"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O Choque Tecnológico


De certeza que é noutro país, longínquo...
(fotografia de LFM)

domingo, janeiro 22, 2006

No Forte de Peniche, com António Dias Lourenço - Segunda Parte












O espaço do forte de Peniche, percorrido pelos vistantes, conduzidos por um militante comunista nonagenário, preso e torturado várias vezes, ao longo do regime fascista, foi idealizado como estalagem, por anteriores autarcas. O actual presidente, presente no encontro de ontem referiu-se a esse compromisso.
A verdade é que o espaço precisa de uma regeneração e o museu de uma intervenção multimédia que acompanhe a visão museológica dos tempos modernos. O que nos é dado ver é uma arrecadação de materiais ainda que importantes, no sítio certo, mas sem o adequado tratamento para partilhar com as novas gerações uma parte da história do nosso país que não pode ser ignorada.
(fotografias de LFM)

No Forte de Peniche, com António Dias Lourenço - Primeira Parte












António Dias Lourenço, é o mais velho preso político vivo. Foi ele que ontem de manhã, guiou uma visita muito especial ao Forte de Peniche, na qual me integrei, participando com vários colegas da direcção e amigos associados da Aldraba, numa iniciativa organizada pelo Albano e pela Bárbara, coordenadores de um outro grupo que existe desde Maio de 1982-o Atrium.
Informaram-me previamente que os associados desta associação, coordenada trimestralmente por dois dos seus membros, são, felizmente, adeptos de uma diversidade de opções. A minha amiga Clarinha de Alpedrinha, costumava dizer-me que um jardim só com flores da mesma cor e do mesmo género é uma monotonia.
Mas foi com imensa atenção e emoção que todos, novos e velhos, seguiram as descrições e o testemunho impressionante do antigo director do "Avante".
(Fotografias de LFM)

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Eu Vou Votar!


Como sabem, não me pronunciei sobre a campanha eleitoral para as presidenciais. Faço-o apenas hoje.
Escutei tempos de antena, ouvi o trabalho da editora política, Maria Flor Pedroso da RDP/Antena 1, acompanhei também as abordagens do tema pelo Fórum, coordenado por Eduarda Maio.
Houve um ano em que me recusei a votar Salgado Zenha, porque tenho memória e lembrava-me dele ter participado em governos, que me tinham roubado direitos, além de ter sido um defensor de um tennebroso projecto, cujo leit-motiv era "quebrar a espinha à CGTP".
Talvez por isso, os sindicatos amarelos continuem a ser peças fundamentais nos pseudo-acordos com os diversos governos da direita, chamem-se os seus mentores Barroso, Lopes ou Sócrates.
Este último parece estar a concretizar um curioso plano, no sentido de neutralizar os membros do seu partido mais incómodos. Reparem: João Soares foi posto em Sintra, Carrilho em Lisboa, Alegre foi primeiro aliciado, hesitou, depois foi preterido, o velho Soares foi lançado para a ribalta, de que tanto gosta, ou seja, os vaidosos e críticos foram empurrados para o abismo...será que algum deles ressuscitará?
Aconteça o que acontecer, eu vou votar em Jerónimo de Sousa.
(foto tirada na doca de Alcântara, nos anos 80. Autor:LFM)
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quarta-feira, janeiro 18, 2006

Portas do Mundo


Nasceu um novo blogue:
http://portasdomundo.blogspot.com/
Este novo espaço de reflexão e diálogo foi criado para preencher uma lacuna no sentido do conhecimento dos contributos dos investigadores que se debruçaram sobre este (e outros) património(s).
Apareçam por lá!
(imagem recolhida em Odemira, por Pereira Ramos)

terça-feira, janeiro 17, 2006

Eduardo Ramos, Alaúdista: A Poesia Árabe Foi para Mim Uma Paixão À Primeira e Al Mutamid Um Poeta de Grande Valor Que Nos Toca Profundamente






Há trinta anos tocou esporadicamente com Rão Kyao. Admite que Pedro Caldeira Cabral é uma referência na música medieval. Eduardo Ramos, animador de vários festivais e eventos que se referem ao imaginário islâmico e medieval, que actuou nos Jerónimos, num espectáculo de grande dignidade, promovido pela Embaixada do Egipto, esgotou com todo o mérito o pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, no dia 17 de Janeiro de 2006, dia do seu próprio aniversário.

Em Silves, onde reside, dias antes deste concerto, promovido pela Antena 2, entrevistámos o artista, cujo coração está repartido pelo mundo.
A sua discografia é, aliás, testemunho dessa luminosa permanência, para lá da fronteira e do território de um Estado. A sua identidade é multifacetada: alentejano de origem, angolano por adopção, árabe por paixão, algarvio por habitação…
Vejamos como Eduardo Ramos sente as diversas vertentes, que ajudaram a formar a sua personalidade.

És músico desde quando?
-“Desde que nasci! Sempre me lembro de cantar! Quando era miúdo, ia à feira de Beja comprar uma gaita-de-beiços. Com quinze anos o meu pai ofereceu-me uma viola. Comecei a aprender viola. Com treze anos aprendi acordéon. Comecei a ser músico profissional aí a partir dos vinte e dois anos.”

Como é tocar ao lado do filho músico e da filha bailarina?
-“É um enlevo! (sorriso) É um prazer sem palavras, é um êxtase!

Qual a lembrança maior que guardas de Angola, onde passaste uma parte da tua vida?
-“Angola foi o país onde eu gostei muito de habitar. Onde aprendi muito, mesmo a nível musical. Em Angola tinha um grupo formado que se chamava “Os Windies”…

E que papel desempenha o Algarve no teu percurso humano e artístico?
-“O Algarve é a minha casa, é o meu lugar de retorno, quando venho das digressões.”

E o Alentejo?
-“É o festival islâmico de Mértola, aparte a pequena aldeola onde nasci e onde navegava naquelas planícies até aos 11 anos. Aqueles largos horizontes. A Fonte da minha aldeia é a Fonte das Cavadas. É uma fonte que parece um morábito.”

O que é um morábito?
-“Nos morábitos viviam os sábios sufis. Os chamados santos, marabouts, a quem as pessoas pediam conselhos e mezinhas. O marabout entrava em transe e dizia qual era o remédio que a pessoa devia tomar para se curar.”

Estamos a falar do tempo em que os árabes estiveram no sul de Portugal…porque é que a cultura árabe te motiva tanto?
-“Porque O Meu Coração é Árabe…O aprofundamento da cultura veio depois do grande amor pela poesia é música árabe. Foi uma paixão à primeira. Principalmente, a poesia. Conheço há muito tempo. O que me impressionou muito, além das poesias, foi o texto introdutório do Adalberto Alves. E eu disse: É mesmo isto que andava à procura… A música árabe estou a ouvi-la desde 1997.”

Das tuas viagens a Marrocos, que memórias te ficaram?
-“As pessoas e as paisagens. E depois o habitat. Foi aquele calor com que as pessoas me receberam. Quando diziam que português e nmarroquino é tudo a mesma coisa…”

O teu último disco é dedicado a Al Mutamid, autor dos poemas que cantas. Como é que esta figura milenar se envolveu nos teus dias, na tua arte?
-“Al Mutamid é um poeta de grande valor que nos toca profundamente…ainda depois para mais tendo nascido em Beja, e tendo vindo para Silves, praticamente o meu percurso…Há similitudes nas vidas, mudanças, caminhos…”

Tens certamente sonhos por realizar. Podes desvendar alguns, que gostarias de concretizar?
-“Ao nível musical, gravar um disco com música medieval, outro com música sefardita, outro de cantigas tradicionais portuguesas, tocadas ao alaúde e possivelmente juntar guitarra portuguesa. E outro com temas instrumentais, compostos por mim, gravados a solo, tocados ao alaúde. O grande sonho é divulgar mais a música que faço!”

Com muita tranquilidade, Eduardo Ramos foi respondendo às diversas questões. Depois, pegou no alaúde e encantou.
A música enleou-se nas cordas do instrumento e a sensibilidade e o virtuosismo transmutaram a noite fria. Os poemas cantados, de trovadores sábios, alguns dos quais também foram políticos de nomeada, antecedendo aqueles que se sentam nas cadeiras que eles “aqueceram”, pairaram entre as paredes da casa, assinaladas com vários testemunhos materiais dos lugares por onde andou, em peregrinação cultural.
Guardei as suas palavras, os cânticos, o som da vida dedilhada na voz de água do alaúde. O momento mágico, proporcionado por um grande artista, que é urgente conhecer melhor.

Lisboa, 17-1-2006
Luís Filipe Maçarico

NOTA FINAL APÓS O ESPECTÁCULO: Felizmente que a Antena 2 transmitiu este belíssimo espectáculo em directo. As televisões ignoram a beleza.Preferem sangue, futebol e novela...
Eduardo Ramos, Carolina, Baltazar e Tiago foram excepcionais e as centenas de espectadores que esgotaram a sala tiveram uma maravilhosa surpresa que passou pela dança extremamente bem executada pela jovem Carolina Ramos. Baltazar acompanhou o cantor, com um ritmo de suster a respiração, no tambor. Ana Fonseca dizia no final que ele a tinha conseguido transportar até aos dias em que viajou pelo deserto, na Tunísia. Eduardo Ramos e este grupo jovem e irrepreensível, de grande categoria, estão de parabéns.
Como era proibido fotografar a sessão, as fotografias correspondem, respectivamente a: 1-início da 1ª parte , aspecto do palco e do público. 2-José Manuel Gema, no início da 2ª parte. este amigo soube do evento por e-mail que reproduziu o post anteriormente dedicado ao assunto, o qual por sua vez, reenviou a outros amigos que também vieram. 3 e 4- Associados e dirigentes da Aldraba, no intervalo. 5-Os artistas, à saída do CCB (Baltazar, Eduardo, Tiago e Carolina).
Fotografias de LFM (perdoem as tremuras que foram de felicidade por tão belo encontro...)

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Instantes de Vida


A noite passada, depois de me ter encontrado com a malta da marcha de Alcântara, para participar no nascimento do tema e dos figurinos, diverti-me à grande com o filme de João César Monteiro "Bodas de Deus", que passou na 2.
Hoje à tarde, quando a chuva parou, a Ana trouxe-me até Lisboa, para reunir com o Fernando Duarte e o José Alberto, a fim de fazermos o boletim da Aldraba...
Só que na ponte 25 de Abril, um carro bateu com a parte da frente e a traseira no rail protector, mesmo à nossa frente, centímetros de distância.
Limitei-me a dizer "tem calma". A Ana foi espectacular e travou, sem problemas.
Ninguém ficou ferido, apenas um grande e aparatoso rombo no carro que se atravessou no nosso caminho.
Estamos vivos, é a grande constatação. E para que o dia de amanhã corra bem, vou-me deitar, para descansar o suficiente e acordar bem disposto...
(foto de LFM em Alte)

Os gatos de Loulé


No início deste mês, fui até Loulé. Os gatos e a lua são um belo cenário para se falar do frio de janeiro. Encontrei-os no cimo de um muro, em plena zona histórica. A fotografia foi testemunha daquele momento, digno de uma paleta. E todas as palavras parecem suprérfluas, perante a aparição dos felinos de olhar aceso, coroado pelo lume do luar...
LFM

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Versos da Terra: A Partilha da Magia - Uma Conversa com a Artesã Maria João Ramos (Janica)






Na sua casa, em Silves, as paredes respiram sensibilidade. Objectos biográficos, fotografias, memórias teimam em guardar ocasiões especiais.
Enquanto Gambry, o cão ladino se delicia escutando Eduardo Ramos, virtuoso do alaúde, a revisitar melodias do Al-Andaluz, Janica prepara um bocado de argila para soltar o sonho.
Entre amassaduras e pincéis, formas e cores nascem, para encantar todos aqueles que visitarem a feira da Serra.
Olha-se para o resultado do seu apuro e admira-se a singularidade desse labor minucioso e afectivo. Envolve-nos o pormenor, a beleza da tradição, o encantamento de existências simples registadas em casinhas e figuras marcantes.
No riso de menina que o tempo não apaga, Janica parece dizer-nos: “Ei! Agarrem a vida”!

Maria João (Janica) é artesã, que esculpe em barro pedaços do quotidiano - a velha e o cão, a porta e as galinhas, a varanda e o gato, o morábito, a casa do sul com platibanda. Presença assídua em feiras, as suas obras cativam há décadas uma clientela fiel. Porque a marca das mãos e da alma é única.
Neta de avó paterna de Mértola, filha de um alentejano de Beja, nasceu na Beira (Moçambique) tendo vindo para Portugal com 18 anos. A arte surgiu nesta confluência de mundos...

“Acho que desde criança tinha jeito para o desenho. Não me lembro mas dizem isso! Para me safar, aqui no Algarve, estive com pessoas de Moçambique a trabalhar em “jeans”, eu só bordava... Agora é muito moda! Tinha sempre um bordado meu! Vivi perto de uma praia de Albufeira, nem havia luz. Bordava à luz da vela. Assim, consegui sobreviver até encontrar o Eduardo (Ramos) a tocar em Albufeira. Depois por causa de ter os putos em casa, comecei a trabalhar no barro. Foi um amigo que me pôs o barro nas mãos... A primeira coisa que fiz foi quase já uma casinha... Comecei a olhar para as casas do Algarve de outra maneira... mais tarde foram as igrejas. Foi o Algarve que me acolheu, embora eu também já tenha feito coisas do Alentejo. Nas minhas visitas tiro sempre pormenores do Alentejo.”

Qual é a inspiração para os trabalhos?

“ É andar por aí de máquina fotográfica, papel e lápis. São muitos anos. Embora haja tanta coisa destruída, mas vejo outras coisas que o meu olhar não tinha visto antes.”

Janica reflecte sobre a sua arte:

“É um ofício de meditação e silêncio. É um trabalho solitário também. As peças grandes são horas! É muito de meu, que eu entrego-me toda!”

O que é ser artista, mulher de artista, mãe de artistas?

“Nunca tinha pensado nisso... É tão normal!... Sou uma pessoa que gosta de passar despercebida. Vivo a minha vida, o meu dia a dia, nem penso nisso! Só sei que dou muita força a eles, mais do que a mim!” Dei muita força à minha filha para ser bailarina, aquilo que eu nunca fui. Estudou em Tildbeerg (Holanda) coreografia e dança contemporânea. O Tiago acompanha o pai na percurssão; é técnico de som na Gulbenkian…”

A sua participação em feiras e o seu envolvimento com um público, começaram quando?

“Foi há 21 anos. Foi a FATACIL (Lagoa) que era perto da minha casa. E a partir daí comecei a levar o trabalho muito a sério e faço muitas feiras, sobretudo no Algarve. Tenho coleccionadores de todo o Mundo… França, América… Os clientes são como amigos. E depois na FATACIL é engraçado, de ano para ano as pessoas voltam e trazem amigos, compram sempre qualquer coisinha ou vêm só para cumprimentar. É isso que é engraçado!”

Nos versos de terra que as suas mãos escrevem, Janica celebra uma identidade que tem perdido referências. Estas cortinas de renda na janela onde o felino espreita, são sinais de um tempo que pode não voltar. Sinais de uma gente que deixou na paisagem a magia de uma ancestral forma de estar. O espaço reconfigura-se. Antes que sobre uma réstea de nada, Janica percorre sítios, rescobre segredos. Janica procura o sol da terra para poder partilhar um pedaço da felicidade que nunca teremos. A Sabedoria.

Texto (de 13-2-2005) e fotos (de Janeiro de 2006) de Luís Filipe Maçarico

Eduardo Ramos no Centro Cultural de Belém






No próximo dia 17 de Janeiro, pelas 19 horas, Eduardo Ramos actuará no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. O espectáculo integra-se nos Concertos Antena 2 e intitula-se «Uma Noite no Palácio do Sultão» Eduardo Ramos Ensemble Moçárabe. Os bilhetes custam 5 €.

"Este concerto desenrolar-se-á em torno de música árabe, cantigas de Amigo e Santa Maria do séc. XIII, cantigas sefarditas medievais, temas de influência persa, e música da escola de Bagdade. Os temas árabes terão a realçá-los Carolina Ramos, uma excelente bailarina de Dança Oriental. Alguns trechos musicais serão executados em alaúde solo, e outros acompanhados pela tambura indiana ou pelos ritmos do Egipto.
Durante este concerto, a magia da música e da dança transportará os espectadores para outros tempos e outros lugares, desde a Península Ibérica dos tempos medievais à corte do sultão Al-Rashid em Bagdade, onde sopra um vento do deserto, com sabor a chá de menta e tâmaras..." (excerto - adaptado - do texto de apresentação.)

Eduardo Ramos, nascido em Penedo Gordo (Beja) vive em Silves, na peugada do grande poeta luso-árabe Al Mutamid, que tendo nascido em Beja, foi governador de Xelb. Eduardo Ramos lançou em 2005 o seu novo trabalho em CD "Cântico para Al-Mutamid"

(fotografias de Carolina Ramos gentilmente cedidas por E.R. Eduardo Ramos foi fotografado por LFM)

terça-feira, janeiro 10, 2006

Portas de Silves








Um dia a madeira estraga-se e a porta emudece. Observei estes belos exemplares na ditosa Xelb de Al-Mutamid.
Perto do Museu Municipal encontrei a mão a quem roubaram a companheira. Ficou a "espera" sem batente...
Mais uma vez chamo a atenção de autarcas, arquitectos, construtores, estudantes e amantes do património para agirem, antes que os nossos lugares fiquem sem graça.
Reparem no formato, na jóia de design que é o terceiro objecto a contar de cima.
A nossas cidades, vilas e aldeias ainda têm estes sinais. Até quando?
(fotografias de LFM)