"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, junho 26, 2006

Sabugal: Histórias da Raia-2


Há quem defenda que fazer uma exposição, um museu sobre as estórias e a História do povo é cristalizar a vida desse povo, que a memória, a identidade são conceitos gastos e porosos...
Contudo, a banda desenhada, a imagem virtual, o jogo de computador, o filme, a fotografia, o livro, o testemunho oral, podem ganhar outra dimensão se integrados num contexto de exibição de vestuário utilizado e mercadorias contrabandeadas, como suponho que irá ser implementado em Melgaço.
No Sabugal até Agosto a exposição sobre o Contrabando pode ser visitada por aqueles que queiram lembrar e por todos os que não sabem como custou aquecer o lugar onde hoje se sentam.
(texto e foto de LFM*)
*O Blogger não me está a deixar postar mais fotografias das muitas que queria mostrar, vá-se lá saber porquê. Quando houver hipótese mostro mais imagens...

Sabugal: Histórias da Raia -1



A semana passada dei uma saltada ao Sabugal, para conhecer melhor o concelho. Com a preciosa colaboração da Eduarda Rovisco, do José Rodrigues e da Dina Rodrigues, visitei o viveiro das trutas dos Foios com o presidente da autarquia local que é um divertido contador de histórias de contrabandistas, o Soito e Alfaiates, de cujo castelo guardei uma imagem para partilhar.
No auditório municipal durante um fim de semana largo falou-se muito de Contrabando, da memória e da identidade, do desenvolvimento local e da investigação, que se multiplica, finalmente, em torno de uma actividade que ocupou milhares de pessoas da raia.
Já passou algum tempo sobre este evento, mas do muito que escutei e da exposição sobre esta temática que permanece, ficam algumas imagens e o prazer que tive em conhecer pessoalmente o advogado e cidadão espanhol António Ballesteros Doncel, cuja conferência me encheu as medidas.
Ballesteros escreveu "Los Mochileros" e durante muito tempo, suponho que décadas, guardou o texto até um amigo aconselhar publicação. Em 1972 o livro apareceu e já vai na 4ª edição, segundo me revelou seu filho. Em 2000 a Diputación de Badajoz - Departamento de Publicaciones reeditou esta obra numa versão bilingue, com tradução portuguesa de Maria Antónia Pires R.
Desculpem mas não resisto a dizer-vos que hoje, quando cheguei a casa, vindo do trabalho, tinha este livro no meu correio e uma dedicatória:
"Para Luís Filipe Maçarico con todo afecto A Ballesteros Junio 2006"
Um dia destes voltarei a falar do autor e do livro que é uma das "bíblias" sobre o assunto. Recomendo.
(texto e fotos de LFM)

quinta-feira, junho 15, 2006

O Meu Hotelzinho de Jerba







Desculpem o egoísmo, mas do meu hotelzinho de Jerba apenas partilho estas imagens. Há segredos que têm de ser muito bem guardados. Os últimos paraísos estão a acabar, por isso convém não perder este, que foi descoberto em Agosto de 1991, quando a Tunísia costuma ter temperaturas de quase 50 graus. Prefiro ir lá quando está menos abafado, Outubro, Novembro, Abril...
Num tempo em que a viagem é um bem de consumo, eu continuo a querer ficar ali, alheio à confusão, sossegando o espírito, escrevendo o meu poema, repousando das caminhadas em busca de ânimo. Depois passo pelo marché e aspiro todos os aromas das ervas curativas e das especiarias. A seguir vou ao Central e regalo-me com um pires de azeitona e harissa, mais um scalope dinde. Antes de tudo isso terei visitado Bechir Kouniali, o pintor da ilha. O mar ter-me-á hipnotizado e quando encontro Mabrouk e Nizzar para prosseguir conversas de uma vida a noite já espalha uma tapeçaria de estrelas misteriosas.
Jerba é um cenário magnífico para nos reconciliarmos com o Mundo, por ali estive já algumas vezes exausto e triste, de lá voltei regenerado, graças ao hotelzinho mágico, que os sugadores de viagens apressadas não têm tempo de conhecer, mas têm sempre muita inveja, porque querem estar em todo o lado e nunca conseguem estar em sítio algum...
(Texto e fotografias-Março 2006- de LFM)


domingo, junho 11, 2006

Flor do Jacarandá (clique em cima da fotografia para ver bem as flores)


Flor do jacarandá
Cai, leve no passeio
Céu d´outro mar sonhado
Chão de anilado estio.
A florir, lá no mês de sonho tapete de voar
Nas luas de zefiro
Estrada de santiago
Manda a...

chuva de estrelinha, azul pavão
Brilha na noite
Vou de namorada, mão na mão
Perdi a escada para o céu
Dos pardalinhos
Na ilusão da boa fada
Toco na varinha de condão
Durmo na rua onde a...

(canção de Vitorino; foto:LFM)

sábado, junho 10, 2006

Noites de Junho no Cova da Moura



O Clube Desportivo Cova da Moura foi fundado em Março de 1952. Mantém-se com voluntariado e sacrifício dos directores que abrem a sede todos os dias e decidem coisas tão pertinentes como realizar uma noite de fado ou um torneio de jogos de salão inter-sócios.
Neste momento está a ser dirigido pelo segundo mandato consecutivo por uma mulher, operadora de uma fábrica de rebuçados. Antes dela um jovem estudante dirigiu os destinos do clube, que se tem destacado em termos desportivos.
Continuam a animar a tradição das noites de Junho com uma das mais saborosas sardinhas de Lisboa, que a falta de curiosidade dos lisboetas e até da vizinhança permitiu encontrar o espaço com algumas mesas livres para a delícia do petisco.
A semana passada caí na asneira de seguir a sugestão de uma amiga, desfasada das tascas do BA (Bairro Alto). Foi uma das piores experiências da minha vida: a salada vinha com cabelos, a sardinha era preta de tão congelada, a saber a abutre podre. Isto no Bairro Alto para onde costuma ir uma manada de gente que faz gala em se encontrar (ou exibir?) para beber umas zurrapas e não se ouvir no meio de berreiros e sons tronitruantes. A tasca em questão tinha deixado boa impressão no início dos anos 90, e Bual e Graça Morais eram seus frequentadores...Agora, turistas alemãs imberbes deliciam-se a comer merdola... regada com uma qualquer beberragem, desde que lhes cheire a xnapz (o som da palavra alemã que significa álcool, aguardente...)
O Cova da Moura, ao invés, apresenta sardinha do melhor, saladinha de chorar por mais e um vinhito singelo que sabe bem. Ali ao pé da Infante Santo e do Ministério dos Negócios Estrangeiros...
Ainda bem que há colectividades para fazer a diferença até em coisas tão importantes como é o convívio à volta de uma mesa na brisa, entre marchas e risadas de jovens...
Parabéns à presidente Eugénia Paulo e à sua jovem equipa e também ao assador e ex-presidente José Vilhena, de uma competência insuperável.
Eles são os maravilhosos fazedores de uma festa que insiste em espalhar alegria nos ares da cidade, que já pertenceu ao povo, cada vez mais cercada por condomínios, onde vive no meio de cidadãos normais uma gentalha que odeia misturar-se com a populaça e o odor das sardinhas.
Vivó Cova da Moura pela sabedoria da resistência, num tempo de invasão de espaços, outrora habitado e frequentado por gente humilde, que ao perder essa referência se torna noutra coisa, como quem mergulha um tecido cor de céu em lexívia...
( reportagem de LFM)


sexta-feira, junho 09, 2006

Campeonato da Ignorância



Começa hoje o Campeonato Mundial de Futebol. Não se consegue abrir o aparelho de rádio sem escutar não-notícias acerca do padre que foi à Alemanha de propósito entregar uma canção composta para a selecção, outro que chegou de bicicleta desde as berças, para oferecer bandeiras, e tudo é pretexto para dizer nada. Anda tudo à babugem como aquelas gaivotas que pescavam cagalhotos no cano de esgoto ao pé da estação fluvial Sul-Sueste...
Começa hoje um encontro entre os escolhidos das elites do futebol, que se querem fazer passar por representantes de países e a populaça toma por iluminados.
O negócio é colossal. Quantas multinacionais envolvidas! O capitalismo baba-se por ter um alicerce tão robusto, por a ignorância e o fanatismo serem tão bons terrenos para tão basta colheita.
E os alemães aproveitam: é fartar vilanagem! Venha mais uma salsicha de Frankfurt e uma caneca de Munique!
Quanto ganham Scolari, Figo, Ronaldo?
Pergunto apenas isto: para erradicar do Mundo a fome, quantas mulheres se uniriam para formar a mais bela bandeira?E quantos homens dariam o seu contributo moral e material para acabar com a miséria neste planeta? E os tais ilustres quanto dariam do seu bodo-overdose?
Porque razão para as causas mais humanas e arrepiantes as pantufas falam mais alto?
(pinturas de Siqueiros-Nuestra Imagen Actual-e Rivera-La noche de los pobres)

quarta-feira, junho 07, 2006

Nádia Torres


Nádia Torres é uma criadora de objectos e momentos mágicos.
O prazer do convívio, a cariciosa beleza do sorriso, a fruição da vida, estão incrustrados em cada peça de joalharia que inventa, em cada palavra ternurenta com que nos brinda.
Há pessoas assim, especiais, a espalhar luz nos caminhos da manhã...
E foi o que sucedeu na última semana de Maio ao viajante. De repente, a Nádia surgiu e anunciou que estava a estrear o novo atelier. Subimos e deliciámo-nos.
(fotos de LFM, Mértola, Maio 2004)



Diálogo em Mértola


Perto do Guadiana, esta porta embala a nostalgia de um diálogo singular:
Batente e aldraba convivem, alheios a um quotidiano que os derruba e substitui a música ressoada na espera do seu elegante corpo metálico pelo exuberante triunfo do alumínio e dos puxadores platinados...
Felizmente resistem, estes objectos mudos onde por vezes uma mão desafia o tempo.
(Fotografias:LFM)

sábado, junho 03, 2006

Lenda da Raposima contada por Magda Fonseca




Não há muito tempo havia ainda moiras encantadas no nosso País...

Tenho 72 anos e, o meu avô materno que era de Sesimbra, contava-me histórias e lendas da sua terra que ele amava.

Eram histórias de pescadores, de naufrágios, algo fantasiados e de moiras encantadas.

Devo, em primeiro lugar dizer que esse meu avô era um homem culto, combatente pela República, de ideias muito avançadas para o seu tempo.

Ele contava-me a seguinte lenda, passada com a "curiosa" (parteira) que o ajudou a nascer em 1881. Chamavam-lhe Raposima e creio que ninguém saberia dizer qual o seu nome de baptismo.

Ela como quase todas as mulheres daquela terra, era casada com pescador e tinha um rancho de filhos. Como em todos os lugares tinha de haver alguém que acudisse àquelas que estavam a parir e ela, como tinha "jeito e saber", ia quer de noite, quer de dia, ajudar a pôr os meninos neste Mundo. Coisa perigosa e difícil naquele tempo e na nossa terra, em que a maldição de "parirás com dor", era tida e temida como certa e era sempre para todas as mulheres momentos entre a vida e a morte.

Mas vamos à lenda:

Numa noite de temporal, em que o ruído do mar se ouvia no castelo, em que os relâmpagos iluminavam os areais e a chuva fustigava tudo e todos, bateram, altas horas, à porta da humilde casa da Raposima.

Era um embuçado a chamá-la para acudir a uma mulher que estava em trabalho de parto havia muitas horas e, segundo ele, estaria às portas da morte, lá para os lados da Pedra Grande.

A Raposima disse que não poderia ir, pois o tempo estava horrível e ela nem sequer sabia para onde a ia levar e tinha medo.

Depois de muito instada, comoveu-se com as súplicas do homem e lá o acompanhou.

(Quem esteja de frente para o forte de Sesimbra virado para o mar, o areal do lado esquerdo estendia-se, naquele tempo, até uma falésia muito alta que entrava pelo mar dentro, onde hoje há só cimento armado e condomínios fechados...)

Lá foram a rudes penas, pelo areal, encharcados e batidos pelo vento. Algumas vezes Raposima quis voltar para trás. Mas o homem suplicava, chorava e prometia que ela seria a mulher mais rica do mundo se lhe salvasse a mulher e o filho, que era o primeiro.

Chegaram, por fim, à Rocha e o homem bateu como quem bate a uma porta.

A Rocha abriu uma passagem e a Raposima viu-se dentro de um palácio, que diremos nós, das Mil e Uma Noites. Um luxo como ela não poderia imaginar filha de gente pobre, analfabeta e cujos limites acabavam na linha do horizonte do mar de Sesimbra.

No meio do deslumbramento viu uma linda princesa moira que estava a parir no maior desespero e sofrimento.

Raposima arregaça as mangas e vá de ajudar e fazer o que sabia. Passam horas de angústia, mas por fim, lá nasce um lindo menino. Choram todos de alegria e o pai leva a Raposima a uma sala onde se amontoavam pedras preciosas, ouro, pratas e joias. Perante o seu pasmo, o homem disse que levantasse o avental e fizesse uma abada do que quizesse mas...com a condição de que NUNCA dissesse o que vira e donde lhe vinha a riqueza porque se não...

A tempestade amainara e o dia ia raiando quando Raposima sai da Rocha e corre para casa como louca para esconder o tesouro onde ninguém o visse, mas toda a gente a martirizava com perguntas a que ela durante muito tempo resistiu. Porém, não podendo mais calar, confessou a uma das filhas o seu segredo.

Quando quis provar que tudo era verdade, foi buscar o tesouro. Abriu o esconderijo e só restavam pedras sim, mas de carvão!

Até à invasão da "urbanização" a Rocha passou a chamar-se Pedra da Moira e a Raposima foi continuando a ajudar a nascer os filhos dos pescadores, recebendo em troca algum peixe e outras modestas pagas. Morreu velhinha sempre acreditando que conhecera a Princesa Moira.

E é sempre com emoção que conto esta história aos meus netos, pela proximidade da vida da Raposima connosco, pelo sonho e fantasia !

Oh e como eu gostava de Moiras Encantadas... e das histórias do Mar, das Sereias, dos Pescadores de sonhos, dos naufrágios e salvamentos miraculosos e daquele meu Avô Luís, ateu, republicano e maçon, que contava histórias de moiras encantadas como se nelas acreditasse.


Magda Fonseca

(Ilustração: Paisagem habitada do deserto, recolhida num blogue do Dubai e casa inacabada em praia de Jerba e entrada para residência troglodita em Matmata, ambas as imagens captadas na Tunísia, em Março de 2006, por LFM)

quarta-feira, maio 31, 2006

Segurança Social


Hoje no "Público", página 36, notícia a 4 colunas: "Deputado do PS critica "falta de coragem" na Segurança Social"
Respigo este excerto:
"O deputado considera que as propostas do Governo são uma solução que "tenderá, ano após ano, a reduzir os direitos dos trabalhadores."
"No fundo, estamos a nivelar os direitos por baixo. Nós e toda a Europa."
(...) E lembrando que cada vez mais o trabalho do homem é substituído por máquinas, termina com uma ironia: "Se continuarmos a ter contribuições só sobre o factor trabalho, ainda vamos ver os robots a contribuir para a Segurança Social."
Lamento desiludir-vos, mas quem disse isto não foi Manuel Alegre, e aposto que a sumidade poética deve ter votado pela polémica alteração das sessões da Assembleia a fim de poder ver o futebol.
O autor da frase chama-se Vítor Baptista, coordenador do partido governamental na comissão de Orçamento e Finanças.
Foto de LFM (Pomarão, Maio 2006)

segunda-feira, maio 29, 2006

Alves: Uma Imagem


Alves é um lugar da freguesia de Santana de Cambas. Passei por lá na semana passada, durante um curto período de fuga à rotina citadina. E partilho esta imagem, que não precisa de muitas palavras, neste primeiro dia da incursão do presidente da República ao país real, na luta contra a exclusão, em terras de gritante interioridade, um pouco mais acima em Montes Altos (lugar da mesma freguesia) e Mina de São Domingos, também no concelho de Mértola, perto da raia.
Apenas acrescento que o senhor que aparece na fotografia, ao lado da companheira de uma vida, me disse que tem dias em que não vende nada, porque os potenciais clientes não aparecem, pois não têm dinheiro para gastar num copo...

domingo, maio 28, 2006

Eduardo Paniagua e Três Culturas








Ontem em Mértola, no recuperado Cine Teatro, assistiu-se a um excelente espectáculo, com música dos judeus sefarditas, dos árabes andaluzes e dos cristãos da Espanha Medieval, onde três culturas se desenvolveram.
Eduardo Paniagua apresentou cada intervenção do grupo, nomeadamente Ki Eshmerá Shabat, interpretada por um artista judeu que cantou em hebraico.
A sonoridade do alaúde, da flauta, do saltério, da darbuga, do pandeiro, das campaínhas, da cítara, das palmas, mais as vozes de um marroquino e de um andaluz, a solo e de todos em coro, transportou os espectadores para lugares do imaginário e da pura delícia, que a fruição da música com cambiantes orientais a tais divagações desafia.
Paniagua dedica-se há dez anos à recolha dos tesouros musicais que chegaram até nós através da oralidade. Este projecto tem três discos editados. O CD referente ao espectáculo que em Mértola assinalou o lançamento do 4º Festival Islâmico, que acontecerá no próximo ano em Maio, em data ainda por anunciar, integra uma voz feminina (Aurora Moreno) e mantém a beleza que ao vivo é uma maravilha.
Eduardo Paniagua nasceu em Madrid en 1952, é arquitecto e especialista em música da Espanha medieval. Aos 16 anos gravou os seus primeiros quatro discos o grupo Atrium Musicae, trabalhando nesse projecto entre 1966 e 1983, realizando concertos na Europa e América. A discografia produzida desde então, bem como a fundação de vários grupos, proporcionaram o reconhecimento internacional, pela qualidade e rigor do seu trabalho. Tem participado em festivais do mundo árabe, no Egipto, Líbano, Tunísia.
Para mais informações consultem:
http://www.ctv.es/USERS/pneuma/grupo.htm
Recomendo este disco e este espectáculo. estejam atentos!
(texto e fotos de LFM)

sexta-feira, maio 19, 2006

O Vómito do Futebol


É estranho que, quando falo com amigos, adeptos de futebol, eles mostrem desconhecer quem é Scolari. Proponho um pequeno exercício...Façam a experiência: escrevam no motor de busca sem aspas: Scolari+Pinochet e vejam o que aparece...
Nesta pesquisa quis confirmar o que já sabia há alguns anos, fruto da leitura atenta dos jornais, para mostrar aos que me lêem algo que me envergonha como português e cidadão do Mundo. Há poucos minutos descobri que jornais ingleses e franceses também falaram disso e não resisto a partilhar excertos de um texto, extraído de um blogue, que me chamou a atenção precisamente por causa da abordagem deste assunto:

"Portugal é o galo de Barcelos, já sabemos. É Fátima, no ar em simultâneo em quantos canais houver. Também é o Campo Pequeno, remodelado e mostrado às massas, de Norte a Sul, na certeza de que a tourada é tão portuguesa como se pretende que o fado seja. Portugal é o país que ouve e vê, em directos na abertura dos noticiários, um cidadão peçonhento a anunciar vinte e três cavalheiros que vão à Alemanha jogar à bola, com apelos ao patriotismo feitos em grande solenidade, como se na presumível selecção nacional de futebol residisse o segredo da retoma, emocional ou económica.

Luís Felipe Scolari é, para mim, um zero. Desde a primeira hora.(...)Nunca poderia ter consideração por um sujeito que, publicamente, apontou Augusto Pinochet como modelo.

Scolari é um seleccionador de olhos fechados aos critérios técnicos e à valia desportiva. Seleccionou em tempos, como ele gostará de dizer, uma espécie de família ou grupo de amigos, convocados sempre, haja o que houver, joguem ou não joguem nos clubes que representam, estejam ou não em forma. São aqueles quem segue viagem, ele é que sabe, quem não vai fica de fora e a palavra injustiça nada lhe diz. Seguisse ele o exemplo de Pinochet e todos os que o criticam desapareceriam, como talvez desaparecessem os jogadores que as massas ignaras gostariam de ver convocados. Seria mais fácil, (...) poríamos a bandeira nas janelas e pediríamos autógrafos ao treinador de todos nós. De todos, sem excepção, porque tem tempo, nos intervalos de aprontar os craques, para doutrinar o furor patriótico nestas terras onde, suporá, tal coisa nunca antes existira.

Scolari é vaidoso e bem pago. É pedante e cultiva a pose de estado como se fosse mais do que um treinador de futebol. Evidentemente que lhe perguntaram por Ricardo Quaresma, mas, como Portugal é um país onde não faltam brandos jornalistas, todos acham normal que se recuse a responder, argumentando só falar dos atletas que convocou.

(...) Scolari é menos do que julga, mas veio parar a um país onde o fazem assim julgar. Triste espectáculo, este, mas bem inserido na onda de optimismo que o marketing tem vindo a injectar na turba, de tal forma que deve haver uma cada vez maior quantidade de portugueses e portuguesas convencidos de que Portugal é o favorito no Campeonato do Mundo. (...)Foi neste país de pastorinhos que a medíocre equipa da Grécia se sagrou campeã da Europa, não conseguindo, depois, qualificar-se para o Mundial da Alemanha.(...)

Scolari é, enfim, aquilo que as circunstâncias proporcionam. De barriga cheia e bem cheia, e a encher mais os alforges a cada dia que passa, sabe ter a postura que impressiona os descamisados, gostaria ele de ser Evita para cintilar entre jóias. Cultivando aquela imagem falsa de seriedade, promete maravilhas (...) cria na distante perspectiva do sucesso a redenção de um povo cada vez mais asfixiado. Cresceu o número de peregrinos em Fátima, joga-se cada vez mais no Euromilhões. É em países assim que Scolari brilha. Sul-americano que é, sabe-o melhor que todos nós.

Fonte:http://fontedasvirtudes.blogspot.com

(foto de LFM)

segunda-feira, maio 15, 2006

Café Sidi Chabâane em Sidi Bou Saïd: O Esplendor do Silêncio Debruçado Sobre o Mar















A esplanada estava repleta de turistada e tunisinos em tarde de sol e lazer. Eram dezenas e a luz esbraseava.
Pela décima segunda vez em quinze anos visitava aquele lugar que uma lenda assegura ter sido abrigo espiritual de um dos Luíses do trono francês...
Talvez os meus leitores ao saborearem a beleza deste lugar, através das imagens que consegui captar recriando um espaço íntimo, percebam porque também este Luís vive de contemplação, no êxtase da Luz!
Debruçado sobre o mar reencontrei no azul e na cal o esplendor do silêncio, que vos entrego. Não percam este verso também vosso agora...
(Fotos de LFM)