para o “Jornal do Fundão”, iniciando-se aí uma fraterna e recíproca admiração, um agradecimento à Marta Barata, à Graça Nogueira e à Maria José Lascas Fernandes, pelo envolvimento com este sonho, finalmente realizado e um abraço fraterno para o doutor João Mendes Rosa, amigo consequente, investigador notável e rigoroso a quem devemos a beleza e as informações adicionais insertas na reedição da Monografia de Alpedrinha, nomeadamente a belíssima biografia de Salvado Motta.

Como no “Principezinho”, de Saint-Exupéry, cativaram-me, são responsáveis por esta festa! Bem Hajam a Todos!

Escrito no comboio da Beira Baixa e em Lisboa,
17 Agosto e Setembro de 2006

LUÍS FILIPE MAÇARICO
* Texto lido durante a apresentação na Capela do Leão, em Alpedrinha, do meu 15º livro de Poesia "AR SERRANO" editado pela Câmara Municipal do Fundão e inserido no V Festival das Rotas da Transumância.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Alpedrinha nas Rotas da Transumância: 3 dias de felicidade



Pela quinta vez Alpedrinha voltou a ser cenário de uma festa genuinamente portuguesa, no que concerne às participações. Foi tempo de intenso convívio, de saborear músicas, sorrisos, aromas, petiscos, cultura. Dos bombos aos gaiteiros, dos acordeonistas aos ranchos, passando pelos chocalheiros e cabeçudos, a festa foi contagiante e purificadora da alma. Subimos à serra, pastoreámos o olhar, escutámos os melros, provámos as últimas amoras do Verão, percorrendo o caminho romano, verdes veredas que abraçam o azul, ladeadas por mágicos penedos.
Depois foi o momento de soltar as asas da poesia, com os amigos, com a alegria de estar vivo. E a vontade de voltar sempre, na hora da despedida.
Texto e fotos de LFM
NOTA: As imagens onde está inscrito 1-1-2004 correspondem a ontem, dia 17-9-2006. É que comigo, as máquinas nem sempre funcionam como era suposto funcionar. As minhas desculpas pelo erro que não consegui resolver.

terça-feira, setembro 12, 2006

Jorge Rua de Carvalho:Homenagem a Um Homem da Cidade


O lançamento do livro de Jorge Rua de Carvalho "Retalhos da Vida Saloia" na Rua do Possolo nº 7 a 9, na colectividade centenária "Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes", a partir das 15 horas do próximo dia 23 de Setembro, constará do seguinte:
-Intervenções das Juntas de freguesia dos Prazeres e de Santa Isabel;
-Intervenções do GDEC e da Aldraba;
-Apresentação de Jorge Rua pelo geógrafo Fernando Duarte, com projecção de excertos do documentário que a Aldraba está a realizar;
-Apresentação do livro por Luís Filipe Maçarico;
-leitura de poemas do livro "Lisboa Saudade" sobre saloios, com Nádia Nogueira, Gonçalo Freitas, José Alberto Franco, Maria Eugénia Gomes, Margarida Alves e Maria Amélia Sobral Bastos;
-Actuação do Grupo dos Pregões de Lisboa;
-Animação musical por Idálio e Jorge Neves;
-Lanche saloio;
-Exposições biográfica e de bonecos: "Pregões de Lisboa" e "Brincadeiras do Meu Tempo"
(Foto de LFM: filmagens no terreiro da Capela de S. Amaro, no passado sábado 9 de Setembro)

segunda-feira, setembro 11, 2006

Reflexões em 11 de Setembro


Sábado passado, o jornal de um dos homens mais ricos de Portugal- "Público" trazia estas notícias:
Página 7, artigo de opinião de Domingos Lopes, vice-presidente do Conselho Português para a Paz e a Cooperação: "Israel destrói e nós pagamos?"
Dizia o ariculista que no Kuwait foi exigido ao Iraque que pagasse os danos da invasão. Israel tem as mãos livres...
Lopes recordou que hospitais, pontes, as telecomunicações, 0s transportes e a electricidade foram destruídos no Líbano, calculando-se em 3 mil milhões de euros os danos causados por Israel ao país dos cedros.
No mesmo jornal, a propósito do levantamento do bloqueio dos portos, supõe-se que cada dia de bloqueio causou 30 a 50 mil euros de prejuízo ao Líbano...
Morreram cerca de 1200 pessoas em 34 dias de guerra...
Na página 14 da edição de 9 de Setembro do "Público", é informado que houve mais de 1500 mortos em Agosto no Iraque, quase o mesmo número de baixas registadas em Julho.
Na página 15 senadores americanos afirmam: "Sadam Hussein não tinha ligações com a Al-Qaeda. "As acusações de fabrico de armas de destruição maciça são também postas em causa(...) não dispunha de um programa nuclear activo, nem de laboratório para a construção de armas químicas".
Ora ponham lá a funcionar aquela bolinha que têm ao cimo dos ombros e que não serve só para decorar o corpo...
Foto de Sónia Frade.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Festa dos Chocalhos 2006 em Alpedrinha


Entre 15 e 17 de Setembro decorrerá em Alpedrinha oFestival dos Caminhos da Transumância com Animação de rua, Gaiteiros, Chocalheiros, Concertos, Tasquinhas e lojas e Passeio pedestre com rebanho
Programa:
Sexta-Feira - 15 de Setembro
18h00 - Abertura do acampamento "Rota da Transumância" – Quinta do Anjo da Guarda 19h00 - Abertura Desfile Grupo de Bombos de Alpedrinha Rancho Folclórico de Cernache do Bonjardim Acordeonistas
21h30 - Actuação do Rancho Folclórico de Cernache do Bonjardim Concerto Clássico de Sopros - Capela do Leão; Cantares ao Desafio; Acordeonista Sertório
Sábado - 16 de Setembro
9h00 – "O solitário caminho dos pastores" (passeio pedestre Alpedrinha-Póvoa da Atalaia). Saída: Largo da Junta de Freguesia de Alpedrinha
11h00 - Arruada: Chocalheiros de Vila Verde de Ficalho
16h00 - Espectáculo com Quarteto Mayade
17h00 - Conversas Transumantes "A Pastorícia e o Desenvolvimento" com Santiago Bayón Vera, moderada por Mª João Centeno, Capela do Leão - Quarteto Mayalde, na Capela do Leão
18h00 - Desfile Bombos e Folia da Casa do Povo do Paul, Gigabombos, Roncos do Diabo, Chocalheiros de Vila Verde de Ficalho, Rancho Folclórico da Casa do Povo de Souto da Casa e Grupo de Bombos
21h30 - Rancho Folclórico da Casa do Povo de Souto da Casa, Largo da Igreja - Cantigas à desgarrada, Largo da Fontainha
22h00 - Quarteto Mayalde, Largo da Fontainha
22h30 - Rancho Folclórico da Casa do Povo do Souto da Casa, Largo da Fontainha Cantigas à desgarrada, Largo da Igreja
Domingo - 17 de Setembro
8h30 - Passeio Pedestre "Rota da Transumância" Fundão – Alpedrinha (saída Praça do Município)
10h30 - Chegada do Rebanho a Alpedrinha e Arruada pelos Chocalheiros de Vila Verde de Ficalho
12h00 - Missa Dominical
16h00-lançamento do livro "Ar Serrano" de Luis Filipe Maçarico, na capela do Leão

17h00 - Desfile Grupos de bombos de Alcongosta; Castelejo e Donas e os Zabumbas de Alpedrinha; Chocalheiros; Gaiteiros Acordeonistas (Associação Acordeonistas da Beira Baixa) 21h00 - Actuação do Rancho Folclórico da Cova da Beira da Junta de Freguesia do Fundão e grupo de bombos
21h30 - Cantigas à desgarrada - Concerto Clássico de encerramento pela Academia de Música e Dança do Fundão.
BLOGS DE OU SOBRE ALPEDRINHA
SITE DA JUNTA DE FREGUESIA E LIGA DOS AMIGOS DE ALPEDRINHA
QUE A FESTA SEJA UM BOM PRETEXTO PARA UMA VIAGEM FELIZ!

terça-feira, setembro 05, 2006

Caligrafia do Tempo


A caligrafia do tempo é algo que me fascina, seja na ruga de um rosto, seja na fissura de uma parede ancestral.
Quantas sílabas, quantos silêncios escutaram aqueles ouvidos, estes muros?
Em Março procurei por mim em Jerba e a Sónia Frade apanhou-me nessas andanças, que espero repetir lá como cá, até fazer a derradeira viagem.
Agora mesmo, a propósito da fotografia, nasceu um poema:
BUSCA
Escutas o rumor da tarde
nesse recanto de pedras
limos e sombras
que o mar mordeu.
Procuras uma pegada
mas o passado
partiu com as vagas
rumo ao coração da noite.
Há vozes que não voltam
risos roubados pelas gaivotas
Escutas os teus passos
na incansável busca...
LFM

segunda-feira, setembro 04, 2006

Luísa Basto na Festa do Avante


No rescaldo da trigésima festa do Avante, venho partilhar a alegria de ter encontrado muitos amigos, e sobretudo o privilégio de ter assistido a um concerto inesquecível e emocionante de Luísa Basto, grande senhora da canção portuguesa, que canta o Alentejo, a mulher, a luta, a liberdade e o fado com uma categoria que pede meças a novas e velhas intérpretes (memoráveis as suas interpretações de Alain Oulman: Fado Peniche e Povo que lavas no rio!).
Companheira cinco estrelas dos caminhos da World Music, Luísa tem uma postura simples mas dramática, que arrebata o público. Acabou com cantos revolucionários, alguns em russo. Arrepiante!
Oiçam-na num disco que a Câmara Municipal de Serpa editou: "Fui hoje ao Alentejo"... fiquei de lágrimas nos olhos. Esta mulher tem uma voz que deve ser divulgada, apoiada, aplaudida. É agora, quando ela está espantosa, no pleno, quando é um grande prazer escutá-la que a quero honrar com palavras de alentejano, simples, comovidas. Enquanto está bem viva e com muito para dar. Grande Luísa!
Um dia destes o meu amigo Augusto Cortes far-me-á chegar imagens que captou no concerto e voltaremos a falar dela, porque nunca é demais vitoriar a alentejana de Vale do Vargo que ficará para sempre na história da democracia portuguesa como a cantora do "Avante Camarada."
Mas ela é muito mais, é uma cantora que sabe colocar a voz, e que voz!
Oiçam-na!

sexta-feira, setembro 01, 2006

Post nº 450: O Olhar de Sónia Frade




Três olhares da antropóloga Sónia Frade, quando este blogue atinge os 450 posts. Sónia, a quem, desde o "Águas", envio os melhores votos no sentido de um futuro luminoso para a família: João e bébé. Esse fabuloso miúdo que vai fazer os pais muito felizes!
As fotografias foram realizadas em março, na Tunísia e registaram as seguintes realidades:
1- Na ilha de Djerba é habitual verem-se, em plena rua, enormes mostruários de cerâmicas - este foi fotografado em Houmt Souk, capital da ilha - que alumbram o viajante;
2- Os mercados tunisinos do sul têm o fascínio da cor e dos aromas: aqui, várias especiarias exalam perfumes à passagem do viandante;
3- Três WC (2 para mulheres) na estrada que liga, através do Chott el Djerid (lago salgado entre desertos), Kebili a Tozeur.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Deolinda Vaz Afonso: Viúva e Filha de Mineiros


Deolinda Vaz Afonso fez 92 anos em Fevereiro. “Criada e nascida aqui. Tenho ido agora a Lisboa desde que os meus filhos lá andam.”

Natural de Moreanes, onde vive, é, como outros idosos, um manancial de recordações. Mas aparte este ou aquele curioso, quem ouve os nossos velhos? Quem quer saber do destino deles?

Vemo-los nos Centros de Dia, nos Centros de Saúde, à soleira da porta ou nos bancos das praças partilhando suspiros e memórias.

Dona Deolinda casou com 25 anos, o marido era de Moreanes. Chamava-se Francisco Leandro Baptista e tinha 27 anos.

“Ele, sabe...tinha 10 anos quando os pais morreram...diferença de 20 dias. A mãe tinha tido uma criança pequenina, ele tinha mais dois irmãos e uma irmã. E ficou a pequenina, quando a mãe morreu, com uma tia deles que tomou a posse. Eles foram para casa da avó da parte da mãe. E depois, nessa altura morreu um tio que tinha 3 filhos e juntaram-se todos na casa da avó. A avó era uma mulher muito forte. Com uma cuba à cabeça muito pesada ela ia ao poço. Punha-se conversando e com a cuba à cabeça...

Todas as pessoas de idade avançada, como a nossa interlocutora, ficam com outro brilho no olhar, quando reencontram o tempo em que foram novas e felizes, através da boa companhia das lembranças luminosas.

Deolinda solta uma risada:

“Ê cheguei a levantar-me da cama quando o mê pai estava na contramina. E ele ia-me a levar aos bailes à luz do gasómetro. Ê gostava muito de bailes. O mê marido não gostava, mas bailava eu. Nesse tempo lá aparecia uma grafonola.”

Deolinda recorda “as comadres e os compadres”...

“Íamos para o campo, fazíamos lá de comer. Mesmo que eles não estivessem, lá fazíamos.”

Recordam-se versos que se improvisavam, com o mote:

“Um raminho, dois raminhos”

Através desse versejar um rapaz declarava-se e na resposta a rapariga, dava a entender se aceitava ou não aquele homem como namorado.

Vizinho de ti Deolinda, José Rodrigues lembra-se de um dia um homem apaixonado ter-se declarado desta maneira:

“Um copinho, dois copinhos

três copinhos de aguardente

um beijo duma alentejana

faz andar um homem quente!”

Tendo assistido à recitação, logo o pai da rapariga entrou peremptório na desgarrada:

“Um copinho, dois copinhos

um copinho de licor

levas um murro nos cornos

passa-te logo o calor!”

Deolinda Vaz Afonso evoca um baile em 1934, “com flaita”. O tocador “deixou a flaita e ele não se cansava de dançar.”

Os factos e as épocas revisitam-na...

“Depois o mê marido, como só quem o auxiliava era a avó, admitiram-no na mina, era aguadeiro (aos dez anos). Depois puseram-no onde o pai trabalhava, na forja.”

É da sua memória que saiem outras informações:

“Ê cheguei a ir à máquina de enxofre à noite levar-lhe o comer. Fui muitas noites, íamos a levar o jantar ao sr. Guilherme chefe da Achada” (encarregado)

À residência dos ingleses encarregados da mina chamavam “a ilha”...

Ê saí de casa do Inglês...fui pra lá ainda não tinha feito 20 anos...”

“Esses ainda tinham casas. Os outros trabalhadores, um quarto e fazia-se tudo. Tantos filhos que tinham. Viviam num quarto, era cozinha, quarto e tudo!”

Agoirentos, os ingleses- para valorizarem o seu desempenho- diziam: “Quando vocês virem a mina na mão dos portugueses acaba a mina.”

O rosto muda de feição quando assomam ao espírito imagens tristes do passado...

“Morreu com 80 anos. Não sei que tempo esteve reformado, não me lembro já. A máquina...desmontou a máquina...ao desmontá-la, partiu-lhe a cara toda...”

As memórias são agora mais sombrias:

“O mê pai também teve um desastre na mina. Foi uma pedra de minério, estavam a tentar arrancar o minério de uma pedra ela caiu e partiu-lhe as costelas. Mandaram-no para casa e não o ligaram. Não chegou a uma semana em casa, passando o natal, no outro dia era 26 e morreu.

Fez-se o funeral e não deram uma pensãozinha à minha mãe. A minha irmã foi para Santana a servir. E o sargento como gostava dela, mexeram-se e então foram lá dois médicos desenterrar o meu pai e viram que ele tinha as costelas todas partidas e então tratou-se de dar alguma coisinha à minha mãe, já tinha um mês de estar sepultado.

Ainda conheci médicos que vinham a cavalo nas bestas e vinham a casa das pessoas. Pouca gente ia ao médico.”

Fotografo esta senhora e ela despede-se com um sorriso. Fico com as suas palavras, histórias de uma vida enredada noutras existências, que o sofrimento visitou.

Deolinda é testemunha de um tempo injusto, onde os trabalhadores não podiam viver com dignidade e morriam como se fossem animais de carga.

Há quem diga nas colunas dos jornais e noutras cátedras do desprezo pelo mundo laboral, que não foi bem assim, em nome do rigor científico, etc.

Em nome do Povo, há que guardar esta oralidade, tesouro decente dum vigor que resiste à manipulação mexeruca da cagança televisiva.

Deolinda é nome de papoila que no seu campo de sempre assiste à passagem dos dias e dos seres, até que um dia o sol da alegria a chame, para nunca mais ter a sombra triste por companhia.

Lisboa, 8 de Agosto de 2006

LUÍS FILIPE MAÇARICO: texto e fotografia

Bloqueios

Desde há algum tempo, quando chega o instante crucial de postar imagens no blogue, sou confrontado com a impossibilidade de o fazer, através deste aviso, que transcrevo: "De momento, a página que procura não está disponível. O Web site poderá estar com problemas técnicos ou talvez seja necessário ajustar as definições do browser".
Outra situação comum que se repete ad eternum é esta:
"The web server specified in your URL could not be contacted. Please check your URL or try your request again. This error could have been caused by: Bad / misspelled URL; Following an invalid link;Your network connection and/or transient conditions on the Internet; Load conditions on the web server"...
Eu hoje queria quebrar este cerco repetitivo que anda a dificultar a minha comunicação convosco.
As nuvens que há uma semana vi do comboio, e porque hoje é segunda-feira, e ontem foi tempo de lavar a casa e tentar arrumar coisas, vinham mesmo a calhar para vos exprimir o que sinto.
Restam as palavras. Se o blogger não as evaporar quando tentar publicá-las, o que também já sucedeu algumas vezes.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Festa do Anjo da Guarda em Alpedrinha: Um Bom Argumento para Reencontrar Amigos






Uma vez mais a ancestral festa do Anjo da Guarda realizou-se em Alpedrinha. É sempre no terceiro fim de semana de Agosto e assemelha-se às romarias de outras localidades, só que esta é das gentes da Sintra da Beira, que estejam onde estiverem acorrem à procissão e ao convívio que se segue no recinto da festa.
Na década de noventa do século passado acompanhei de perto este evento, pois foi tema de um trabalho meu para uma das cadeiras da licenciatura em Antropologia.
Há sempre um bem - estar quando regresso à terra mágica e reencontro pessoas que me são queridas que agora vivem longe, como é o caso da minha amiga Alexandrina, residente em Cambray, com os filhos, mãe e irmãos.
É sempre um prazer estar com o Hugo Caniça, a Maria dos Anjos, a Isaurinha, a Piedade, a Dona Maria Pires, o Nuno e os pais, a Paula Silva e o Paulo Grilo, o Nélson/Zidima Licasi, personagem de "A Talha" de Luigi Pirandello, que lhe ficou colado à pele.
Há uma série de pessoas que são referências como o Carlos Fatela, o Tomás, o Orlando Cacheno, o Manuel Mendes, o Carlos e a Monia, a Dona Luísa Estáquio, a Dona Gracinha Correia, o Raúl Paulo, o Francisco Roxo, o Eduardo Serra, o dr. João Costa, a dona Maria da ginginha e da conversa mais simpáticas.
A festa para mim é a possibilidade de rever e de conviver com amigos de há décadas, que me fazem falta para saber de mim. O Santo é um bom argumento.
(texto e fotos de LFM)
Legendas: O novo palácio do Picadeiro, que durante décadas os alpetrinienses acreditaram poder um dia ver reconstruído, Os Zabumbas desfilando junto da igreja da Misericórdia, a imagem antiga do Anjo da Guarda, dona Maria Pires à porta da Pensão Clara, dona Maria ao balcão da sua tasquinha.
NOTA: E mais não ponho porque o Blogger desde ontem está caótico: apenas consegui publicar textos; hoje de manhã gastei mais de uma hora a preparar este artigo, que tive de reconstituir à tarde, pois perdi todo o trabalho em que me empenhara para partilhar o que de bom usufruí.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Jorge Rua de Carvalho: "Retalhos da Vida Saloia"


Jorge Rua de Carvalho fez oitenta e sete anos e continua a sonhar. Autor de vários livros de poesia e contos, que começou a escrever depois de se reformar, para partilhar memórias únicas, vai apresentar no próximo mês (a 23 ou a 24 de Setembro), durante os festejos do centenário da colectividade "Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes", o seu novo livro "Retalhos da Vida Saloia"
Os textos são belíssimos e o livro constituirá um agradável presente para quem gosta de ler e saber mais.
Parabéns Jorge por mais este intenso pedaço de luz e parabéns à editora que apostou em mais uma edição deste autor, bem como à Maria José que ilustrou as estórias.

quarta-feira, agosto 16, 2006

A Língua do Poder


Não percebo esta gente do Poder. Parece que têm uma arrogante obcessão pela propaganda e debaixo dessa obcessão relativizam tudo: vidas humanas e de animais, espécies protegidas que desaparecem para sempre, haveres irrecuperáveis, porque afectivos e biográficos, arvoredo que não volta a ser o mesmo, sítios que ficam com a nódoa da mágoa matando de tristeza pelo menos os mais velhos.
O ministro responsável pela extinção dos fogos florestais proclamou que o balanço é positivo, pois apesar de se terem verificado mais incêndios do que no ano transacto, a área ardida é menor. Um responsável policial afirmou que a operação stop do último e longo fim de semana teve balanço positivo: 10 mortos (menos 3 que em 2005).
Escutei estas palavras e não queria acreditar. Como é que este país não há-de ser a tragicomédia que é? E se estes senhores estivessem calados, não era melhor?
Para mim, balanço positivo era não ter ardido nada nem ter falecido ninguém.
(imagem gentilmente enviada via net por Pedro Silva)