"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Maternidade de Elvas-Uma Carta de RosaMaria


Recebi ontem, ao fim da tarde, um texto urgente de RosaMaria, que transcrevo, dando voz à sua indignação, que, dizem, é um direito que ainda nos assiste...

"Dizia o jornal de notícias na edição da passada segunda-feira dia 5 de Dezembro:

Falta de Obstetras obriga maternidades a contratar reformado

Palavra infeliz que um jornal imprime, numa mistura de palavreado sem conhecimentos desta mesma causa, envolvendo um presidente da especialidade na Ordem dos Médicos (O M).

Esta foi a minha visão de profissional dessa mesma Maternidade que foi focada como a primeira a ser fechada nesse mesmo jornal.

Trazer vida ao mundo com amor, onde a qualidade é importante, mas passa para segundo plano, quando os propósitos são ultrapassados por cifras, isto é, Euros que só são mal gastos num povo a quem Nascer incomoda aos custos. Tão pouco valemos? Porque será?

Que tristeza, que país este, onde tudo se acaba e nada se constrói, a não ser, claro, as belas vivendas e solares em terras Alentejanas. Mas de quem são? Sim, de quem são essas maravilhosas casas e montes, dos que têm dinheiro, neste país e à custa de apertar o cinto e de tantos impostos.

Os enfermeiros trabalham de noite e de dia, por amor, esquecendo muitas vezes a família; entregam-se de corpo e alma até à exaustão, por um preço miserável chamado salário, que comparado com o país vizinho é uma esmola.

Hospitais do Interior que trabalham com qualidade e amor, onde o doente não é um número e é tratado pelo seu nome, onde a qualidade dos serviços prestados é premiada pela qualidade e tem lugar de notícia televisiva.

Que país é este?

Que notícia infeliz, que nem soube ser sensacionalista e quem a escreveu devia ter vindo averiguar no terreno como se trabalha num hospital pequeno, mas que tem profissionais competentes, que trabalhando em equipa fazem dos serviços um luxo para os utentes. Deviam ter vindo ouvir esse povo e saber da sua verdade, ouvir a sua justiça para com esse Hospital e como estão ou não satisfeitos, como são tratados, em vez de divulgar a mentira. Não há médicos reformados a trabalhar e maternidade também não é verdade, que esta maternidade tem menos de 200 partos por ano e maternidade não é só partos, tem muito trabalho dentro desse sistema, que não se vê mas que mantêm uma equipa ocupada 24 horas por dia, com trabalho; é só averiguar e falar verdades que o povo entenda e em português.

Somos Alentejo mas não somos as anedotas contadas nos meios de gente abastada, que come e se lambuza com o que este povo criou, mas que por necessidade vendeu por meia leca. Trabalhamos, não andamos aos encontrões em corredores, e não se paga a falsos médicos durante anos. Como aconteceu num desses hospitais onde tudo se amontoa e os doentes/utentes são apenas um número Nós somos reais.

Que politica tão suja a de destabilizar e desorganizar, para que fim? Alguém com interesses mais altos? Ou quem vai responsabilizar-se com o fecho duma maternidade que foi deixada em testamento a esta cidade?

E lembrar-me eu, que ergui bandeiras e andei de braços no ar, naquele dia 25 de Abril contente, porque ia viver num país livre! Livre de quê, afinal? As ervas daninhas continuam a germinar, os ricos a encher cada vez mais a pança, engordando as suas contas bancárias e a verdade, cada vez mais escondida dos trabalhadores portuguesitos.

Fecham-se escolas agora. No tempo do ditoso salazarismo nem se abriam.

Agora fechem-se hospitais e todos os postos de trabalho que vinham do antigo regime e olho para trás e que diferença faz?

Só mudaram os nomes, tornando-se tudo tão virtual, pela implementação da net e do mundo cibernauta…mas onde ficaram os sentimentos, a vida real, o amor ao próximo? Na conta bancária de quem fala do que não sabe, do que não chega ao fim do mês e vê os filhos a pedir pão.

Vergonha de ser Portuguesa não tenho, mas tenho vergonha de ter no País tantos cérebros iluminados, ricos de sabedoria sim, mas para governar as suas casas, onde as suas dispensas estão cheias de tudo, esquecendo aqueles que foram postos na rua dos seus empregos e ficaram sem ter como dar de comer aos filhos (meus pais dividiam uma sardinha para quatro bocas, na casa de meus avós no tempo da 2ª guerra mundial.)

Onde está o meu país de Abril, que abria as portas ao povo em promessas de viver bem? Onde estão tantos valores perdidos, com a entrada da globalização feita de imitações pobres e onde o ensino se esqueceu da sua própria História que já nem se lembram do quem foi o primeiro Rei de Portugal…

Trabalho na mais pequena maternidade do país, desde há quase 24 anos… Desde sempre foi a mais bem apetrechada de meios complementares de diagnóstico. Com Parteiras formadas pela Faculdade de Medicina de Coimbra, que a tornaram até aos dias de hoje, numa maternidade de amor, como refere a revista “Visão” num trabalho que tem por titulo “Como se nasce em Portugal - Da maternidade Maior à Mais Pequena”(Revista “Visão” edição nº465, de 31 de Janeiro a 6 de Fevereiro de 2002).

Que pena não ser tomada como exemplo, em vez dessa notícia monstruosa com cheiro a morte de tudo o que é lido com a vida.

Mas as palavras fechar, acabar, ou simplesmente abortar pertencem aos fracos e impotentes, na sua incapacidade de gerir um passado que vai agonizando, porque o País de Abril já lá vai e a história agora é feita de causas perdidas e portas fechadas. E porque será?

Que país que se acomoda num pasmo de morrer e não reage aos abusos e ofensas a quem trabalha!!!

ACORDEM e digam de sua justiça, somos portugueses e não temos que copiar ninguém, não é obrigatório ou é?

Haverá por aí de novo a PIDE? Não sei, mas o terror existe no trabalho que obriga quem o tem a sujeitar-se a tudo para o não perder e não ser ameaçado ou chantageado.

Voltamos ao princípio, mas sem valores, sem respeito, cavalgando selvaticamente, passando por cima de tudo e todos, espezinhando e desvalorizando o trabalho honesto que sai das mãos desta gente do Alentejo, que também é Portugal caso não saibam.

Rosamaria Abrunheiro

Parteira da Maternidade de Elvas

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Momento de Bricolage: Fazer Sabão!



As imagens não são grande coisa, mas espero que dêem uma ideia do que podemos fazer quando o sabonete fica um rasto do que era e se desfaz e se escaqueira em bocadinhos.
Em vez de deitar fora esses restos, reciclei-os em novos sabonetes, feitos dessa mescla de desperdício que pode ser reaproveitado.
Se for adepta/o desta espécie de bricolage, proceda da seguinte maneira: arranje um pequeno recipiente de plástico vazio, tipo embalagem de marmelada, e vá deitando nele os pedacinhos de sabonete que pretende reutilizar.
No caso de ter vários, corte em pedacinhos minúsculos, para ao misturar ficarem estilo ladrilho, de cores diversas...
Humedeça, empape, amolgue e vá moldando até ganhar alguma consistência...
Aconchegue a mistura obtida na tal forminha...
Além de ajudar a desencardir e desengordurar as mãos, para alguns talvez devesse servir para lavar os bofes, infestados de fel. Não alimentemos, porém, grandes esperanças: as almas emporcalhadas gostam de chafurdar na lama.

Excesso de Chefes e Escassez de Chefiados na CP


Assim se destrói uma empresa pública: gerida de uma forma esquisita, que produz os resultados que estão à vista, nomeadamente na linha da Beira Baixa, a CP (e o seu clone Refer) integra mais chefes que chefiados.
Esta bela notícia saiu na imprensa de ontem. Se não fosse terceiro-mundista qual fado da desgraça, daria para rir...

terça-feira, dezembro 06, 2005

Jantar Evocativo de Adeodato Barreto










Constituído no próprio dia da fundação da "Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular", o Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, tem vindo a reunir com regularidade. Em Julho apresentou uma proposta à Comissão de Toponímia de Lisboa, para que uma rua da cidade seja baptizada com o nome de Adeodato Barreto.
Ontem, na presença dos presidentes da Assembleia Municipal de Aljustrel, professor Luís Bartolomeu e da Junta de Freguesia de Aljustrel, engº Francisco Colaço (foto nº 4), Odete Silva (foto nº 7), filha de Edmundo Silva, discípulo de Adeodato e de Kalidás Barreto ( foto nº6), filho do homenageado, o Grupo de Trabalho Adeodato Barreto dinamizou um Jantar Evocativo do centenário do nascimento daquele vulto da cultura luso-indiana.
O acto, ao qual se associaram diversos membros dos corpos sociais da Aldraba, decorreu na Casa do Alentejo, tendo sido complementado com uma pequena tertúlia, com testemunhos sobre o Mestre e poesia de sua autoria.
A Associação participará em Abril de 2006, com uma exposição, nas comemorações previstas para Aljustrel.
Nesse evento, espera-se uma boa adesão de associados e amigos, que desejem partilhar na vila mineira do Baixo Alentejo sabedorias e sabores.
(fotografias de Sónia Frade-1,8 e9- e de LFM-2 a 7)

domingo, dezembro 04, 2005

Noite de Divas e de Energia Positiva em Elvas









Já pertence à memória e ao onírico mais um momento vivido. Ontem em Elvas, no CineTeatro foi assim: uma plateia interessada, as frisas compostinhas e um elenco de qualidade, todo regional.
Portugal não é só Lisboa. O país real habita naquela cidade da raia. Mas a imprensa e os meios audio-visuais informativos, histéricos de sangue, ignoram ostensivamente os pequenos grandes acontecimentos. Ninguém nos jornais, nas televisões ou nas rádios quer saber dos instantes felizes que, por exemplo, os trabalhadores do Hospital de Elvas semearam no serão tão bem passado naquelas paragens. A não ser a comunicação social local, e nem sempre, seja um encontro de poetas, seja uma noite de fados, não há uma envolvência com os factos positivos até para ajudar a dar volta ao mal estar do povo, sobrecarregado com taxas, impostos, inflações, salários baixos, notícias nefastas, reformas cada vez mais tarde.
Portugal palpita, numa energia belíssima de arte e alma, como estas imagens, tremidas pela emoção do antropólogo (em observação-participante) demonstram.
Na primeira fotografia, Rosa Dias e RosaMaria confraternizam antes do espectáculo. Depois foi o espanto, a maravilha, uma razão para permanecer vivo aqui. E continuar a chatear os bonzos, como diria o outro...

ROSAMARIA, PARTEIRA DO HOSPITAL DE ELVAS, FADISTA, DIVA DA TERNURA


Ontem passei uma noite de Fado admirável no Cine - Teatro de Elvas. A receita do simpático espectáculo revertia a favor do Hospital local. Mas o melhor daqueles instantes, foi ter conhecido RosaMaria, a Maria Callas do Fado, uma Diva de sorriso lindo, uma pessoa que é jóia rara, porque é uma cascata de ternura, adorável. Que cantou um poema de Rosa Dias, que o declamou primeiro, da maneira que só ela sabe. E em Portugal há muita gente a dizer poesia, mas poucos sabem fazê-lo com mestria. Rosa Dias tem a categoria de Villarett e de Mário Viegas. É uma Diva também...
Depois da sessão fomos todos para uma tertúlia, comer uma açordinha, entre comes e bebes, poesia e anedotas. Onde se conversou e se descobriram pessoas tão envolventes, como o capelão do Hospital, padre Avelino, homem de Viana do Castelo, leitor de poesia, amigo da Verdade.
E claro, amigo para sempre de RosaMaria um portento de voz e de alma, que é um escândalo não ser mais conhecida. Brevemente porém, esta mulher de Coimbra, que ajudou a nascer crianças que hoje são mulheres e homens que cantam com ela no espectáculo "Gerações do Fado", vai gravar o seu primeiro disco. Depois de a escutarem, digam-me se não tenho razão...
(fotografia de LFM, no interior do cine-teatro de Elvas, antes da Noite de Fados)

sábado, dezembro 03, 2005

Adeodato Barreto - Um Génio Esquecido






INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA EM GOA E TRÊS CURSOS SUPERIORES EM COIMBRA

Júlio Adeodato Barreto nasceu em Margão, no contexto do antigo espaço colonial português na Índia, no dia 3 de Dezembro de 1905, dia de S. Francisco Xavier.

Referindo-se ao pai de Adeodato, Lúcio de Miranda afirma que era um erudito, poliglota e melómano, o que provavelmente terá influenciado o filho nas suas tendências intelectuais, manifestadas desde a escola primária.

Tímido, passou despercebido dos professores, tendo redigido os primeiros versos e o primeiro jornal, manuscrito e ilustrado com desenhos a pena, aos doze anos. Após o Liceu Municipal de Margão, os estudos prosseguiram em Pangim.

Em 1923, com 17 anos, Adeodato saiu de Goa, para se matricular na Universidade de Coimbra onde, durante oito anos, completou três cursos superiores, fundou com o apoio de alguns professores da Faculdade de Letras um Instituto Indiano, dirigiu o periódico “Índia Nova”( publicado entre Maio de 1928 e Maio de 1929), desenhando e executando xilogravuras destinadas a ilustrar os artigos, prestando auxílio a desprotegidos e presidindo ainda ao Centro Republicano Académico, onde proferiu conferências. Romain Rolland e Tagore incentivaram-no e aplaudiram-no na criação do Instituto Indiano e das suas ideias pacifistas, que se identificavam com a postura de Ghandi.

Apesar de formado em Direito (1928) e Ciências Histórico - Filosóficas (1929), o diploma obtido na Escola Normal Superior permitiu-lhe leccionar durante algum tempo. Adeodato Barreto tornou-se assim professor na Figueira da Foz, na Escola Industrial Bernardino Machado, conciliando o ensino com a colaboração em jornais e revistas (“Voz da Justiça”, “O Diabo” e “Seara Nova”).

Foi contudo na área das leis que o seu desempenho profissional se especializou, primeiro em Montemor-o-Novo, enquanto escrivão de direito, (onde nasceu o seu filho Kalidás), depois em Aljustrel, exercendo o notariado. Ao mesmo tempo, as suas preocupações humanitárias e pedagógicas aprofundaram o carácter altruísta, num permanente exercício de cidadania. Lúcio de Miranda alude à promoção de conferências, à fundação de uma Liga Pró - Instrução e à instalação de um curso gratuito para ensino de analfabetos adultos na cidade de Curvo Semedo.

EM ALJUSTREL, DESPERTANDO CONSCIÊNCIAS

Na sua obra “Filhos de Aljustrel”, p.67, Francisco Rasquinho assinalou: “Veio de longe Adeodato Barreto, dos confins do mundo e teve Aljustrel a ventura de ter sido alvo dessa estrela cadente que aqui se repartiu em fulgurantes cintilações influenciando caracteres e despertando consciências.”

Luís Amaro, no livro “Para Lá da Névoa”, 2005, p.23, revelou: “Aprovado no exame primário, empreguei-me no referido escritório do Dr. Adeodato Barreto (1905-1937-vida breve!), o primeiro escritor, de facto, com quem me foi dado privar, autor duma Civilização Hindu (Seara Nova, 1935) sobre cujas provas me lembro de o ver, e ultimamente reeditada com estudos introdutórios de Orlando Costa, Elsa Rodrigues dos Santos e Teotónio R. de Souza. O Círculo, semanário local que fundou e seria em breve proibido, foi um dos meus fascínios, antes de conhecer-lhe o director, alta figura de indiano, que se formara em Direito na Lusa Atenas, onde ia jurar, conheceu os presencistas (muito posteriormente, Gaspar Simões incluiu-o na poética série antológica que, anónima, organizou para o suplemento “Domingo” d’O Primeiro de Janeiro). Mas os interesses do Dr. Barreto (…) convergiram noutro sentido - O Diabo, a Seara Nova que lhe editou a obra magna…No cartório, aprendi tão-só, porém, a dactilografar sem mestre. E de Adeodato, que na terra difundiu o Esperanto, o seu ideário progressista, a sua beneficência (…) não colhi mais (e tanto foi) que a irradiação espiritual e humana.”

Entrevistado no Museu Municipal de Aljustrel, em 19-11-2005, José Soares, membro da APEB, Associação Portuguesa de Emigrantes na Bélgica, assegurou: “Em relação ao Adeodato, ele marcou profundamente a vila de Aljustrel. O encorajamento de Francisco Rasquinho, Edmundo Silva… que se revelam anti-ditadura. Era um democrata profundo. A luta foi inspirada no exemplo do Adeodato. Verdadeiramente, as pessoas saíram do nível cultural que havia. Quando o Adeodato propôs a fundação do jornal “Círculo” e lhe perguntaram: “Quem vai escrever?” e ele respondeu “Somos nós todos!”
O Brito Camacho era quem dominava culturalmente. O Adeodato Barreto influenciou a vontade de ir mais longe…Este amor pela literatura que transmiti aos meus filhos, provavelmente eu recebi dessa gente!...”

Francisco da Palma Colaço, presidente da Junta de Freguesia de Aljustrel, abordado na mesma ocasião, declarou: “Fui marcado pela presença de Adeodato, quando ao entrar na casa de um primo - eu comecei a frequentar a casa muito novo - vi pela primeira vez um retrato, em que o Adeodato está com um turbante. Chamou-me sempre a atenção aquela fotografia, uma ampliação que o meu primo tinha na sala de jantar. E eu pensei inicialmente se seria alguém da família. Mas suscitava algum mistério, por causa do turbante. Depois, pouco a pouco, fui sabendo o significado da fotografia, da personagem. Para as pessoas daqui ele era um Santo Laico. (…) Considero-me devedor da sabedoria que o Adeodato partilhou com a gente desta terra.”

Em conversa posterior, o autarca salientou que os discípulos das aulas de esperanto “foi tudo pessoas que passaram pelas masmorras do Aljube, Caxias, e até um esteve no Tarrafal, o João Gil. Estive a reflectir sobre isso, e é espantosa a influência que ele teve nesta geração, que lutou contra o regime e sofreu as agruras.”

“A convivência com as gentes da terra, na sua qualidade de notário - escreve Olavo Rasquinho - levou-o a integrar-se rapidamente na vida quotidiana. Eram frequentes as tertúlias com os seus novos amigos, como o Edmundo Silva, o Francisco Rasquinho, o João Eugénio, o Salgueiro dos Santos e tantos outros que tiveram o privilégio de com ele conviverem (…) Adeodato tornou-se profundamente solidário com as gentes de Aljustrel. Ministrou um curso gratuito de Esperanto no Clube Aljustrelense, que foi a origem de um fluorescente movimento esperantista que se traduziu numa intensa troca de correspondência e de revistas entre Portugal e os mais diversos países.”

Notário na vila mineira, no início da década de 30 do século passado, Adeodato cativou a população operária da mina e a juventude, pelo seu altruísmo, nomeadamente na alfabetização dos homens toupeiras, na edição do jornal “Círculo”, na participação associativa, na ajuda aos pobres, criando uma sopa para os desvalidos em tempo de recessão e fome e na difusão do esperanto entre os mais novos. Adeodato, considerava o esperanto “um instrumento vital para a unificação espiritual dos povos, que tem sido através da História o sonho de tantas almas generosas: unidade pela concórdia, e não pela absorção.”

No ensaio “Sobre a Mística em Política”, Adeodato escreve: “A política corporiza a expressão das mais profundas tendências altruístas da personalidade. É nela que o homem mais totalmente se dá aos outros e se esquece de si. (…) A verdadeira política deve dirigir-se às almas e não a algarismos. (…) A política sem alma, política que seja apenas uma técnica, cria a impassibilidade e a desolação à sua volta. (…) O povo só pode ser idealista pelo sentimento. É necessário que a alma revolucionária acorde nele para fazer dele outro homem. Uma política de simples inteligência o “geito frio, geométrico, sem alma” somente conseguirão fazer dele um tirano cheio de apetites ou um escravo submisso e resignado…”

Em “Civilização Hindu”, o filósofo diz que “Enquanto se não generalizar pela educação a ideia de que o verdadeiro progresso é a aquisição do predomínio da vontade esclarecida e do equilíbrio da Razão, não há solução possível para os angustiosos problemas modernos. (…) As diferenças são matizes que embelezam e enriquecem a existência social. A uniformização é a monotonia, a morte. (…) É necessário que nos habituemos a ver mais o que nos aproxima do que o que nos separa do nosso semelhante.”

Por ter apresentado ideias avançadas para o seu tempo, Adeodato foi perseguido, porque tudo o que parecia diferente do estabelecido era considerado comunista.

MORTE E SEMENTE

Adeodato faleceu em Coimbra, no sanatório dos Covões, a 6 de Agosto de 1937, com 32 anos, da mesma doença que vitimara Júlio Dinis, Cesário Verde e António Nobre - a tuberculose, cujo tratamento para a sua cura seria implementado quinze anos depois, na sequência da descoberta da estreptomicina.

Os mineiros de Aljustrel e os amigos reuniram economias para auxiliar a viúva e os órfãos. A notícia foi dada na Holanda e noutros sítios do planeta, por via da rede esperantista. O jornal “República” do dia seguinte escreveu que ele era “uma das inteligências mais fulgurantes da sua geração” e que “deixa um amigo em cada conhecido”.

A sua obra - póstuma - encontra-se reunida no volume “O Livro da Vida”, que a família e a Hugin reeditaram em 2000, e cujo lançamento ocorreu perante o auditório da Rádio Difusão Portuguesa, em Lisboa, repleto.

Kalidás Barreto, fundador e ex-dirigente da CGTP-IN e deputado da Constituinte, é filho deste homem fascinante, modelo de tolerância e humanismo, de encontro feliz com o Outro, que estabeleceu, pela inteligência e sensibilidade, uma ponte cultural entre a Índia e Portugal. São dele estas palavras, proferidas durante a evocação do centenário do nascimento de seu pai, que a Casa de Goa realizou em 18 de Novembro de 2005:

“Despertou a juventude de Goa, Coimbra e Aljustrel. Desconhecido, ignorado ao longo de meio século. Cantor da Índia mística. Adeodato Barreto é o cantor de língua portuguesa de conciliação entre o Oriente e o Ocidente.”

Sindicalista e associativista, Kalidás envolveu - se em causas sociais nobres, lutando por uma terra mais justa. O que lhe valeu, a exemplo do que sucedeu com o pai, a perseguição da Polícia Política de Salazar.

Em 1 de Dezembro de 1974, segundo testemunho de Francisco Colaço, foi descerrada em Aljustrel uma placa toponímica, na inauguração da rua com o nome de Adeodato Barreto, tendo proferido um discurso, o velho amigo do homenageado, Edmundo Silva. Ainda hoje, em Aljustrel, há quem se considere devedor dos ensinamentos daquele cidadão do Mundo, indiano de Margão, que em todo o lado, mas principalmente na vila mineira do Baixo Alentejo irradiou a luminosidade de um carácter que se destacou pela cultura humanista e pela partilha.

Nos artigos divulgados pela imprensa, nos opúsculos editados, na poesia difundida, o pensamento e a sensibilidade humanista de Adeodato Barreto constituem um legado impressionante. Pela sua obra perpassam valores como a justiça social, a conduta ética em política, a fraternidade, o amor à terra natal.

A obra deste notável pensador, porém, não se restringe à escrita. A atitude pedagógica, discreta mas interveniente, na fundação de jornais e associações, o seu envolvimento na difusão do esperanto, na alfabetização, no auxílio aos desfavorecidos e na contestação à prepotência, granjearam a admiração de muitos e a perseguição de alguns.

Face ao seu admirável e influente trajecto - tão breve! - Adeodato Barreto permanece como símbolo e expoente da cultura indo-portuguesa do século XX.
Há pessoas que transcendem a vida quotidiana. O caso de Adeodato é modelar. Em pouco mais de três décadas de existência irradiou um fervor e uma sabedoria que deixaram semente.

José Luís Pereira Jorge, no artigo “Adeodato Barreto, esse quase desconhecido”, assegura que: “A sua actividade foi multifacetada, fecunda e apaixonada, à imagem dos grandes homens da Renascença. Foi poeta, jornalista, pedagogo, filósofo, doutrinador, artista e filantropo.”

Para Orlando Costa "Poeta, pedagogo, polemista, mais arauto do que profeta, Adeodato Barreto conjuga a força da inspiração espontânea com o espírito de missão e a defesa inteligente de valores moais da liberdade e tolerância e do humanismo universal. Sinto-o, antes de mais e acima de tudo e simultaneamente como a voz arrebatada e nostálgica de uma identidade desterrada e de uma vitoriosa cidadania sem fronteiras."

Corroborando a antropóloga Sónia Frade, do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, criado no âmbito das actividades da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, “uma obra imensa numa vida tão breve.” É aliás da autoria deste Grupo de Trabalho, a proposta enviada à Comissão de Toponímia de Lisboa, com a qual termino este artigo:

“PROPOSTA*

Considerando que Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento se comemora em 3 de Dezembro de 2005, foi uma figura ímpar na cultura portuguesa, tendo sido poeta, jornalista, pedagogo, filósofo, doutrinador, artista, filantropo;

Considerando que apesar da sua curta existência (32 anos), influenciou sobremaneira o pensamento do seu tempo, exercendo uma carreira exemplar de professor e notário, dirigindo jornais, fundando associações, instituindo cursos de alfabetização e de esperanto;

Considerando que a sua dinamização da língua universal, a par da sua intervenção cívica libertária e pacifista, são atitudes que merecem ser recordadas,

Considerando que este português do Oriente nasceu em Margão, no antigo estado de Goa, deixando no coração dos amigos das diversas terras por onde passou uma marca indelével, havendo ainda quem se defina como discípulo da sua sabedoria;

Temos a honra de propor que seja atribuída a uma rua da cidade de Lisboa o nome de Adeodato Barreto, perpetuando a sua mensagem de partilha de conhecimento e da tolerância entre povos, tão actual e premente no contexto do transnacionalismo dos nossos dias.

Lisboa, 18 de Julho de 2005

*Aprovada em reunião da Direcção da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, e subscrita pelos proponentes”

Luís Filipe Maçarico**

** Membro do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, Antropólogo, poeta

BIBLIOGRAFIA:

LIVROS E ARTIGOS

AMARO, Luís (2005) “Para Lá da Névoa”, edições Caixotim.

BARRETO, Adeodato (1934) “Sobre a Mística em Política”, Aljustrel, Setembro, 14 pp. dactilografadas.

BARRETO, Adeodato (2000) “O Livro da Vida”, Hugin, Lisboa.

COSTA, Orlando (2000) “Indianidade, Solidariedade, Liberdade”, in “O Livro da Vida”.

FONSECA, Maria Inês Pinto (2004) “Levávamos Logo a Foice P’ra Mina” Identidades e Memórias dos Mineiros de Aljustrel, Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, tese de doutoramento.

JORGE, José Luís Pereira (1996) “Adeodato Barreto, Esse Quase Desconhecido”, in “Lucerna”, Leiria, Boletim da Associação dos Antigos Alunos da Escola Domingos Sequeira, nº 18.

MIRANDA, Lúcio de (1940) “Adeodato Barreto (Ensaio Biográfico e Crítico)”, Bastorá, Tipografia Rangel.

RASQUINHO, Francisco (1976) “Filhos de Aljustrel”, edição de autor, Lisboa.

FONTES ORAIS

Conversas com Francisco Colaço, Kalidás Barreto, José Soares e Olavo Rasquinho.

JORNAIS

"Círculo”, Todos os números (7), de 18-6-1934 a 26-8-1934.

“República”, 7 de Agosto de 1937.

WEBGRAFIA

http://aaldraba.blogspot.com

http://ciberduvidas.sapo.pt/antologia/souza.html

http://www.rtp.pt/index.php?article=208388&visual=16

http://www.goacom.com/casa-de-goa/boletimSetOut2003.html

Fotografias:
Adeodato Barreto (gentilmente cedida por Kalidás Barreto)
Tagore (recolhida na Net)
Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel(LFM)
Olavo Rasquinho, filho de um discípulo de Adeodato, junto à fotografia de seu avô no Museu Municipal de Aljustrel(LFM)

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Três Poemas de Adeodato Barreto


Completam-se 100 anos dia 3 de Dezembro, que nasceu em Goa (Margão) um homem notável, que foi pedagogo, notário e poeta: Adeodato Barreto.
São dele os 3 poemas que a seguir se partilham, e para a sua memória a rosa da Gardunha, rosa do Mundo, com que celebro a existência deste expoente da cultura luso-indiana.

AS AZINHEIRAS

São como eu aquelas azinheiras
do montado...

Como o verão alegre põe doçuras
e sorrisos no côncavo estrelado,
aprestam, em sorrisos, seu toucado
e vão erguendo ao céu os galhos novos.

Mas sob o verde-claro dos renovos
o negro da tristeza
se lhes adensa, em rama, tristemente
nos abrigos;

e quem as vê por dentro já pressente
o inverno que ameaça a Natureza:
-igual ao que se adensa na minha alma,
igual ao que não vêem meus amigos...

Aljustrel, 28 de Agosto de 1935.

in "Livro da Vida" (incluído na compilação póstuma da Obra completa, p.315)

ROMAGEM INÚTIL

Porque buscas o Bem, santo romeiro,
em longínquos países, sempre a andar?
Antes que partas, busca-o, primeiro,
(Talvez o encontres...) no teu próprio lar...

in "O Livro da Vida" (p.339 da edição póstuma de toda a obra, Hugin,2000)

A PENEIRA

Aquele pobre insensato
que despreza o Permanente,
por um prazer aparente
só por ser imediato:

Lembra a peneira doidinha,
tão doida quanto fininha,
que, conservando o farelo,
deixa fugir a farinha...

Idem, p. 338.

(Fotografia de LFM: Rosa da Gardunha)

FUERZABRUTA





É espantoso. Não se trata de um filme, mas de uma intervenção teatral, estilo performance, que nos obriga a percorrer um espaço enorme, quer atrás dos actores, tentando acompanhar as cenas alucinantes, quer fugindo dos cenários e de uma perturbação que alastra nos gestos, no som, nos cenários...
"Fuerza Bruta" veio da Argentina e visa mexer connosco acerca do quotidiano de absurdos, stress e alienação.
Os actores têm um desempenho fantástico, de grande entrega corporal e emocional.
Acontece mais uns dias ali ao pé da doca de alcântara, no toyotabox. E sempre vos digo que é imperdível.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A SIDA continua a matar




















Seis mil pessoas morreram de Sida em Portugal, ouvi dizer na rádio.

Li há tempos que muitas prostitutas têm relações sexuais sem preservativo, porque os clientes assim o exigem.

Estas imagens são demasiado fortes para falar deste assunto, sem demais comentários.

E são um pretexto para conhecerem um outro blogue que descobri, enquanto navegava neste mar virtual. Descubram também:

http://dozedetalhes.blogspot.com/

Escrito entre Tozeur e Tunis


Ficaste na obscuridade
dos lugares onde a poeira
se entranha na língua
e não há palavras
que me devolvam a tarde
onde eu era um sorriso
e tu, a nascente.
É de lama, o dia. As águas
caíram como uma revolta
no país do sonho. As lágrimas
guardo-as para quando acordar..."

Escrito em 24-X-1995, durante a viagem Tozeur-Tunis.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Para a Ana, com Muito A(HU)MOR


Passámos muitas noites a rir, porque gostamos até ao desvairo, de nos "mijar" a rir dos espertalhaços bimbóides, das excelências, dos cromos, dos palhaços que andam por aí, fora dos cartazes circenses, na grande arena da vida. Os dogmáticos, os frustrados, os moralistas, os e as malfodidas, os que noutra incarnação devem ter sido da família dos Borgia, os dótores, os pirosos. Passámos muitas noites a rir, dizia. Desde o final dos anos setenta.
Tanto rimos, que num dos casos o cabelo ficou como no faduncho do cacilheiro, e noutro, só de peruca é que a careca se disfarça. Não perdemos essa capacidade e até rimos de nós, o que as vestais e os eruditos do humor, desse humor de museu de múmias podres, empaturradas de caldo rançoso e cicuta, aposto, não são capazes de conseguir.
Passámos tantas noites a rir, que agora basta olharmos um para o outro para desatar o riso. Torcemo-nos de riso quando nos aparecem os cultos sacerdotes do humor. Ou uma palavra, uma imagem que descobrimos para nos fazer cócegas e um riso que deve escandalizar os que não acham graça ao riso dos outros, mas riem-se quando os outros nos agridem, com humores de peido que não sabe se deve ser punhal ou punheta de bacalhau.
Sabes Ana, quem sabe de nós o suficiente para se atrever a rotular-nos de forma fascistóide, fazendo-nos o retrato tipo que agradaria a Hitler ao enviar judeus para o crematório?
Quem nos pode julgar pelos silêncios ou pelos risos (e também pelas lágrimas, porque somos humanos e também temos dias assim), não é querida?
Ainda bem que às vezes aparece um incauto chicoesperto, tipo guarda nocturno, fiscal das finanças, que nos inspira, para podermos dar largas ao nosso a(Hu)mor, ao nosso riso desatado, que, incomode quem incomodar, é o nosso e nos sabe como carícia de alma, num tempo de macambúzios e pequenos déspotas frustrados, para os quais humor é foder a cabeça aos outros e regorgitar de prazer pelos estilhaços.
Sejamos politicamente incorrectos num blogue que não obedece a partidos nem a condotieri, como o nosso "69."
E que vá para o caralho quem não tiver tomates para suportar este humor que também me pertence como a pele.
(foto de LFM)

terça-feira, novembro 29, 2005

TRAGÉDIA GREGA COM COIRO




EL CAUDILHO-se calar é ser cobarde/e opinar é mau humor...
LOS PORKITOS- humor mau, mau, mau
EL CAUDILHO-o que será rezingar/e destilar fel e bolor?
EL TRAUMA-No me hables desa manera/que soy hermano amigo
LOS PORKITOS-amigo hermano hermano hermano
EL TRAUMA-No me hables que me paso/e me mordo en el umbigo.
(o responsável deste blog não se responsabiliza pelo diálogo destes manequins, evadidos do Museu Etnográfico da Liga dos Amigos de Alpedrinha.)
Os ditos cujos apoderaram-se deste espaço, reinvindicando um lugar que lhes está destinado noutro blog...
Caso desejem rir, queiram dirigir-se a:

segunda-feira, novembro 28, 2005

Pré-Apresentação em Alpedrinha da obra "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas-Um Contributo Para o Seu Estudo"




Realizou-se no passado dia 26 de Novembro, numa iniciativa conjunta da Liga dos Amigos de Alpedrinha, da Junta de freguesia de Alpedrinha e da Fábrica da Igreja local, o VII Encontro de Poetas de Alpedrinha, no Salão Paroquial.

A primeira parte deste evento foi preenchida com a pré-apresentação do livro “Memórias do Contrabando em Santana de Cambas - Um Contributo para o Seu Estudo”, da autoria de Luís Filipe Maçarico. A edição é da Junta de Freguesia de Santana de Cambas, cujo presidente José Rodrigues Simão esteve presente. A obra foi apresentada por José Alberto Franco e pelo autor, com a participação de Rosa Dias, que disse um poema seu, escrito expressamente para este livro.

Francisco Miguel Barata Roxo, presidente da autarquia local, deu as boas vindas a todos, realçando a qualidade que estes encontros culturais têm apresentado e destacou a qualidade do livro que iria ser divulgado.
José Alberto Franco elogiou as vistas largas do autarca do concelho de Mértola, por se ter abalançado num projecto que é raro as Câmaras desenvolverem, quanto mais as juntas e reforçou a ideia destas iniciativas fazerem falta para nos conhecermos melhor.
José Rodrigues Simão, autarca de Santana de Cambas, agradeceu a hospitalidade beirã e sublinhou a necessidade de serem recolhidos depoimentos dos indivíduos da zona da raia, ainda vivos, que tiveram de fazer contrabando para sobreviver. Referiu ainda que a Junta de Freguesia a que preside concretizou dois objectivos de um projecto, que envolve a criação de um Museu do Contrabando, nomeadamente, um concurso de pintura sobre o contrabando e a edição do livro, cujo lançamento vai ocorrer no próximo dia 17 de Dezembro, pelas 15h30m no novo edifício da Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Para esta iniciativa está já convidado o presidente da Junta de freguesia de Alpedrinha.

Luís Maçarico iniciou a sua intervenção declarando que “Há muito desejava partilhar com Alpedrinha este olhar que procura saber mais acerca de quem somos, das raízes, dos comportamentos, dos costumes, das tradições.”
No remate da sua alocução, o antropólogo sublinhou, a propósito do presente trabalho: “Tantas vidas, tanto sofrimento. E tudo para ter direito a respirar, sonhar, existir, sobreviver. Para alimentar e criar filhos, famílias, salvaguardando o património maior que são as pessoas, teimando em manter a identidade da fala e as artes da vida.”
A sessão teve ainda intervenções musicais, a cargo do professor Carlos Ventura e do jovem músico Walter, de Monsaraz. O evento terminou com a actuação dos poetas convidados para este sétimo encontro: Padre Manuel Igreja, Alice Peixeiro, Francisco Amaro, Luís Maçarico e Rosa Dias.
Durante a parte poética, L.M. leu dois poemas do luso-goês Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento ocorre no próximo dia 3 de Dezembro. Foi também lida uma mensagem e dois poemas de Paula Lucas, poetisa alpetriniense, impedida de participar, por motivos de saúde.
Estes encontros têm já um interessante historial, pois realizaram-se 7 estimulantes convívios, 2 dos quais internacionais.
Participaram ao longo deste 9 anos, 24 poetas, sendo 8 deles das Beiras, 6 do Alentejo, 5 de Espanha e 5 de Lisboa, além de 2 declamadoras da capital e uma da Beira Alta.
(fotografias de Monia Roxo)

sexta-feira, novembro 25, 2005

VII ENCONTRO DE POETAS EM ALPEDRINHA


Realiza-se no próximo dia 26 de Novembro numa iniciativa conjunta da Liga dos Amigos de Alpedrinha e da Junta de freguesia de Alpedrinha, o VII Encontro de Poetas de Alpedrinha, que decorrerá a partir das 21h no Salão Paroquial. A primeira parte deste evento será preenchida com a pré-apresentação do livro “Memória do Contrabando em Santana de Cambas - Um Contributo para o Seu Estudo”, da autoria de Luís Filipe Maçarico. A edição é da Câmara Municipal de Mértola e da Junta de Freguesia de Santana de Cambas, cujo presidente José Rodrigues Simão estará presente. A obra será apresentada por José Alberto Franco e pelo autor, com a participação de Rosa Dias, que declamará um poema que escreveu expressamente para este livro, acerca do tema.
A sessão, que terá intervenções musicais a cargo dos professores Carlos Ventura e Monia Roxo, prosseguirá com a intervenção dos poetas convidados para este sétimo encontro: Padre Manuel Igreja, Alice Peixeiro, Francisco Amaro, Luís Maçarico, Rosa Dias - todos repetentes - e Luís Jordão, estreante nestas lides, ex-autarca de Mourão, ex-presidente da Casa do Alentejo, director do “Almanaque Alentejano”.

Estes encontros têm já um historial apreciável, pois realizaram-se já 6 belos convívios, 2 dos quais internacionais, tendo participado ao longo deste 9 anos 8 poetas da Beira - Baixa, 6 do Alentejo, 5 de Espanha e 5 de Lisboa, além de 2 declamadoras da capital e 1 de Carregal do Sal.

Recapitulando, o 1ºEncontro realizou-se no Salão Paroquial em Março de 1997 e nele estiveram presentes os poetas alpetrinienses Braz Ribeiro, Elsa Chambel, Padre Manuel Igreja. Os poemas de Elsa, que tinha ganho a mais recente edição dos Jogos Florais de Alpedrinha foram na ocasião lidos pela pintora Mena Brito. Participaram ainda Jorge Rua de Carvalho e a declamadora Lucília Lucas, que apresentou o livro "O Sabor da Cal" de Luís Maçarico.

No 2º Encontro realizado a 3 de Julho de 1999 no Palácio do Picadeiro e além dos poetas residentes e de Luís Maçarico, intervieram António Figueira, Conceição Baleizão, Luís Graça e os espanhóis Fernando Diaz e Raul Vacas. A declamadora Esmeralda Veloso esteve igualmente presente neste encontro.

O 3º Encontro decorreu no Chafariz D. João V a 1 de Julho de 2000 e além de Maçarico e dos alpetrinienses, compareceram os poetas Cristina Pombinho e Pedro Albuquerque, bem como os espanhóis Joan Gonper, Fernando Gutiérrez e Juan Garochi.

O 4º Encontro aconteceu na Capela do Espírito Santo a 14 de Julho de 2001 e teve as participações dos poetas alpetrinienses a que se juntou Alice Peixeiro, e além de Luís Maçarico estiveram ainda Belmira Besuga, Francisco Amaro, os prémios de revelação da Associação Portuguesa de Escritores, Nicolau Saião e Ruy Ventura e Rosa Dias.

O V Encontro decorreu na Capela do Leão, em 14 de Novembro de 2003, com os poetas Jorge Rua de Carvalho, João Coelho, Luís Maçarico, Maria José Lascas Fernandes e Rosa Dias, além dos beirões Francisco Amaro, Alice Peixeiro, Elsa Chambel e Braz Ribeiro.
Durante este Encontro foi apresentado por Luís Maçarico o livro de poemas de João Coelho “Sementes de Verdade”

O VI Encontro, ocorreu em 27 de Novembro de 2004, no Salão Paroquial, com a presença dos poetas Cristina Pombinho, Margarida Alves, Conceição Baleizão, Rosa Dias e Luís Maçarico, que apresentou o seu último livro de poemas - “Caligrafia do Silêncio”, participando ainda neste evento a designer desta obra, Marta Barata.
Alice Peixeiro, Braz Ribeiro e Paula Lucas (cujos poemas foram lidos por Luís Maçarico e Cristina Pombinho) partilharam igualmente textos de sua autoria.

É justo sublinhar que estes encontros, sem o entusiasmo de Francisco Miguel Barata Roxo, o autarca de Alpedrinha, talvez nunca tivessem sido uma realidade de prestígio, que é lembrada por todos os que já participaram, enquanto protagonistas ou como ouvintes.
(fotografia de LFM)

sábado, novembro 19, 2005

Associados da Aldraba Reunem Com Autarcas de Aljustrel para Preparar Centenário do Nascimento de Adeodato Barreto






Durante a manhã de sábado 19 de Novembro, além da visita ao Museu de Aljustrel, dirigentes da Aldraba-Associação do Espaço e Património Popular, acompanhados por membros do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, reuniram com o presidente da Junta de Freguesia de Aljustrel.
Foram apresentadas várias perguntas e sugestões, com o objectivo de se concretizar uma evocação do goês de Margão, nascido há cem anos, no dia 3 de Dezembro, que exerceu o notariado na vila mineira no início da década de 30 do século passado, cativando a população operária da mina e a juventude, pelo seu altruísmo, nomeadamente na alfabetização dos homens toupeiras, na difusão do esperanto entre os mais novos, na edição de um jornal -"Círculo"- na participação associativa e na ajuda aos pobres, criando uma sopa para os desvalidos, em tempo de fome.
Poeta, pedagogo, por ter ideias avançadas para o seu tempo, foi perseguido, porque tudo o que era diferente do estabelecido era considerado comunista.
Em 8 anos, na década de 20 Adeodato completou 3 cursos superiores na Universidade de Coimbra.Correspondendo-se com Tagore e Romain Rolland, Adeodato funda com o aplauso destes, um Instituto de Cultura Indiana e preside ao Grémio Republicano proferindo conferências.
A sua obra póstuma encontra-se reunida no volume "O Livro da Vida".
Corroborando a antropóloga Sónia Frade, em tão pouco tempo fez tanto!
Kalidás Barreto, ex-sindicalista e deputado da Constituinte, é filho deste homem e a Aldraba vai em breve promover um jantar em local a indicar, para evocar a personalidade fascinante que é Adeodato Barreto, modelo de tolerância e humanismo, de encontro feliz com o Outro, estabeleceu, pela inteligência e sensibilidade, uma ponte cultural entre Oriente e Ocidente, que nestes dias de incomunicabilidade vale a pena conhecer melhor.
A Aldraba quer dar o seu contributo no sentido de difundir por mais pessoas a memória deste luso-goês exemplar...
Com autarcas, professores e descendentes dos discípulos de Adeodato.
De referir que este grupo visitou ainda Ervidel integrando-se nas festividades da VIN&CULTURA, desfrutando de vários momentos de cante, petiscos e provas do néctar dos deuses, no belo ritual pagão de celebrar Baco, entre amigos, no aconchego das adegas e das conversas.
(fotos de Luís Maçarico e Luís Ferreira)

sexta-feira, novembro 18, 2005

"Aldraba"- Os Primeiros Seis Meses de Um Projecto Partilhado em Torno do Espaço e do Património Popular*





Tendo nascido em 25 de Abril deste ano, no Ateneu Comercial de Lisboa, com a adesão de oitenta cidadãos, a Aldraba é um espaço de convívio e reflexão que tem como objectivo maior a salvaguarda de tudo o que concerne ao espaço e ao património popular, a um artefacto ou à memória do saber fazer.

Nesse sentido, em Junho, estivemos no catálogo do stand do Instituto de Formação Profissional, na FIL Artesanato, com um belíssimo artigo sobre cataventos, da autoria do meteorologista e vice-presidente da direcção, Dr. José Manuel Prista.

No início de Julho, sob o sol tórrido do Alentejo, cinquenta associados e amigos visitaram e interagiram com a realidade sócio-territorial de duas aldeias do Alqueva: aldeia da Luz e aldeia da Estrela.
Confraternizámos com a população da Estrela, que aproveitou a nossa abordagem para apresentar algumas opiniões acerca desta realidade.

No final desse mês, o presidente da Mesa da Assembleia-Geral representou-nos no júri do concurso de pintura sobre o contrabando, em Santana de Cambas, concretizando uma parceria com a autarquia local.

No começo do Outono, apresentámos em Alvaiázere, durante o III Festival do Chícharo, a exposição “Objectos do Quotidiano que Passam Despercebidos”, na sequência de uma primeira exibição em Abril, no Museu República e Resistência - Espaço Grandella, intitulada “Do Espaço à Vivência - Olhar sobre o Património Invisível”, em que eram abordados aldrabas, batentes e cataventos, em suporte fotográfico e multimédia.

No mesmo espaço esteve ainda patente outra exposição, em Outubro, “Momentos de Rua nos Pátios de Lisboa”, através da qual se homenageou Jorge Rua de Carvalho, um lisboeta, homem do fado operário, marceneiro reformado, poeta, associativista, actor amador, fundador da Aldraba, cujos bonecos (mais de 200) expostos evocam as brincadeiras de infância dos anos 20/30 e os pregões da cidade.

A par desta actividade visível, foram já alguns passos na criação de um site na Internet e desde Fevereiro é mantido um blog, que ao longo de uma centena de artigos, obteve, 51% de opiniões de não associados.

Dois grupos de trabalho foram entretanto criados, um para produzir um documentário sobre Jorge Rua de Carvalho e a sua obra e outro, com o estímulo de uma parceria com a Junta de Freguesia de Aljustrel, para homenagear o pedagogo e poeta Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento ocorre no dia 3 de Dezembro.

Este símbolo e expoente da cultura indo-portuguesa, fundou jornais, difundiu o esperanto, auxiliou os desfavorecidos, alfabetizou mineiros e contestou a prepotência, defendendo a conduta ética em política e a justiça social, num tempo em que exercer cidadania tinha conotações subversivas.

Temos trabalhado em colaboração com Kalidás Barreto, filho de Adeodato, e pensamos poder realizar, na primeira metade do próximo ano, uma iniciativa de interacção com a comunidade aljustrelense.

Em seis meses de existência, desenvolvemos um trabalho de sensibilização para um leque diversificado de valores e regiões, do qual nos orgulhamos, prosseguindo agora com este colóquio, que acrescenta a reflexão de cientistas sociais com possibilidade de influenciar alguns centros decisórios, cuja presença agradeço em nome da organização.

Antes de dar a palavra ao painel de convidados, gostaria de deixar um desafio aos anfitriões que nos acolhem neste simpático e emblemático local da cidade - os banhos de São Paulo.
A elegância do design e a simbologia da mão talismânica, difundida ao longo de séculos nas práticas mágico - religiosas dos povos da bacia mediterrânica, presente numa parte substancial de batentes e aldrabas, será que não merece a protecção pelo menos nos centros históricos?
Cabe-vos passar a mensagem aos autarcas e aos estudantes de artes, para redescobrirem nas práticas quotidianas o valor patrimonial destes elementos, concedendo-lhes um novo desempenho na nossa vivência identitária.

*Palavras proferidas pelo presidente da direcção da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, na abertura do IV Encontro/Colóquio da Aldraba, subordinado à temática das "Aldeias da Água do Alqueva", na Ordem dos Arquitectos, em Lisboa, pelas 18h 45m do dia 17 Novembro de 2005
(fotos de Vanda Oliveira)