"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Versos da Terra: A Partilha da Magia - Uma Conversa com a Artesã Maria João Ramos (Janica)






Na sua casa, em Silves, as paredes respiram sensibilidade. Objectos biográficos, fotografias, memórias teimam em guardar ocasiões especiais.
Enquanto Gambry, o cão ladino se delicia escutando Eduardo Ramos, virtuoso do alaúde, a revisitar melodias do Al-Andaluz, Janica prepara um bocado de argila para soltar o sonho.
Entre amassaduras e pincéis, formas e cores nascem, para encantar todos aqueles que visitarem a feira da Serra.
Olha-se para o resultado do seu apuro e admira-se a singularidade desse labor minucioso e afectivo. Envolve-nos o pormenor, a beleza da tradição, o encantamento de existências simples registadas em casinhas e figuras marcantes.
No riso de menina que o tempo não apaga, Janica parece dizer-nos: “Ei! Agarrem a vida”!

Maria João (Janica) é artesã, que esculpe em barro pedaços do quotidiano - a velha e o cão, a porta e as galinhas, a varanda e o gato, o morábito, a casa do sul com platibanda. Presença assídua em feiras, as suas obras cativam há décadas uma clientela fiel. Porque a marca das mãos e da alma é única.
Neta de avó paterna de Mértola, filha de um alentejano de Beja, nasceu na Beira (Moçambique) tendo vindo para Portugal com 18 anos. A arte surgiu nesta confluência de mundos...

“Acho que desde criança tinha jeito para o desenho. Não me lembro mas dizem isso! Para me safar, aqui no Algarve, estive com pessoas de Moçambique a trabalhar em “jeans”, eu só bordava... Agora é muito moda! Tinha sempre um bordado meu! Vivi perto de uma praia de Albufeira, nem havia luz. Bordava à luz da vela. Assim, consegui sobreviver até encontrar o Eduardo (Ramos) a tocar em Albufeira. Depois por causa de ter os putos em casa, comecei a trabalhar no barro. Foi um amigo que me pôs o barro nas mãos... A primeira coisa que fiz foi quase já uma casinha... Comecei a olhar para as casas do Algarve de outra maneira... mais tarde foram as igrejas. Foi o Algarve que me acolheu, embora eu também já tenha feito coisas do Alentejo. Nas minhas visitas tiro sempre pormenores do Alentejo.”

Qual é a inspiração para os trabalhos?

“ É andar por aí de máquina fotográfica, papel e lápis. São muitos anos. Embora haja tanta coisa destruída, mas vejo outras coisas que o meu olhar não tinha visto antes.”

Janica reflecte sobre a sua arte:

“É um ofício de meditação e silêncio. É um trabalho solitário também. As peças grandes são horas! É muito de meu, que eu entrego-me toda!”

O que é ser artista, mulher de artista, mãe de artistas?

“Nunca tinha pensado nisso... É tão normal!... Sou uma pessoa que gosta de passar despercebida. Vivo a minha vida, o meu dia a dia, nem penso nisso! Só sei que dou muita força a eles, mais do que a mim!” Dei muita força à minha filha para ser bailarina, aquilo que eu nunca fui. Estudou em Tildbeerg (Holanda) coreografia e dança contemporânea. O Tiago acompanha o pai na percurssão; é técnico de som na Gulbenkian…”

A sua participação em feiras e o seu envolvimento com um público, começaram quando?

“Foi há 21 anos. Foi a FATACIL (Lagoa) que era perto da minha casa. E a partir daí comecei a levar o trabalho muito a sério e faço muitas feiras, sobretudo no Algarve. Tenho coleccionadores de todo o Mundo… França, América… Os clientes são como amigos. E depois na FATACIL é engraçado, de ano para ano as pessoas voltam e trazem amigos, compram sempre qualquer coisinha ou vêm só para cumprimentar. É isso que é engraçado!”

Nos versos de terra que as suas mãos escrevem, Janica celebra uma identidade que tem perdido referências. Estas cortinas de renda na janela onde o felino espreita, são sinais de um tempo que pode não voltar. Sinais de uma gente que deixou na paisagem a magia de uma ancestral forma de estar. O espaço reconfigura-se. Antes que sobre uma réstea de nada, Janica percorre sítios, rescobre segredos. Janica procura o sol da terra para poder partilhar um pedaço da felicidade que nunca teremos. A Sabedoria.

Texto (de 13-2-2005) e fotos (de Janeiro de 2006) de Luís Filipe Maçarico

Eduardo Ramos no Centro Cultural de Belém






No próximo dia 17 de Janeiro, pelas 19 horas, Eduardo Ramos actuará no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. O espectáculo integra-se nos Concertos Antena 2 e intitula-se «Uma Noite no Palácio do Sultão» Eduardo Ramos Ensemble Moçárabe. Os bilhetes custam 5 €.

"Este concerto desenrolar-se-á em torno de música árabe, cantigas de Amigo e Santa Maria do séc. XIII, cantigas sefarditas medievais, temas de influência persa, e música da escola de Bagdade. Os temas árabes terão a realçá-los Carolina Ramos, uma excelente bailarina de Dança Oriental. Alguns trechos musicais serão executados em alaúde solo, e outros acompanhados pela tambura indiana ou pelos ritmos do Egipto.
Durante este concerto, a magia da música e da dança transportará os espectadores para outros tempos e outros lugares, desde a Península Ibérica dos tempos medievais à corte do sultão Al-Rashid em Bagdade, onde sopra um vento do deserto, com sabor a chá de menta e tâmaras..." (excerto - adaptado - do texto de apresentação.)

Eduardo Ramos, nascido em Penedo Gordo (Beja) vive em Silves, na peugada do grande poeta luso-árabe Al Mutamid, que tendo nascido em Beja, foi governador de Xelb. Eduardo Ramos lançou em 2005 o seu novo trabalho em CD "Cântico para Al-Mutamid"

(fotografias de Carolina Ramos gentilmente cedidas por E.R. Eduardo Ramos foi fotografado por LFM)

terça-feira, janeiro 10, 2006

Portas de Silves








Um dia a madeira estraga-se e a porta emudece. Observei estes belos exemplares na ditosa Xelb de Al-Mutamid.
Perto do Museu Municipal encontrei a mão a quem roubaram a companheira. Ficou a "espera" sem batente...
Mais uma vez chamo a atenção de autarcas, arquitectos, construtores, estudantes e amantes do património para agirem, antes que os nossos lugares fiquem sem graça.
Reparem no formato, na jóia de design que é o terceiro objecto a contar de cima.
A nossas cidades, vilas e aldeias ainda têm estes sinais. Até quando?
(fotografias de LFM)

Em Silves Uma Exposição Imperdível











Até dia 20 de Fevereiro, no Museu Municipal de Arqueologia de Silves, podem admirar uma fabulosa exposição: "A Arte da Madeira em Marrocos Saber e Tradição Milenar".
Esta mostra começou em 20 de Novembro e está fechada aos domingos. Nos outros dias, podem fruir da beleza dos materiais expostos, entre as 9 da manhã e as cinco e meia da tarde.
Trata-se, segundo o catálogo "de jóias de arte antiga marroquina e utensílios do quotidiano passado e actual. Esta intencional dualidade pretende sublinhar a importância de patrimonializar tanto objectos de grande riqueza e elaboração artística como os de maior simplicidade mas que, com o passar dos séculos, ganharam um valor de memória colectiva, que justifica a sua salvaguarda."
Fotos de LFM e Maria João Ramos

terça-feira, janeiro 03, 2006

Olhar Para o Céu, Entre Alte e Vilamoura

Dos candeeiros aos cataventos, passando pelas chaminés, o olhar encantou-se pela magia das formas.
A poesia está muitas vezes nestes pequenos pormenores...







As sete imagens que vos ofereço, em jeito de postal de Ano Novo, foram recolhidas, cinco em Alte e duas em Vilamoura.
Olhar mais alto pode sempre fornecer-nos outras perspectivas da realidade.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Na Parvónia, Enfrentando 2006


O primeiro ministro aleijou-se num joelho, enquanto curtia numa estância de esqui na Suíça, e foi notícia.
Tudo aumenta, menos os salários dos funcionários públicos, que desde Manuela Ferreira Leite congelaram como as trombas da senhora.
Às seis e meia da manhã começa o rally Lisboa-Dakar, com a excelência Jorge Sampaio a cortar a fita da partida. Vão fechar ruas, estradas, a ponte 25 de Abril, entupir o trânsito, logo no dia 31 de Dezembro!!!
E como sempre, em nome do desenvolvimento do país, como aconteceu com a Expo, o Euro 2004, os Estádios, e vai suceder com o TGV, a OTA, etc.
Qual desenvolvimento?
O dos aumentos que vamos sentir a partir de 1 de Janeiro, do pão aos transportes, das rendas aos combustíveis?
A benesse de 1,5% para a Função Pública?
Mas então isto não é uma execrável parvónia?
Há uns anos atrás, exibiu-se nos palcos uma peça chamada "Má Sorte Ter Nascido Puta".
Apetece dizer: Má sorte ter nascido aqui!!!
Farto de tanto fado, decidi enfrentar 2006.
As poupanças que desde há vários anos fazia por esta época ( poupança habitação; poupança reforma) serão gastas a curtir também.
Se o dinheiro em 2006 vai valer menos, para quê guardá-lo?
Estou de férias!!!
Acabei de chegar de Alpedrinha, onde passei 3 dias, esta noite pelas 20 horas. Daqui a uma hora, mais coisa menos coisa, volto a fazer-me aos caminhos de Portugal.
Desta vez em busca de mar, e bem acompanhado, pois não sei se vou ter coração para aguentar os apertos que se perfilam no horizonte...
Um Bom Ano Novo para todos os que me lêem.
(Caricatura de um jovem estudante cubano, Havana, Dezembro de 1998)

terça-feira, dezembro 27, 2005

Balança


No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

Eugénio de Andrade*

(in "Ofício de Paciência", 1994)

*Recordo o poeta, algumas horas antes de voltar à Beira Baixa.
Este poema foi-me enviado, antes de ser publicado e durante alguns anos, até ao poeta adoecer, trocámos correspondência.
Apesar de curtas, as suas palavras, nas cartas e nos versos, foram sempre, serão sempre, um caminho luminoso para prosseguir.
Neste ano, prestes a terminar, em que partiu, não podia deixar de tornar ao meu poeta, com uma lágrima de carinho.

domingo, dezembro 25, 2005

Natal








Tempos houve em que me apeteceu passar a noite de Natal num comboio, sozinho. Creio que perto do final dos anos 70 do século passado, desfrutei esta quadra num restaurante chinês do Bairro Alto, com Ildefonso Valério, na altura encenador do grupo de teatro da Guilherme Cossoul.
Antes disso, a Praça da Armada foi palco de perto de uma vintena de Natais. Em 1974, estava em Nampula e fiz rir uma companhia de Polícia Militar, com uma peça que tinha escrito, criticando a postura de um sargento.
Houve um ano que estive na Amadora, outro no Sabugo, mas cerca de 15 foram usufruídos em Alpedrinha, na pensão Clara. Em 1979 o Natal foi com o Carlos Manuel Fatela e a Fernanda Neto, meus padrinhos no ritual iniciático dos encantos da Sintra da beira. Nesse ano aprendi a cantar as "Janeiras", naquela vila, de casa em casa, com jovens da minha idade, eles todos de Alpedrinha e eu alentejano lisboeta, descobrindo um sítio fascinante, onde levei muitas dezenas de amigos, através dos tempos.
O ano passado, nesta altura, estava em Lucena e a noite de natal foi passada num restaurante chinês, com missa do galo na catedral de S. Mateus.
2005 trouxe-me um Natal diferente, também feliz, com Maria Luísa, Nuno e Ana.
Pelos sorrisos deles percebe-se o bem estar que reinou. Mesa farta, com iguarias deliciosas e sempre um brilhozinho nos olhos.
Bem hajam amigos!
(fotos de LFM e Ana)

sábado, dezembro 24, 2005

Coimbra em Dezembro






No dia 13 deste mês fui até Coimbra, para participar nas cerimónias evocativas do centenário de Adeodato Barreto.
Antes da sessão solene, subindo ladeiras com a Sónia Frade, excelente companheira de viagem e de descoberta, guardei alguns momentos, de uma Coimbra pouco conhecida do olhar.
Que este azul reine nos vossos corações!!!
(fotografias de LFM)

Duas Gerações: O Mesmo Sonho


Neste dia de reflexão para muitos, deixo aqui uma prendinha para duas amigas muito especiais: dirigentes da Aldraba, Sónia e Amélia são encantadoras no seu humanismo e disponibilidade para amar os outros. Grande beijinho para elas e para todas e todos que não precisam de cartilhas para SER!!!
(fotografia de LFM)

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Mais Perto da Terra

















Talvez aqui eu esteja mais perto
da terra que um dia me contará
histórias, para dormir no seu regaço.

in "Mais Perto da Terra", ed. autor, p.15, 1992.

Luís Filipe Maçarico (poema e fotos)

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Boas Festas???


Lê-se no "Público" de hoje, página 27, que "o líder da concelhia do PS de Lisboa, ( que votou a favor da nova lei das rendas de casa por disciplina partidária) lamenta que não esteja acautelada a situação das "famílias da classe média-baixa, tipificadas pela faixa etária dos 50 anos de idade e com recursos à volta dos 1000 euros mensais", que não terão condições para suportar os aumentos faseados daqui a quatro ou seis anos."
Na Antena 1, os ouvintes comentavam a intenção, difundida nos noticiários, de se passar a pagar portagem para se entrar nas grandes cidades...
Tudo medidas ensaiadas por um mau governo, que saiu de cena no final do primeiro trimestre de 2005, e que o actual governo reciclou e está a pôr em marcha.
Medidas que, se dependessem de Manuel Alegre serem aprovadas, para o governo de Sócrates continuar a coleccionar maioria(s), teriam sido votadas pelo poeta farol de outrora, conforme explicou, aquando da aprovação do Orçamento na Assembleia da República, mostrando que a sua independência em relação ao partido de Soares é...imensa!!!
Nestes dias em que toda a gente deseja Boas Festas a toda a gente, por favor desejem-me que eu possa ir para longe, para a praia da fotografia, na ilha de Jerba, longe daqui, da falsidade engravatada, dos que arrotam dinheiro à custa da míngua de muitos...
Haverá ainda lugar para o sonho?
(fotografia de LFM)