"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, dezembro 21, 2005

NUM LUGAR AO SUL, AS PALAVRAS REENCONTRAM O CONTRABANDO NA MEMÓRIA E NA IDENTIDADE




Palavras proferidas no lançamento do livro "Memórias do Contrabando", em Santana de Cambas:

Há muito que idealizei partilhar convosco, a minha profissão, este olhar que procura saber mais acerca de quem somos, as raízes, os comportamentos, os costumes, as tradições.

A antropologia é, desde há uma década, a função que exerço no Município de Lisboa, mas também em artigos e trabalhos académicos, tentando entender a personalidade poética do alentejano, o Alentejo, o cante e os seus poetas, a função antropológica das aldrabas, o associativismo comunitário, os processos de construção de um herói do imaginário popular e estas “Memórias do Contrabando em Santana de Cambas”, que hoje apresentamos, numa terra de onde se vê a raia…

Conheci o concelho de Mértola há vinte e cinco anos, quando o cometa Halley andou pelos céus do Alentejo, sob a forma de um lagarto de prata.
Calcurreei a vila de Serrão Martins, com a emoção que se tem quando se desvendam tesouros intactos, que o tempo não corrompeu.

A Amendoeira do Campo foi a primeira cintilação que encontrei, no início da minha caminhada de mais de duas décadas por estas terras do Guadiana, guardando depois nomes mágicos de muita sabedoria e solidão: Vale de Açor, Algodor, Alçaria Ruiva, Mina de São Domingos, Pomarão...

Provei a lampreia do Vivaldo, entrei no velho Cine - Teatro, percorri os núcleos museológicos e vi-os crescer, com os jovens que nos ensinavam a olhar as marcas do tempo, enquanto contemplava a minúcia paciente e criativa da Nádia a semear sonhos.

Fui aprendendo outros nomes, nomes de pessoa: Cláudio, Santiago, Paulo; Jorge, Miguel, Manuel, Margarida, José, Dina… E Mário, o Grande Elias, vagabundo aguarelista, espelhando a glória e a tragédia do ser humano, na tela e na errância.
O relâmpago das suas gargalhadas ecoará no labirinto destas ruas, enquanto houver memória e cegonhas.

Dez anos decorridos sobre a primeira viagem e de muitas outras, trazendo rios de amigos, foi a vez de saborear iguarias e sorrisos na “Cegonha Branca”, uma descoberta primorosa para quem busca a sabedoria dos temperos e a essência dos gestos.
Nesse tempo, o José Rodrigues, a Dina e os filhos Filipe e Hélder, animavam aquele lugar onde quem vinha de longe se reconfortava na delícia do petisco e no sorriso dos amigos.

Fui voltando à “Cegonha Branca” e a Mértola até que dei comigo a estreitar laços com esta gente e a visitá-los, com tanta satisfação, como o faço na Tunísia ou em Alpedrinha.
Moreanes e Santana de Cambas foram sendo redescobertos, à luz da fraternidade. E os Picoitos, os Bens, a Formôa, os Sapos, os Salgueiros e Vale do Poço. Mais a Maria Júlia, seu pai João Carrasco, a Ti Angelina e tantos outros.

Durante o I Festival Islâmico nasceram novas amizades.
Eduardo Ramos é um dos nomes associados à varanda de asas que é Mértola, expoente da arquitectura de taipa e das ruelas de casario branco, alicerçadas na magia de uma História com Futuro, que descem enlaçadas nas amendoeiras até às águas do Guadiana.
Voltei sempre, deliciado, a este momento único das festas reinventadas do sul, em que os tendeiros do souk ficam mais perto do céu.

Voltei sempre porque como diz um poema de Brecht, que aqui rescrevo em tradução livre:

“Casinha no meio de árvores junto ao lago
Se o fumo não saísse da chaminé
Como seria triste a paisagem…”

Um dia, há três anos, durante umas curtas férias, o José Rodrigues desafiou-me para uma recolha etnográfica.
Desde então acompanhei-o em situações diversas:
Nesse Maio de 2003, no Pomarão, durante os festejos do 1º de Maio, essencialmente lúdicos, à volta de comes e bebes fartos.

Antes disso, já presenciara a alegria dos mais velhos, aquando da inauguração da Capela Mortuária de Picoitos, onde houve beberete e versos de satisfação.

Escutei longamente os habitantes da vila, da aldeia, dos lugares e dos montes que nele buscam solução para todos os problemas, do telhado partido ao frigorífico avariado.

Vi-o levar refeições e uma palavra de conforto aos idosos da freguesia, na sua qualidade de presidente do Centro de Apoio aos Idosos de Moreanes.

Assisti a uma procissão das velas em Vale do Poço, em Outubro de 2004, lugar dividido entre dois concelhos, onde nunca houvera um templo e que ele ajudou a erguer. Vi mais uma vez o agrado das pessoas - apesar de não ser indivíduo ligado à religiosidade – por ele estar ao lado da Comunidade.

Foi este ser humano laborioso, indivíduo de honra e palavra, que pela sua postura cívica me cativou, envolvendo-me numa acção voluntária tão estimulante, que me sinto muito grato pelo conhecimento enriquecedor, enquanto antropólogo, proporcionado pelos contactos realizados essencialmente na freguesia, mas também noutras áreas do concelho e em Espanha.

Os homens marcam as terras pelas vistas largas.
Este homem ficará para sempre ligado, aparte as obras visíveis no quotidiano, à memória do seu povo, cujas histórias de vida desejou escutar, registar e partilhar através do livro, metódica e serenamente tecido entre Lisboa e este território, em constantes visitas, em conversas, gravações, fotografias, palavras.

O presente trabalho é um contributo para se preservar uma memória local, dando voz à experiência dos mais velhos, à marca identitária que o seu percurso conferiu aos lugares onde se desenrolaram os factos analisados.

Para Santiago Macias, o facto de não existirem trabalhos de investigação, em Portugal, acerca do contrabando, prende-se com a estigmatização a que estavam sujeitos, socialmente, os indivíduos que praticavam aquela actividade (ilícita, secreta e por conseguinte geradora de constrangimentos).
Ainda hoje, e ao longo da pesquisa pudemos constatá-lo, como a reminiscência do contrabando é motivo de vergonha para alguns dos intervenientes.

Em “Los Mochileros”, António Ballesteros Doncel diz que “la vida del contrabandista tiene mucho de lobo, algo de mastín y bastante de caballo.”
Ao longo de todo o interior as histórias, embora com variações, assemelharam-se.

O tempo do contrabando, consequência de um contexto político totalitário, foi um tempo de limites.

Entre a linha imaginária, que pretendia separar povos e o poder ditatorial, que impedia a livre circulação, o contrabando atravessou fronteiras e aproximou seres humanos, fortalecidos pela cumplicidade, numa união proibida de entreajudas.

Miguel Ángel Melón Jiménez, no seu estudo “Hacienda, comercio y contrabando en la frontera de Portugal, siglos XV-XVIII”, confirma a motivação dos indivíduos para desenvolverem esta prática. A fronteira foi “la única esperanza de un considerable ejército de marginados y desposeídos.”

No regresso de uma das viagens à região raiana de Espanha, onde entrevistámos velhos contrabandistas, ouvimos ti Chico Neto dizer em voz alta, enquanto olhava a paisagem: “O que nós passámos nestas terras! Até custa a acreditar!”

Decorridas três décadas sobre o 25 de Abril, onde está o olhar português do futuro, acerca do contrabando?

Morreram indivíduos, pobres ficaram por vezes mais pobres, houve prisões, apostadores com visão enriqueceram, a Guarda-Fiscal desfez-se do espólio documental segundo é voz corrente (ou aferrolhou-o), o qual poderia ajudar a reproduzir uma fase da vida colectiva, e faltam espaços memoriais, que contem esse quotidiano de pessoas e objectos, com testemunhos documentais e áudio – visuais, para a comunidade balizar o passado, desinquietando o olhar e o pensamento dos que vão nascer.

Santana de Cambas, foi um lugar singular, nestes difíceis contactos ibéricos. Não obstante os obstáculos, a maioria dos contrabandistas sobreviveu aos revezes impostos. E se uma parte considerável, quando acabou o contrabando, teve de procurar fora da terra o sustento, ficaram os familiares para efabular e alguns actores para consolidar lendas.

Em boa hora esta Junta de freguesia tomou a decisão de evocar protagonistas e peripécias.
Por todo o lado a moda dos trilhos e das rotas do contrabando começa a ocupar responsáveis locais, operadores turísticos, gente sequiosa de experimentar emoções novas, tendo por base o que outros sofreram.
A presença de antigos contrabandistas e guardas-fiscais reformados começa a ser solicitada para in loco, recordarem vivências. A recordação das aventuras e dos sofrimentos enfrentados, alimenta agora hipóteses de lazer e conhecimento.

Em Santana de Cambas, a intenção – concretizada - de guardar numa publicação a memória do povo, torna premente a ideia já esboçada de um “Museu do Contrabando”, que a ser consubstanciada, assegurará uma das mais interessantes homenagens ao passado humilde e lutador das gentes da raia, servindo de modelo e referência para outras localidades fronteiriças.

Tantas palavras guardadas. Tantas vidas, tanto sofrimento. E tudo para ter direito a respirar, sonhar, existir, sobreviver. Para alimentar e criar filhos, famílias, salvaguardando o património maior que são as pessoas, teimando em manter a identidade da fala e das artes da vida.

Foi assim com a mulher que pariu o filho, atravessando ribeiras, foi assim com o homem que só calçou sapatos com 16 anos, foi assim com o rapaz que queria comprar roupa para ir aos bailes mas foi morto pelos “crabineros”, foi assim com o guarda que fingia não ver os contrabandistas e com o outro que se metia no meio deles para lhes apanhar cargas, foi assim com a menina que aprendeu as primeiras palavras ao colo de um contrabandista, foi assim com os afogados, foi assim com aqueles que ainda estão vivos para contar como foi.
Luís Filipe Maçarico
(fotografias de Paula Lucas da Silva, retiradas do blogue http://serraecidade.blogspot.com )

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Fraternidade em Santana de Cambas







O lançamento do livro "Memórias do Contrabando" constituiu um momento inolvidável, no contexto da fraternidade entre povos que as fronteiras de outrora nunca conseguiram impedir.
Muito importante foi a presença de uma delegação espanhola, nomeadamente do alcalde de El Granado, de Juan Rosa e outros protagonistas, que concederam depoimentos para a obra e na sessão realizada sábado passado partilharam as suas recordações sofridas mas também fraternas, porque era o tempo da Guerra Civil espanhola e Santana de Cambas foi abrigo de foragidos.
Rosa Dias, Sónia Frade, Miguel Rego, o jovem Félix Ramos Toscano, presidente del Foro por la Memoria de Huelva, José Rodrigues Simão, o presidente da Câmara Municipal de Mértola (acompanhado pelo presidente da Assembleia Municipal) o alcalde de el Granado e o autor do livro, além de Francisco Neto e do prof. dr. José Orta, fizeram intervenções, que sublinharam a importância do evento.
Durante 2 horas, seguiu-se uma sessão de autógrafos, o que indicia a dimensão da participação a este acto, prosseguindo o convívio iniciado na nova sede da junta de freguesia local num restaurante dos Corvos, onde se juntaram Eduardo Ramos (e a sua mulher Maria João Ramos, a artesã Janica) que nessa tarde, à mesma hora, actuara no Convento de S. Francisco, na festa dos 25 anos da Associação de Defesa do Património de Mértola. Estiveram presentes, as poetisas São Baleizão e Maria José Lascas, Ana Fonseca e Manuel Silva.
Uma saudação especial aos alpetrinienses Paulo Grilo e Paula Lucas, que apesar de terem ido nesse dia para a Sintra da Beira, não quiseram deixar de ir dar um abraço, assistir e conviver em Santana de Cambas.
Gostaria de dizer-vos que foi um dos grandes momentos da minha existência como ser humano e antropólogo.
(fotografias de Ana Fonseca)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Convite




No próximo sábado dia 17 de Dezembro, pelas 15h 30m no novo edifício da Junta de Freguesia de Santana de Cambas (concelho de Mértola*, na estrada entre MOREANES e POMARÃO)
Lançamento do livro "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas-Um Contributo Para o Seu Estudo", edição da Junta de Freguesia de Santana de Cambas.
Apresentação da obra por José Rodrigues Simão, presidente da Junta de Freguesia de Santana de Cambas, Miguel Rego, historiador do Campo Arqueológico de Mértola e Sónia Frade, Antropóloga, dirigente da Aldraba-Associação do Espaço e Património Popular e pelo Autor, Luís Filipe Maçarico. Será também dito por Rosa Dias um poema de sua autoria integrado neste trabalho de investigação antropológica.
Poderá apreciar ainda, durante este evento, nas novas instalações da autarquia local, às exposições de pintura "Contrabando", da autoria de cerca de uma dezena de pintores do concelho de Mértola e da pintora de Moreanes, Guika Rodrigues.
“Os últimos contrabandistas têm hoje 55 anos. Tinham talvez na altura cerca de 15-16 anos, quando foram à Espanha pela primeira vez, com 15 kg às costas.
(...) Trocava-se muita coisa, porque havia necessidade de muita coisa em Espanha. Então vinham a Portugal buscar coisas para Espanha. Mantimentos, por exemplo, não é? Porque aquilo estava um caos naquela altura.
(...) Nunca se falava disso, era assunto tabú. Era a sobrevivência daqueles que iam levar as cargas a Espanha. Ao estarem a divulgar que faziam contrabando, e naturalmente por onde passariam, naturalmente estavam a descobrir um pouco as suas vidas. (...) Sabia-se que era um pouco arriscado, mas nessa altura, quando eu era miúdo, tornou-se num ritual. (...) Quem tinha algum receio que acontecesse alguma coisa a algum familiar, nem tão pouco era o jovem porque o jovem naquela altura também não perspectivava o que é que advinha daí, o risco que as pessoas corriam por irem levar uma carga a Espanha. Os familiares mais antigos é que estavam sempre com o credo na boca para que não acontecesse nada aos contrabandistas porque chegavam a passar lá 3 e 4 noites, não é? E quando eles regressavam, era um alívio. Mas não se fazia grande propaganda disso porque convinha manter sigiloso o serviço que eles faziam porque era uma forma de alimentar a família e podia haver alguém que denunciasse e de maneira que nunca se comentava em lado nenhum esse tipo de actuação do contrabandista.
Chegaram a ir muitos medrosos, só que a necessidade fazia com que eles fossem porque naquele tempo só havia duas hipóteses: ou era trabalhador do campo, mas nem toda a gente tinha terra, porque a terra era de dois ou três latifundiários, e como não tinham terra, tinham que se sujeitar a duas coisas: ou iam para a mina trabalhar; na mina já não havia perspectivas de futuro, porque a mina estava a terminar, tinham de se dedicar exclusivamente ao contrabando, porque foi numa altura da Guerra Civil de Espanha, a mina em decadência a perspectiva que se abria nessa altura era o contrabando, daí que ainda alguns jovens, pouco mais velhos do que eu, fossem arrastados para esta situação. Tanto que, assim que o contrabando acabou, em meados de 65-66, tudo desertou, novos rumos, migração direito a Lisboa, ao Algarve, Beja, enfim! Cada um tomou o seu rumo, porque o contrabando, de alguma forma também não estava já a dar os resultados que as pessoas naturalmente previam.
De maneira que os últimos contrabandos que ainda se fizeram-também naturalmente as situações na vizinha Espanha também se alteraram...A Guerra Civil acabou, a estabilidade começou a fazer-se sentir mais e naturalmente não era necessário continuar a levar para lá coisas. Uma das coisas que sempre se levou para lá, que os espanhóis nunca tiveram foi o bom café.
Em contrapartida, como eles, industrialmente estavam mais avançados, trazia-se também peças de máquinas.
Ultimamente, aqui nesta zona havia um contrabandista que aproveitava a viagem e trazia peças de máquinas de lavar e aí terminou, mais ao menos já, a História do Contrabando aqui nesta região."
(depoimento de José Rodrigues Simão, 53 anos, Moreanes. Fotos de LFM: o quadro de Manuel Passinhas, que foi classificado em 1º lugar no concurso de pintura sobre o contrabando e que é capa do livro, díptico de Guika Rodrigues e durante a divulgação dos resultados do concurso de pintura, em Julho, José Rodrigues saúda a população que na altura, durante a festa da aldeia, visitou o novo espaço da Junta de freguesia, ainda em acabamento e que será amanhã inaugurado na sua totalidade.)

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Adeodato Barreto: Sessão Evocativa na Universidade de Coimbra



Olavo Rasquinho, Sónia Frade, Dina Mira, eu próprio, os presidentes da Junta e da Câmara Municipal de Aljustrel, e muita gente de Goa, Coimbra e Aljustrel, participaram na homenagem nacional, realizada ontem, a Adeodato Barreto no Arquivo da Universidade de Coimbra.
Fomos dar mais um abraço fraterno a Kalidás Barreto e sua família, participando na evocação, que além das intervenções realizadas, apresenta um aliciante incontornável: a exposição e o magnífico catálogo.
(fotografias de Francisco Colaço)

terça-feira, dezembro 13, 2005

Guilhermina Bual : A Despedida


Ao fim da tarde, a notícia surgiu brutal. A Dona Gui tinha-nos deixado.
Entre o trabalho e o regresso a casa, lembrei-me de momentos felizes partilhados, primeiro ao lado de Artur, depois, naquela inesquecível visita a Madrid para ver as exposições da ARCO, quando ele já partira para outro lugar, que espero, seja melhor...
Quando as suas cinzas descerem à terra, estarei em Coimbra, representando a Associação Aldraba na celebração do centenário do nascimento de Adeodato Barreto.
Mas o coração ficou naqueles dias, em que a Amadora era uma aldeia e o atelier, as tascas, os cafés, belos locais de tertúlia. Pensar nisso dói.
São três da madrugada e o frio é mais frio, ao sentir que fiquei mais vazio com esta partida. Tenho apenas lágrimas e palavras para lhe dar o que é muito pouco para agradecer a grandeza de carácter, a elegância dos seus gestos.
Disse o filósofo que a mesma água não passa duas vezes debaixo de uma ponte.
Na minha memória, porém, a Guilhermina continuará a falar de como era o Artur e o vosso tempo de namoro. A poesia da juventude, longe dos jornalistas que anseiam intrigas para a capa de revista.
Não estarei no cemitério. Desculpe, mas os cemitérios não me restituem os sorrisos, as palavras cintilantes, os gestos ternurentos de quem já não tenho. E desta vez não há o álibi da multidão que inundou o caixão de Álvaro Cunhal para chorar anónimo.
Você vai comigo, agora. Estará comigo em Alpedrinha, no Natal. Viverá sempre nas palavras, como o Artur. Ainda no domingo passado, ao apresentar um livro recordei-o. Porque os meus mortos não morrem e você também era uma parte de mim.
À excepção de uma amiga, ninguém me falou desta sua viagem.
Falarei de si às árvores. Na solidão do entardecer.
Escrevi um dia que "Não lamento nada/Aprendi a voar!"
Todavia, seria ingrato se não dissesse "Bem Haja", por toda a gentileza com que me brindou enquanto a vida nos deixou respirar alegria.
Espero tê-la por perto, quando a minha hora chegar. Será muito bom poder voltar a ver o seu sorriso, depois de tanto cansaço e desilusão. Este desencanto que mata dia a dia, do caos em todo o lado e dentro de cada um.
Falarei de si às árvores!
Obrigado por tudo, amiga!
(fotografia de LFM-Alpedrinha)

segunda-feira, dezembro 12, 2005

A Celebração da Diversidade na Pele da Tela, ou o (A)Caso Lúdico de Graça Erika


Inaugura amanhã, dia 13, a Exposição de Pintura de Graça Erika, na Vinha d’Arte (R. Francisco Pereira de Sousa, nº 11 - 1500-287Lisboa), ao pé do Hospital da Cruz Vermelha.
Acerca da Graça Erika e da génese da sua pintura, escrevi:
Bertolt Brecht escreveu um dia:
"Adiar ainda mais a idade de ouro? Nós não somos eternos."
Por isso, o olhar percorre, lentamente, a complexidade de texturas paralelas que Graça Erika apresenta nestes trabalhos e vai-se demorando, como se provasse um vinho criado e depurado pela paciência e arte de um sábio ou de um louco...

Há uma linguagem íntima, na volúpia desta geometria renascida de fragmentos, sedimentações e reminiscências, embalada por traços e intercepções.
Sobre a tela, a claridade da luz, água jorrando da fonte, sol meigo, mel derramando-se no silêncio povoado desta pintora, cuja existência se cruzou com Ilse Llosa.
Violinos de êxtase. Tambores de exorcismo. Despreendimentos e envolvências...
Por detrás da sobreposição das fitas coloridas, que lambem a tela, o emaranhado de sonhos tocados e por realizar. O ser humano e todas as valências da sua caminhada: avanços e recuos, dança e abismo, hesitação e voo.

Infância. Porque em criança Graça Erika aprendeu a sedução das cores no encnatatório jardim infantil alemão de uma judia fugida da guerra. O fascínio pelo rosa forte e pelo vermelho. A mãe, a família, a música, o afecto.
Influências originais,também, de Nikias Skapinakis e Daciano Costa, os professores-pintores da adolescência.

Nesta associação de cores, nesta colagem de tiras e recortes, ressurge esse outro tempo que prolonga a parte mágica da vida - ainda tanta por viver, que apetece refazer, reinventando formas na celebração da cor, na criação de texturas, no deixar acontecer.
Para Graça Erika, a pintura é uma descoberta permanente, tendência para ir experimentando materiais diferentes, quase como se estivesse a brincar outravez, no maravilhoso jardim da infância.

Este (a)caso lúdico de Graça Erika persegue a autenticidade. Buscando harmonia na amálgama e desconcerto de formas e cores, que se entrecruzam, misturam e fundem, para celebrar a diversidade, no encontro. Na tela e no Mundo...
Graça Erika está de parabéns (tal como o espaço que a expõe), por se manter fiel à sua identidade multifacetada. Por ousar partilhar a síntese dessa peculiar respiração. Porque a paleta é sempre a pele e o reflexo dos mais íntimos desafios.
Brindemos pois a esta sensibilidade, que irrompe nos poros da tela, nos dedos da vida.
Termino, voltando a citar Brecht - mais irónico do que nunca: "Não compreis só canhões, gastai também em quadros algum dinheiro."

Luís Filipe Maçarico
(Fotografia gentilmente enviada por José Cid)

Maria José Lascas: A Menina do Monte Regressou a Montemaior Com "Plenitude"








“Sou livre!

Pássaro que voa sem passado nem futuro

Não tenho culpa medo preço.”

Com estas palavras simples, Maria José Lascas Fernandes assume um projecto de vida, afirmando o esplendor do Ser. Não é fácil ousar tocar a Beleza, transcendendo o quotidiano, respirando a serena inquietude, desafiando o voo: A “Plenitude”.

Já uma vez escrevi, creio até que no contexto de um estudo académico, sobre a obra de Artur Bual à luz da psicanálise, que os artistas ao exporem-se, na tela como nos livros, desejam ser amados, embora bastas vezes a sua postura de incompreendidos ou inadaptados, os distancie do comum dos mortais…

Maria José Lascas derrama na sua nova partilha, o lirismo de trovadores ancestrais, como Bernardim Ribeiro, o melancólico ardor de Florbela, a brandura rústica de Caeiro e Cesário, a materna ternura de Maria Rosa Colaço, a cariciosa ironia de Raul de Carvalho, como a certeira substância dos haikus de alguma poesia de Eugénio de Andrade e Albano Martins.

Não se pense, porém, que esta apreciação é excessiva! Sei do que falo!

E, aparte a amizade que nutro por Maria José Lascas, posso assegurar que estamos efectivamente na presença de um livro muito belo, de significado intenso, que me tem acompanhado nas tardes de sol deste Outono em Lisboa.

Habituado a ler centenas de versos, em publicações avulsas, jogos florais e na Internet, onde se ostenta uma incipiente e decepcionante escrita sem alma – pois hoje em dia qualquer principiante tem acesso à publicação dos mais assolapados arroubos umbiguistas, desde que pague – digo-vos que este livro, felizmente, nada tem a ver com o avassalador rame-rame promovido em periódicos, tertúlias e certames.

“Plenitude” é um grito, um querer, o espanto por poder saborear o melhor que alguém pode partilhar de si, - a procura da harmonia. A plena entrega à vida, depois do sonho. “Plenitude” é um olhar nostálgico, para citar o autor de “Os Sulcos da Sede”, sobre “qualquer coisa em que ninguém sequer reparou, que deixou de ser para se tornar melodia”.

Tal como Albano Martins e Eugénio de Andrade, Maria José Lascas trabalha e vive no Norte, mas é mais a Sul que a sua essência demanda as raízes.

A Poesia e essa sede de sul aproximaram-nos…

Um dia, ela atravessou a Gardunha para conhecer o Vagabundo e Alpedrinha, a terra mágica, onde semeámos poemas e despenteámos luas de sono, mergulhando literalmente num tanque de água fresca, em pleno Agosto.

Pelo caminho romano, demandando emoções, subimos aos templos do vento, compartindo o doce segredo de uma existência insubmissa, espreitada pelas trevas.



“Aqui morre-se de velhice e solidão.”

Compartilhei o tempo e o lugar de alguns dos poemas deste livro: Arribas do Douro, Safira, Pomarão, Moreanes, os rios, o chão sedento, rochedos, gaivotas e cegonhas. O Alentejo do Portaleiro. As memórias do pai. Uma lágrima de saudade. A mansidão dos animais, o rasto dos antepassados, os manjares, manhãs de uma luminosidade e odores únicos. Fortíssimos.O pão e o vinho de séculos de labuta, transmitidos pelo sangue numa sabedoria de crepúsculos e alvoradas.

É do sul esta necessidade de plantar sílabas e jasmins para combater a ausência, a solitude, tentando colorir e perfumar o álacre branco abrasamento da cal. Abelha, mel, flor, sol, sombra de limoeiro, são algumas das chaves para encontrar a “Plenitude”.

A menina do Monte regressa a Montemaior, com outro livro no regaço.“Mas nunca se regressa por inteiro ao lugar donde partimos”, assegura o autor de “O Espaço Partilhado”. Talvez por isso, desta vez, os poemas de Maria José Lascas sejam mais densos e cintilantes, porque oriundos de um parto de errâncias, desatinos e sufocos, consequência de quem se atreve a querer mais da vida.

Chamo a atenção para a magnífica prosa poética “A Amoreira”. A certa altura, a autora escreve “Porque o vazio me acompanha…”

Maria José engendrou as suas asas de Ícaro e regenerou-se no seu anseio de nos tocar. Mergulhou na luz. Nas arribas das águias. No Cais da Música. Na “Plenitude”, lugar do silêncio que é o lugar do encontro consigo e, citando a própria, com “quem morreu, quem amei”

Desfruta-se a grandeza do ser humano, na transmutação dos dias e a serenidade, nestas páginas. Termino, com breves estrofes, extraídas do livro, desejando que a leitura destes poemas crie em todos nós a vontade de sermos melhores:

“Amas no outro o melhor de ti

(…)

Sei que vivo!

Tenho uma gaivota poisada no olhar.

(…)

Todas as palavras são possíveis!”

Luís Filipe Maçarico

(Fotografias de LFM: Maria José Lascas(1 e 5), com São Baleizão e Rosa Dias(2 e 4), Ana Fonseca a desfolhar o livro(3) e a assistência (6 e 7).
Na sessão estiveram ainda presentes, entre muitos outros, o Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, prof. dr. Carlos Pinto de Sá, a pintora Isabel Aldinhas, o presidente da direcção da "Alma Alentejana", sr. Joaquim Avó, os doutores Maria Amélia e Manuel Sobral Bastos, dirigentes da "Aldraba, Associação do Espaço e Património Popular, e o prof. dr. José Orta, director da revista "Arquivo de Beja". Seguiu-se um convívio muito estimulante, ao qual não faltaram as boas iguarias e os magníficos vinhos do Alentejo)

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Plenitude em Montemor-o-Novo


No próximo domingo dia 11, no Salão da Sociedade Círculo Montemorense Pedrista, pelas 15 horas e 30 minutos, será lançado o novo livro de poemas de Maria José Lascas, "Plenitude".
Diz a poetisa num e-mail que enviou aos amigos:
"Gostaria muito que estivesse presente! Convide os seus amigos Divulgue entre os conhecidos...
Ofereça amor e cultura ( livros, discos, bilhetes para o teatro... ) no Natal para o tornar mais fraterno, humano e não meramente materialista...
Não se conforme com a vida que tem, nada tem que ser assim!...
A vida é sua, pertence-lhe só a si! Não prescinda da sua vida, o único bem que realmente ... não deve conformar-se com o sofrimento, não desista dos seus sonhos, de procurar a felicidade.
Cabe-lhe a si decidir se quer dar ao mundo um contributo positivo, um impulso de fraternidade e alegria ou mantê-lo como se encontra, cheio de medos desânimo descrédito pessimismo.... às vezes basta um pequeno gesto, uma palavra difícil de pronunciar, um sorriso, um cumprimento.. para começar a mudar o nosso íntimo ou a relação com o outro... Ofereça a si próprio a possibilidade de se sentir melhor, acredite em si e haja
Obrigada
Maria José Lascas Fernandes"
Confidencio dois segredos: Rosa Dias está convidada para dizer poemas de "Plenitude". E eu próprio irei apresentar a obra. Apareçam!!!
(Em Alpedrinha, durante a Festa da Transumância, fotografia de LFM) Posted by Picasa

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Maternidade de Elvas-Uma Carta de RosaMaria


Recebi ontem, ao fim da tarde, um texto urgente de RosaMaria, que transcrevo, dando voz à sua indignação, que, dizem, é um direito que ainda nos assiste...

"Dizia o jornal de notícias na edição da passada segunda-feira dia 5 de Dezembro:

Falta de Obstetras obriga maternidades a contratar reformado

Palavra infeliz que um jornal imprime, numa mistura de palavreado sem conhecimentos desta mesma causa, envolvendo um presidente da especialidade na Ordem dos Médicos (O M).

Esta foi a minha visão de profissional dessa mesma Maternidade que foi focada como a primeira a ser fechada nesse mesmo jornal.

Trazer vida ao mundo com amor, onde a qualidade é importante, mas passa para segundo plano, quando os propósitos são ultrapassados por cifras, isto é, Euros que só são mal gastos num povo a quem Nascer incomoda aos custos. Tão pouco valemos? Porque será?

Que tristeza, que país este, onde tudo se acaba e nada se constrói, a não ser, claro, as belas vivendas e solares em terras Alentejanas. Mas de quem são? Sim, de quem são essas maravilhosas casas e montes, dos que têm dinheiro, neste país e à custa de apertar o cinto e de tantos impostos.

Os enfermeiros trabalham de noite e de dia, por amor, esquecendo muitas vezes a família; entregam-se de corpo e alma até à exaustão, por um preço miserável chamado salário, que comparado com o país vizinho é uma esmola.

Hospitais do Interior que trabalham com qualidade e amor, onde o doente não é um número e é tratado pelo seu nome, onde a qualidade dos serviços prestados é premiada pela qualidade e tem lugar de notícia televisiva.

Que país é este?

Que notícia infeliz, que nem soube ser sensacionalista e quem a escreveu devia ter vindo averiguar no terreno como se trabalha num hospital pequeno, mas que tem profissionais competentes, que trabalhando em equipa fazem dos serviços um luxo para os utentes. Deviam ter vindo ouvir esse povo e saber da sua verdade, ouvir a sua justiça para com esse Hospital e como estão ou não satisfeitos, como são tratados, em vez de divulgar a mentira. Não há médicos reformados a trabalhar e maternidade também não é verdade, que esta maternidade tem menos de 200 partos por ano e maternidade não é só partos, tem muito trabalho dentro desse sistema, que não se vê mas que mantêm uma equipa ocupada 24 horas por dia, com trabalho; é só averiguar e falar verdades que o povo entenda e em português.

Somos Alentejo mas não somos as anedotas contadas nos meios de gente abastada, que come e se lambuza com o que este povo criou, mas que por necessidade vendeu por meia leca. Trabalhamos, não andamos aos encontrões em corredores, e não se paga a falsos médicos durante anos. Como aconteceu num desses hospitais onde tudo se amontoa e os doentes/utentes são apenas um número Nós somos reais.

Que politica tão suja a de destabilizar e desorganizar, para que fim? Alguém com interesses mais altos? Ou quem vai responsabilizar-se com o fecho duma maternidade que foi deixada em testamento a esta cidade?

E lembrar-me eu, que ergui bandeiras e andei de braços no ar, naquele dia 25 de Abril contente, porque ia viver num país livre! Livre de quê, afinal? As ervas daninhas continuam a germinar, os ricos a encher cada vez mais a pança, engordando as suas contas bancárias e a verdade, cada vez mais escondida dos trabalhadores portuguesitos.

Fecham-se escolas agora. No tempo do ditoso salazarismo nem se abriam.

Agora fechem-se hospitais e todos os postos de trabalho que vinham do antigo regime e olho para trás e que diferença faz?

Só mudaram os nomes, tornando-se tudo tão virtual, pela implementação da net e do mundo cibernauta…mas onde ficaram os sentimentos, a vida real, o amor ao próximo? Na conta bancária de quem fala do que não sabe, do que não chega ao fim do mês e vê os filhos a pedir pão.

Vergonha de ser Portuguesa não tenho, mas tenho vergonha de ter no País tantos cérebros iluminados, ricos de sabedoria sim, mas para governar as suas casas, onde as suas dispensas estão cheias de tudo, esquecendo aqueles que foram postos na rua dos seus empregos e ficaram sem ter como dar de comer aos filhos (meus pais dividiam uma sardinha para quatro bocas, na casa de meus avós no tempo da 2ª guerra mundial.)

Onde está o meu país de Abril, que abria as portas ao povo em promessas de viver bem? Onde estão tantos valores perdidos, com a entrada da globalização feita de imitações pobres e onde o ensino se esqueceu da sua própria História que já nem se lembram do quem foi o primeiro Rei de Portugal…

Trabalho na mais pequena maternidade do país, desde há quase 24 anos… Desde sempre foi a mais bem apetrechada de meios complementares de diagnóstico. Com Parteiras formadas pela Faculdade de Medicina de Coimbra, que a tornaram até aos dias de hoje, numa maternidade de amor, como refere a revista “Visão” num trabalho que tem por titulo “Como se nasce em Portugal - Da maternidade Maior à Mais Pequena”(Revista “Visão” edição nº465, de 31 de Janeiro a 6 de Fevereiro de 2002).

Que pena não ser tomada como exemplo, em vez dessa notícia monstruosa com cheiro a morte de tudo o que é lido com a vida.

Mas as palavras fechar, acabar, ou simplesmente abortar pertencem aos fracos e impotentes, na sua incapacidade de gerir um passado que vai agonizando, porque o País de Abril já lá vai e a história agora é feita de causas perdidas e portas fechadas. E porque será?

Que país que se acomoda num pasmo de morrer e não reage aos abusos e ofensas a quem trabalha!!!

ACORDEM e digam de sua justiça, somos portugueses e não temos que copiar ninguém, não é obrigatório ou é?

Haverá por aí de novo a PIDE? Não sei, mas o terror existe no trabalho que obriga quem o tem a sujeitar-se a tudo para o não perder e não ser ameaçado ou chantageado.

Voltamos ao princípio, mas sem valores, sem respeito, cavalgando selvaticamente, passando por cima de tudo e todos, espezinhando e desvalorizando o trabalho honesto que sai das mãos desta gente do Alentejo, que também é Portugal caso não saibam.

Rosamaria Abrunheiro

Parteira da Maternidade de Elvas

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Momento de Bricolage: Fazer Sabão!



As imagens não são grande coisa, mas espero que dêem uma ideia do que podemos fazer quando o sabonete fica um rasto do que era e se desfaz e se escaqueira em bocadinhos.
Em vez de deitar fora esses restos, reciclei-os em novos sabonetes, feitos dessa mescla de desperdício que pode ser reaproveitado.
Se for adepta/o desta espécie de bricolage, proceda da seguinte maneira: arranje um pequeno recipiente de plástico vazio, tipo embalagem de marmelada, e vá deitando nele os pedacinhos de sabonete que pretende reutilizar.
No caso de ter vários, corte em pedacinhos minúsculos, para ao misturar ficarem estilo ladrilho, de cores diversas...
Humedeça, empape, amolgue e vá moldando até ganhar alguma consistência...
Aconchegue a mistura obtida na tal forminha...
Além de ajudar a desencardir e desengordurar as mãos, para alguns talvez devesse servir para lavar os bofes, infestados de fel. Não alimentemos, porém, grandes esperanças: as almas emporcalhadas gostam de chafurdar na lama.

Excesso de Chefes e Escassez de Chefiados na CP


Assim se destrói uma empresa pública: gerida de uma forma esquisita, que produz os resultados que estão à vista, nomeadamente na linha da Beira Baixa, a CP (e o seu clone Refer) integra mais chefes que chefiados.
Esta bela notícia saiu na imprensa de ontem. Se não fosse terceiro-mundista qual fado da desgraça, daria para rir...

terça-feira, dezembro 06, 2005

Jantar Evocativo de Adeodato Barreto










Constituído no próprio dia da fundação da "Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular", o Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, tem vindo a reunir com regularidade. Em Julho apresentou uma proposta à Comissão de Toponímia de Lisboa, para que uma rua da cidade seja baptizada com o nome de Adeodato Barreto.
Ontem, na presença dos presidentes da Assembleia Municipal de Aljustrel, professor Luís Bartolomeu e da Junta de Freguesia de Aljustrel, engº Francisco Colaço (foto nº 4), Odete Silva (foto nº 7), filha de Edmundo Silva, discípulo de Adeodato e de Kalidás Barreto ( foto nº6), filho do homenageado, o Grupo de Trabalho Adeodato Barreto dinamizou um Jantar Evocativo do centenário do nascimento daquele vulto da cultura luso-indiana.
O acto, ao qual se associaram diversos membros dos corpos sociais da Aldraba, decorreu na Casa do Alentejo, tendo sido complementado com uma pequena tertúlia, com testemunhos sobre o Mestre e poesia de sua autoria.
A Associação participará em Abril de 2006, com uma exposição, nas comemorações previstas para Aljustrel.
Nesse evento, espera-se uma boa adesão de associados e amigos, que desejem partilhar na vila mineira do Baixo Alentejo sabedorias e sabores.
(fotografias de Sónia Frade-1,8 e9- e de LFM-2 a 7)

domingo, dezembro 04, 2005

Noite de Divas e de Energia Positiva em Elvas









Já pertence à memória e ao onírico mais um momento vivido. Ontem em Elvas, no CineTeatro foi assim: uma plateia interessada, as frisas compostinhas e um elenco de qualidade, todo regional.
Portugal não é só Lisboa. O país real habita naquela cidade da raia. Mas a imprensa e os meios audio-visuais informativos, histéricos de sangue, ignoram ostensivamente os pequenos grandes acontecimentos. Ninguém nos jornais, nas televisões ou nas rádios quer saber dos instantes felizes que, por exemplo, os trabalhadores do Hospital de Elvas semearam no serão tão bem passado naquelas paragens. A não ser a comunicação social local, e nem sempre, seja um encontro de poetas, seja uma noite de fados, não há uma envolvência com os factos positivos até para ajudar a dar volta ao mal estar do povo, sobrecarregado com taxas, impostos, inflações, salários baixos, notícias nefastas, reformas cada vez mais tarde.
Portugal palpita, numa energia belíssima de arte e alma, como estas imagens, tremidas pela emoção do antropólogo (em observação-participante) demonstram.
Na primeira fotografia, Rosa Dias e RosaMaria confraternizam antes do espectáculo. Depois foi o espanto, a maravilha, uma razão para permanecer vivo aqui. E continuar a chatear os bonzos, como diria o outro...

ROSAMARIA, PARTEIRA DO HOSPITAL DE ELVAS, FADISTA, DIVA DA TERNURA


Ontem passei uma noite de Fado admirável no Cine - Teatro de Elvas. A receita do simpático espectáculo revertia a favor do Hospital local. Mas o melhor daqueles instantes, foi ter conhecido RosaMaria, a Maria Callas do Fado, uma Diva de sorriso lindo, uma pessoa que é jóia rara, porque é uma cascata de ternura, adorável. Que cantou um poema de Rosa Dias, que o declamou primeiro, da maneira que só ela sabe. E em Portugal há muita gente a dizer poesia, mas poucos sabem fazê-lo com mestria. Rosa Dias tem a categoria de Villarett e de Mário Viegas. É uma Diva também...
Depois da sessão fomos todos para uma tertúlia, comer uma açordinha, entre comes e bebes, poesia e anedotas. Onde se conversou e se descobriram pessoas tão envolventes, como o capelão do Hospital, padre Avelino, homem de Viana do Castelo, leitor de poesia, amigo da Verdade.
E claro, amigo para sempre de RosaMaria um portento de voz e de alma, que é um escândalo não ser mais conhecida. Brevemente porém, esta mulher de Coimbra, que ajudou a nascer crianças que hoje são mulheres e homens que cantam com ela no espectáculo "Gerações do Fado", vai gravar o seu primeiro disco. Depois de a escutarem, digam-me se não tenho razão...
(fotografia de LFM, no interior do cine-teatro de Elvas, antes da Noite de Fados)

sábado, dezembro 03, 2005

Adeodato Barreto - Um Génio Esquecido






INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA EM GOA E TRÊS CURSOS SUPERIORES EM COIMBRA

Júlio Adeodato Barreto nasceu em Margão, no contexto do antigo espaço colonial português na Índia, no dia 3 de Dezembro de 1905, dia de S. Francisco Xavier.

Referindo-se ao pai de Adeodato, Lúcio de Miranda afirma que era um erudito, poliglota e melómano, o que provavelmente terá influenciado o filho nas suas tendências intelectuais, manifestadas desde a escola primária.

Tímido, passou despercebido dos professores, tendo redigido os primeiros versos e o primeiro jornal, manuscrito e ilustrado com desenhos a pena, aos doze anos. Após o Liceu Municipal de Margão, os estudos prosseguiram em Pangim.

Em 1923, com 17 anos, Adeodato saiu de Goa, para se matricular na Universidade de Coimbra onde, durante oito anos, completou três cursos superiores, fundou com o apoio de alguns professores da Faculdade de Letras um Instituto Indiano, dirigiu o periódico “Índia Nova”( publicado entre Maio de 1928 e Maio de 1929), desenhando e executando xilogravuras destinadas a ilustrar os artigos, prestando auxílio a desprotegidos e presidindo ainda ao Centro Republicano Académico, onde proferiu conferências. Romain Rolland e Tagore incentivaram-no e aplaudiram-no na criação do Instituto Indiano e das suas ideias pacifistas, que se identificavam com a postura de Ghandi.

Apesar de formado em Direito (1928) e Ciências Histórico - Filosóficas (1929), o diploma obtido na Escola Normal Superior permitiu-lhe leccionar durante algum tempo. Adeodato Barreto tornou-se assim professor na Figueira da Foz, na Escola Industrial Bernardino Machado, conciliando o ensino com a colaboração em jornais e revistas (“Voz da Justiça”, “O Diabo” e “Seara Nova”).

Foi contudo na área das leis que o seu desempenho profissional se especializou, primeiro em Montemor-o-Novo, enquanto escrivão de direito, (onde nasceu o seu filho Kalidás), depois em Aljustrel, exercendo o notariado. Ao mesmo tempo, as suas preocupações humanitárias e pedagógicas aprofundaram o carácter altruísta, num permanente exercício de cidadania. Lúcio de Miranda alude à promoção de conferências, à fundação de uma Liga Pró - Instrução e à instalação de um curso gratuito para ensino de analfabetos adultos na cidade de Curvo Semedo.

EM ALJUSTREL, DESPERTANDO CONSCIÊNCIAS

Na sua obra “Filhos de Aljustrel”, p.67, Francisco Rasquinho assinalou: “Veio de longe Adeodato Barreto, dos confins do mundo e teve Aljustrel a ventura de ter sido alvo dessa estrela cadente que aqui se repartiu em fulgurantes cintilações influenciando caracteres e despertando consciências.”

Luís Amaro, no livro “Para Lá da Névoa”, 2005, p.23, revelou: “Aprovado no exame primário, empreguei-me no referido escritório do Dr. Adeodato Barreto (1905-1937-vida breve!), o primeiro escritor, de facto, com quem me foi dado privar, autor duma Civilização Hindu (Seara Nova, 1935) sobre cujas provas me lembro de o ver, e ultimamente reeditada com estudos introdutórios de Orlando Costa, Elsa Rodrigues dos Santos e Teotónio R. de Souza. O Círculo, semanário local que fundou e seria em breve proibido, foi um dos meus fascínios, antes de conhecer-lhe o director, alta figura de indiano, que se formara em Direito na Lusa Atenas, onde ia jurar, conheceu os presencistas (muito posteriormente, Gaspar Simões incluiu-o na poética série antológica que, anónima, organizou para o suplemento “Domingo” d’O Primeiro de Janeiro). Mas os interesses do Dr. Barreto (…) convergiram noutro sentido - O Diabo, a Seara Nova que lhe editou a obra magna…No cartório, aprendi tão-só, porém, a dactilografar sem mestre. E de Adeodato, que na terra difundiu o Esperanto, o seu ideário progressista, a sua beneficência (…) não colhi mais (e tanto foi) que a irradiação espiritual e humana.”

Entrevistado no Museu Municipal de Aljustrel, em 19-11-2005, José Soares, membro da APEB, Associação Portuguesa de Emigrantes na Bélgica, assegurou: “Em relação ao Adeodato, ele marcou profundamente a vila de Aljustrel. O encorajamento de Francisco Rasquinho, Edmundo Silva… que se revelam anti-ditadura. Era um democrata profundo. A luta foi inspirada no exemplo do Adeodato. Verdadeiramente, as pessoas saíram do nível cultural que havia. Quando o Adeodato propôs a fundação do jornal “Círculo” e lhe perguntaram: “Quem vai escrever?” e ele respondeu “Somos nós todos!”
O Brito Camacho era quem dominava culturalmente. O Adeodato Barreto influenciou a vontade de ir mais longe…Este amor pela literatura que transmiti aos meus filhos, provavelmente eu recebi dessa gente!...”

Francisco da Palma Colaço, presidente da Junta de Freguesia de Aljustrel, abordado na mesma ocasião, declarou: “Fui marcado pela presença de Adeodato, quando ao entrar na casa de um primo - eu comecei a frequentar a casa muito novo - vi pela primeira vez um retrato, em que o Adeodato está com um turbante. Chamou-me sempre a atenção aquela fotografia, uma ampliação que o meu primo tinha na sala de jantar. E eu pensei inicialmente se seria alguém da família. Mas suscitava algum mistério, por causa do turbante. Depois, pouco a pouco, fui sabendo o significado da fotografia, da personagem. Para as pessoas daqui ele era um Santo Laico. (…) Considero-me devedor da sabedoria que o Adeodato partilhou com a gente desta terra.”

Em conversa posterior, o autarca salientou que os discípulos das aulas de esperanto “foi tudo pessoas que passaram pelas masmorras do Aljube, Caxias, e até um esteve no Tarrafal, o João Gil. Estive a reflectir sobre isso, e é espantosa a influência que ele teve nesta geração, que lutou contra o regime e sofreu as agruras.”

“A convivência com as gentes da terra, na sua qualidade de notário - escreve Olavo Rasquinho - levou-o a integrar-se rapidamente na vida quotidiana. Eram frequentes as tertúlias com os seus novos amigos, como o Edmundo Silva, o Francisco Rasquinho, o João Eugénio, o Salgueiro dos Santos e tantos outros que tiveram o privilégio de com ele conviverem (…) Adeodato tornou-se profundamente solidário com as gentes de Aljustrel. Ministrou um curso gratuito de Esperanto no Clube Aljustrelense, que foi a origem de um fluorescente movimento esperantista que se traduziu numa intensa troca de correspondência e de revistas entre Portugal e os mais diversos países.”

Notário na vila mineira, no início da década de 30 do século passado, Adeodato cativou a população operária da mina e a juventude, pelo seu altruísmo, nomeadamente na alfabetização dos homens toupeiras, na edição do jornal “Círculo”, na participação associativa, na ajuda aos pobres, criando uma sopa para os desvalidos em tempo de recessão e fome e na difusão do esperanto entre os mais novos. Adeodato, considerava o esperanto “um instrumento vital para a unificação espiritual dos povos, que tem sido através da História o sonho de tantas almas generosas: unidade pela concórdia, e não pela absorção.”

No ensaio “Sobre a Mística em Política”, Adeodato escreve: “A política corporiza a expressão das mais profundas tendências altruístas da personalidade. É nela que o homem mais totalmente se dá aos outros e se esquece de si. (…) A verdadeira política deve dirigir-se às almas e não a algarismos. (…) A política sem alma, política que seja apenas uma técnica, cria a impassibilidade e a desolação à sua volta. (…) O povo só pode ser idealista pelo sentimento. É necessário que a alma revolucionária acorde nele para fazer dele outro homem. Uma política de simples inteligência o “geito frio, geométrico, sem alma” somente conseguirão fazer dele um tirano cheio de apetites ou um escravo submisso e resignado…”

Em “Civilização Hindu”, o filósofo diz que “Enquanto se não generalizar pela educação a ideia de que o verdadeiro progresso é a aquisição do predomínio da vontade esclarecida e do equilíbrio da Razão, não há solução possível para os angustiosos problemas modernos. (…) As diferenças são matizes que embelezam e enriquecem a existência social. A uniformização é a monotonia, a morte. (…) É necessário que nos habituemos a ver mais o que nos aproxima do que o que nos separa do nosso semelhante.”

Por ter apresentado ideias avançadas para o seu tempo, Adeodato foi perseguido, porque tudo o que parecia diferente do estabelecido era considerado comunista.

MORTE E SEMENTE

Adeodato faleceu em Coimbra, no sanatório dos Covões, a 6 de Agosto de 1937, com 32 anos, da mesma doença que vitimara Júlio Dinis, Cesário Verde e António Nobre - a tuberculose, cujo tratamento para a sua cura seria implementado quinze anos depois, na sequência da descoberta da estreptomicina.

Os mineiros de Aljustrel e os amigos reuniram economias para auxiliar a viúva e os órfãos. A notícia foi dada na Holanda e noutros sítios do planeta, por via da rede esperantista. O jornal “República” do dia seguinte escreveu que ele era “uma das inteligências mais fulgurantes da sua geração” e que “deixa um amigo em cada conhecido”.

A sua obra - póstuma - encontra-se reunida no volume “O Livro da Vida”, que a família e a Hugin reeditaram em 2000, e cujo lançamento ocorreu perante o auditório da Rádio Difusão Portuguesa, em Lisboa, repleto.

Kalidás Barreto, fundador e ex-dirigente da CGTP-IN e deputado da Constituinte, é filho deste homem fascinante, modelo de tolerância e humanismo, de encontro feliz com o Outro, que estabeleceu, pela inteligência e sensibilidade, uma ponte cultural entre a Índia e Portugal. São dele estas palavras, proferidas durante a evocação do centenário do nascimento de seu pai, que a Casa de Goa realizou em 18 de Novembro de 2005:

“Despertou a juventude de Goa, Coimbra e Aljustrel. Desconhecido, ignorado ao longo de meio século. Cantor da Índia mística. Adeodato Barreto é o cantor de língua portuguesa de conciliação entre o Oriente e o Ocidente.”

Sindicalista e associativista, Kalidás envolveu - se em causas sociais nobres, lutando por uma terra mais justa. O que lhe valeu, a exemplo do que sucedeu com o pai, a perseguição da Polícia Política de Salazar.

Em 1 de Dezembro de 1974, segundo testemunho de Francisco Colaço, foi descerrada em Aljustrel uma placa toponímica, na inauguração da rua com o nome de Adeodato Barreto, tendo proferido um discurso, o velho amigo do homenageado, Edmundo Silva. Ainda hoje, em Aljustrel, há quem se considere devedor dos ensinamentos daquele cidadão do Mundo, indiano de Margão, que em todo o lado, mas principalmente na vila mineira do Baixo Alentejo irradiou a luminosidade de um carácter que se destacou pela cultura humanista e pela partilha.

Nos artigos divulgados pela imprensa, nos opúsculos editados, na poesia difundida, o pensamento e a sensibilidade humanista de Adeodato Barreto constituem um legado impressionante. Pela sua obra perpassam valores como a justiça social, a conduta ética em política, a fraternidade, o amor à terra natal.

A obra deste notável pensador, porém, não se restringe à escrita. A atitude pedagógica, discreta mas interveniente, na fundação de jornais e associações, o seu envolvimento na difusão do esperanto, na alfabetização, no auxílio aos desfavorecidos e na contestação à prepotência, granjearam a admiração de muitos e a perseguição de alguns.

Face ao seu admirável e influente trajecto - tão breve! - Adeodato Barreto permanece como símbolo e expoente da cultura indo-portuguesa do século XX.
Há pessoas que transcendem a vida quotidiana. O caso de Adeodato é modelar. Em pouco mais de três décadas de existência irradiou um fervor e uma sabedoria que deixaram semente.

José Luís Pereira Jorge, no artigo “Adeodato Barreto, esse quase desconhecido”, assegura que: “A sua actividade foi multifacetada, fecunda e apaixonada, à imagem dos grandes homens da Renascença. Foi poeta, jornalista, pedagogo, filósofo, doutrinador, artista e filantropo.”

Para Orlando Costa "Poeta, pedagogo, polemista, mais arauto do que profeta, Adeodato Barreto conjuga a força da inspiração espontânea com o espírito de missão e a defesa inteligente de valores moais da liberdade e tolerância e do humanismo universal. Sinto-o, antes de mais e acima de tudo e simultaneamente como a voz arrebatada e nostálgica de uma identidade desterrada e de uma vitoriosa cidadania sem fronteiras."

Corroborando a antropóloga Sónia Frade, do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, criado no âmbito das actividades da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, “uma obra imensa numa vida tão breve.” É aliás da autoria deste Grupo de Trabalho, a proposta enviada à Comissão de Toponímia de Lisboa, com a qual termino este artigo:

“PROPOSTA*

Considerando que Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento se comemora em 3 de Dezembro de 2005, foi uma figura ímpar na cultura portuguesa, tendo sido poeta, jornalista, pedagogo, filósofo, doutrinador, artista, filantropo;

Considerando que apesar da sua curta existência (32 anos), influenciou sobremaneira o pensamento do seu tempo, exercendo uma carreira exemplar de professor e notário, dirigindo jornais, fundando associações, instituindo cursos de alfabetização e de esperanto;

Considerando que a sua dinamização da língua universal, a par da sua intervenção cívica libertária e pacifista, são atitudes que merecem ser recordadas,

Considerando que este português do Oriente nasceu em Margão, no antigo estado de Goa, deixando no coração dos amigos das diversas terras por onde passou uma marca indelével, havendo ainda quem se defina como discípulo da sua sabedoria;

Temos a honra de propor que seja atribuída a uma rua da cidade de Lisboa o nome de Adeodato Barreto, perpetuando a sua mensagem de partilha de conhecimento e da tolerância entre povos, tão actual e premente no contexto do transnacionalismo dos nossos dias.

Lisboa, 18 de Julho de 2005

*Aprovada em reunião da Direcção da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, e subscrita pelos proponentes”

Luís Filipe Maçarico**

** Membro do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, Antropólogo, poeta

BIBLIOGRAFIA:

LIVROS E ARTIGOS

AMARO, Luís (2005) “Para Lá da Névoa”, edições Caixotim.

BARRETO, Adeodato (1934) “Sobre a Mística em Política”, Aljustrel, Setembro, 14 pp. dactilografadas.

BARRETO, Adeodato (2000) “O Livro da Vida”, Hugin, Lisboa.

COSTA, Orlando (2000) “Indianidade, Solidariedade, Liberdade”, in “O Livro da Vida”.

FONSECA, Maria Inês Pinto (2004) “Levávamos Logo a Foice P’ra Mina” Identidades e Memórias dos Mineiros de Aljustrel, Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, tese de doutoramento.

JORGE, José Luís Pereira (1996) “Adeodato Barreto, Esse Quase Desconhecido”, in “Lucerna”, Leiria, Boletim da Associação dos Antigos Alunos da Escola Domingos Sequeira, nº 18.

MIRANDA, Lúcio de (1940) “Adeodato Barreto (Ensaio Biográfico e Crítico)”, Bastorá, Tipografia Rangel.

RASQUINHO, Francisco (1976) “Filhos de Aljustrel”, edição de autor, Lisboa.

FONTES ORAIS

Conversas com Francisco Colaço, Kalidás Barreto, José Soares e Olavo Rasquinho.

JORNAIS

"Círculo”, Todos os números (7), de 18-6-1934 a 26-8-1934.

“República”, 7 de Agosto de 1937.

WEBGRAFIA

http://aaldraba.blogspot.com

http://ciberduvidas.sapo.pt/antologia/souza.html

http://www.rtp.pt/index.php?article=208388&visual=16

http://www.goacom.com/casa-de-goa/boletimSetOut2003.html

Fotografias:
Adeodato Barreto (gentilmente cedida por Kalidás Barreto)
Tagore (recolhida na Net)
Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel(LFM)
Olavo Rasquinho, filho de um discípulo de Adeodato, junto à fotografia de seu avô no Museu Municipal de Aljustrel(LFM)