"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, dezembro 03, 2005

Adeodato Barreto - Um Génio Esquecido






INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA EM GOA E TRÊS CURSOS SUPERIORES EM COIMBRA

Júlio Adeodato Barreto nasceu em Margão, no contexto do antigo espaço colonial português na Índia, no dia 3 de Dezembro de 1905, dia de S. Francisco Xavier.

Referindo-se ao pai de Adeodato, Lúcio de Miranda afirma que era um erudito, poliglota e melómano, o que provavelmente terá influenciado o filho nas suas tendências intelectuais, manifestadas desde a escola primária.

Tímido, passou despercebido dos professores, tendo redigido os primeiros versos e o primeiro jornal, manuscrito e ilustrado com desenhos a pena, aos doze anos. Após o Liceu Municipal de Margão, os estudos prosseguiram em Pangim.

Em 1923, com 17 anos, Adeodato saiu de Goa, para se matricular na Universidade de Coimbra onde, durante oito anos, completou três cursos superiores, fundou com o apoio de alguns professores da Faculdade de Letras um Instituto Indiano, dirigiu o periódico “Índia Nova”( publicado entre Maio de 1928 e Maio de 1929), desenhando e executando xilogravuras destinadas a ilustrar os artigos, prestando auxílio a desprotegidos e presidindo ainda ao Centro Republicano Académico, onde proferiu conferências. Romain Rolland e Tagore incentivaram-no e aplaudiram-no na criação do Instituto Indiano e das suas ideias pacifistas, que se identificavam com a postura de Ghandi.

Apesar de formado em Direito (1928) e Ciências Histórico - Filosóficas (1929), o diploma obtido na Escola Normal Superior permitiu-lhe leccionar durante algum tempo. Adeodato Barreto tornou-se assim professor na Figueira da Foz, na Escola Industrial Bernardino Machado, conciliando o ensino com a colaboração em jornais e revistas (“Voz da Justiça”, “O Diabo” e “Seara Nova”).

Foi contudo na área das leis que o seu desempenho profissional se especializou, primeiro em Montemor-o-Novo, enquanto escrivão de direito, (onde nasceu o seu filho Kalidás), depois em Aljustrel, exercendo o notariado. Ao mesmo tempo, as suas preocupações humanitárias e pedagógicas aprofundaram o carácter altruísta, num permanente exercício de cidadania. Lúcio de Miranda alude à promoção de conferências, à fundação de uma Liga Pró - Instrução e à instalação de um curso gratuito para ensino de analfabetos adultos na cidade de Curvo Semedo.

EM ALJUSTREL, DESPERTANDO CONSCIÊNCIAS

Na sua obra “Filhos de Aljustrel”, p.67, Francisco Rasquinho assinalou: “Veio de longe Adeodato Barreto, dos confins do mundo e teve Aljustrel a ventura de ter sido alvo dessa estrela cadente que aqui se repartiu em fulgurantes cintilações influenciando caracteres e despertando consciências.”

Luís Amaro, no livro “Para Lá da Névoa”, 2005, p.23, revelou: “Aprovado no exame primário, empreguei-me no referido escritório do Dr. Adeodato Barreto (1905-1937-vida breve!), o primeiro escritor, de facto, com quem me foi dado privar, autor duma Civilização Hindu (Seara Nova, 1935) sobre cujas provas me lembro de o ver, e ultimamente reeditada com estudos introdutórios de Orlando Costa, Elsa Rodrigues dos Santos e Teotónio R. de Souza. O Círculo, semanário local que fundou e seria em breve proibido, foi um dos meus fascínios, antes de conhecer-lhe o director, alta figura de indiano, que se formara em Direito na Lusa Atenas, onde ia jurar, conheceu os presencistas (muito posteriormente, Gaspar Simões incluiu-o na poética série antológica que, anónima, organizou para o suplemento “Domingo” d’O Primeiro de Janeiro). Mas os interesses do Dr. Barreto (…) convergiram noutro sentido - O Diabo, a Seara Nova que lhe editou a obra magna…No cartório, aprendi tão-só, porém, a dactilografar sem mestre. E de Adeodato, que na terra difundiu o Esperanto, o seu ideário progressista, a sua beneficência (…) não colhi mais (e tanto foi) que a irradiação espiritual e humana.”

Entrevistado no Museu Municipal de Aljustrel, em 19-11-2005, José Soares, membro da APEB, Associação Portuguesa de Emigrantes na Bélgica, assegurou: “Em relação ao Adeodato, ele marcou profundamente a vila de Aljustrel. O encorajamento de Francisco Rasquinho, Edmundo Silva… que se revelam anti-ditadura. Era um democrata profundo. A luta foi inspirada no exemplo do Adeodato. Verdadeiramente, as pessoas saíram do nível cultural que havia. Quando o Adeodato propôs a fundação do jornal “Círculo” e lhe perguntaram: “Quem vai escrever?” e ele respondeu “Somos nós todos!”
O Brito Camacho era quem dominava culturalmente. O Adeodato Barreto influenciou a vontade de ir mais longe…Este amor pela literatura que transmiti aos meus filhos, provavelmente eu recebi dessa gente!...”

Francisco da Palma Colaço, presidente da Junta de Freguesia de Aljustrel, abordado na mesma ocasião, declarou: “Fui marcado pela presença de Adeodato, quando ao entrar na casa de um primo - eu comecei a frequentar a casa muito novo - vi pela primeira vez um retrato, em que o Adeodato está com um turbante. Chamou-me sempre a atenção aquela fotografia, uma ampliação que o meu primo tinha na sala de jantar. E eu pensei inicialmente se seria alguém da família. Mas suscitava algum mistério, por causa do turbante. Depois, pouco a pouco, fui sabendo o significado da fotografia, da personagem. Para as pessoas daqui ele era um Santo Laico. (…) Considero-me devedor da sabedoria que o Adeodato partilhou com a gente desta terra.”

Em conversa posterior, o autarca salientou que os discípulos das aulas de esperanto “foi tudo pessoas que passaram pelas masmorras do Aljube, Caxias, e até um esteve no Tarrafal, o João Gil. Estive a reflectir sobre isso, e é espantosa a influência que ele teve nesta geração, que lutou contra o regime e sofreu as agruras.”

“A convivência com as gentes da terra, na sua qualidade de notário - escreve Olavo Rasquinho - levou-o a integrar-se rapidamente na vida quotidiana. Eram frequentes as tertúlias com os seus novos amigos, como o Edmundo Silva, o Francisco Rasquinho, o João Eugénio, o Salgueiro dos Santos e tantos outros que tiveram o privilégio de com ele conviverem (…) Adeodato tornou-se profundamente solidário com as gentes de Aljustrel. Ministrou um curso gratuito de Esperanto no Clube Aljustrelense, que foi a origem de um fluorescente movimento esperantista que se traduziu numa intensa troca de correspondência e de revistas entre Portugal e os mais diversos países.”

Notário na vila mineira, no início da década de 30 do século passado, Adeodato cativou a população operária da mina e a juventude, pelo seu altruísmo, nomeadamente na alfabetização dos homens toupeiras, na edição do jornal “Círculo”, na participação associativa, na ajuda aos pobres, criando uma sopa para os desvalidos em tempo de recessão e fome e na difusão do esperanto entre os mais novos. Adeodato, considerava o esperanto “um instrumento vital para a unificação espiritual dos povos, que tem sido através da História o sonho de tantas almas generosas: unidade pela concórdia, e não pela absorção.”

No ensaio “Sobre a Mística em Política”, Adeodato escreve: “A política corporiza a expressão das mais profundas tendências altruístas da personalidade. É nela que o homem mais totalmente se dá aos outros e se esquece de si. (…) A verdadeira política deve dirigir-se às almas e não a algarismos. (…) A política sem alma, política que seja apenas uma técnica, cria a impassibilidade e a desolação à sua volta. (…) O povo só pode ser idealista pelo sentimento. É necessário que a alma revolucionária acorde nele para fazer dele outro homem. Uma política de simples inteligência o “geito frio, geométrico, sem alma” somente conseguirão fazer dele um tirano cheio de apetites ou um escravo submisso e resignado…”

Em “Civilização Hindu”, o filósofo diz que “Enquanto se não generalizar pela educação a ideia de que o verdadeiro progresso é a aquisição do predomínio da vontade esclarecida e do equilíbrio da Razão, não há solução possível para os angustiosos problemas modernos. (…) As diferenças são matizes que embelezam e enriquecem a existência social. A uniformização é a monotonia, a morte. (…) É necessário que nos habituemos a ver mais o que nos aproxima do que o que nos separa do nosso semelhante.”

Por ter apresentado ideias avançadas para o seu tempo, Adeodato foi perseguido, porque tudo o que parecia diferente do estabelecido era considerado comunista.

MORTE E SEMENTE

Adeodato faleceu em Coimbra, no sanatório dos Covões, a 6 de Agosto de 1937, com 32 anos, da mesma doença que vitimara Júlio Dinis, Cesário Verde e António Nobre - a tuberculose, cujo tratamento para a sua cura seria implementado quinze anos depois, na sequência da descoberta da estreptomicina.

Os mineiros de Aljustrel e os amigos reuniram economias para auxiliar a viúva e os órfãos. A notícia foi dada na Holanda e noutros sítios do planeta, por via da rede esperantista. O jornal “República” do dia seguinte escreveu que ele era “uma das inteligências mais fulgurantes da sua geração” e que “deixa um amigo em cada conhecido”.

A sua obra - póstuma - encontra-se reunida no volume “O Livro da Vida”, que a família e a Hugin reeditaram em 2000, e cujo lançamento ocorreu perante o auditório da Rádio Difusão Portuguesa, em Lisboa, repleto.

Kalidás Barreto, fundador e ex-dirigente da CGTP-IN e deputado da Constituinte, é filho deste homem fascinante, modelo de tolerância e humanismo, de encontro feliz com o Outro, que estabeleceu, pela inteligência e sensibilidade, uma ponte cultural entre a Índia e Portugal. São dele estas palavras, proferidas durante a evocação do centenário do nascimento de seu pai, que a Casa de Goa realizou em 18 de Novembro de 2005:

“Despertou a juventude de Goa, Coimbra e Aljustrel. Desconhecido, ignorado ao longo de meio século. Cantor da Índia mística. Adeodato Barreto é o cantor de língua portuguesa de conciliação entre o Oriente e o Ocidente.”

Sindicalista e associativista, Kalidás envolveu - se em causas sociais nobres, lutando por uma terra mais justa. O que lhe valeu, a exemplo do que sucedeu com o pai, a perseguição da Polícia Política de Salazar.

Em 1 de Dezembro de 1974, segundo testemunho de Francisco Colaço, foi descerrada em Aljustrel uma placa toponímica, na inauguração da rua com o nome de Adeodato Barreto, tendo proferido um discurso, o velho amigo do homenageado, Edmundo Silva. Ainda hoje, em Aljustrel, há quem se considere devedor dos ensinamentos daquele cidadão do Mundo, indiano de Margão, que em todo o lado, mas principalmente na vila mineira do Baixo Alentejo irradiou a luminosidade de um carácter que se destacou pela cultura humanista e pela partilha.

Nos artigos divulgados pela imprensa, nos opúsculos editados, na poesia difundida, o pensamento e a sensibilidade humanista de Adeodato Barreto constituem um legado impressionante. Pela sua obra perpassam valores como a justiça social, a conduta ética em política, a fraternidade, o amor à terra natal.

A obra deste notável pensador, porém, não se restringe à escrita. A atitude pedagógica, discreta mas interveniente, na fundação de jornais e associações, o seu envolvimento na difusão do esperanto, na alfabetização, no auxílio aos desfavorecidos e na contestação à prepotência, granjearam a admiração de muitos e a perseguição de alguns.

Face ao seu admirável e influente trajecto - tão breve! - Adeodato Barreto permanece como símbolo e expoente da cultura indo-portuguesa do século XX.
Há pessoas que transcendem a vida quotidiana. O caso de Adeodato é modelar. Em pouco mais de três décadas de existência irradiou um fervor e uma sabedoria que deixaram semente.

José Luís Pereira Jorge, no artigo “Adeodato Barreto, esse quase desconhecido”, assegura que: “A sua actividade foi multifacetada, fecunda e apaixonada, à imagem dos grandes homens da Renascença. Foi poeta, jornalista, pedagogo, filósofo, doutrinador, artista e filantropo.”

Para Orlando Costa "Poeta, pedagogo, polemista, mais arauto do que profeta, Adeodato Barreto conjuga a força da inspiração espontânea com o espírito de missão e a defesa inteligente de valores moais da liberdade e tolerância e do humanismo universal. Sinto-o, antes de mais e acima de tudo e simultaneamente como a voz arrebatada e nostálgica de uma identidade desterrada e de uma vitoriosa cidadania sem fronteiras."

Corroborando a antropóloga Sónia Frade, do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, criado no âmbito das actividades da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, “uma obra imensa numa vida tão breve.” É aliás da autoria deste Grupo de Trabalho, a proposta enviada à Comissão de Toponímia de Lisboa, com a qual termino este artigo:

“PROPOSTA*

Considerando que Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento se comemora em 3 de Dezembro de 2005, foi uma figura ímpar na cultura portuguesa, tendo sido poeta, jornalista, pedagogo, filósofo, doutrinador, artista, filantropo;

Considerando que apesar da sua curta existência (32 anos), influenciou sobremaneira o pensamento do seu tempo, exercendo uma carreira exemplar de professor e notário, dirigindo jornais, fundando associações, instituindo cursos de alfabetização e de esperanto;

Considerando que a sua dinamização da língua universal, a par da sua intervenção cívica libertária e pacifista, são atitudes que merecem ser recordadas,

Considerando que este português do Oriente nasceu em Margão, no antigo estado de Goa, deixando no coração dos amigos das diversas terras por onde passou uma marca indelével, havendo ainda quem se defina como discípulo da sua sabedoria;

Temos a honra de propor que seja atribuída a uma rua da cidade de Lisboa o nome de Adeodato Barreto, perpetuando a sua mensagem de partilha de conhecimento e da tolerância entre povos, tão actual e premente no contexto do transnacionalismo dos nossos dias.

Lisboa, 18 de Julho de 2005

*Aprovada em reunião da Direcção da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, e subscrita pelos proponentes”

Luís Filipe Maçarico**

** Membro do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, Antropólogo, poeta

BIBLIOGRAFIA:

LIVROS E ARTIGOS

AMARO, Luís (2005) “Para Lá da Névoa”, edições Caixotim.

BARRETO, Adeodato (1934) “Sobre a Mística em Política”, Aljustrel, Setembro, 14 pp. dactilografadas.

BARRETO, Adeodato (2000) “O Livro da Vida”, Hugin, Lisboa.

COSTA, Orlando (2000) “Indianidade, Solidariedade, Liberdade”, in “O Livro da Vida”.

FONSECA, Maria Inês Pinto (2004) “Levávamos Logo a Foice P’ra Mina” Identidades e Memórias dos Mineiros de Aljustrel, Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, tese de doutoramento.

JORGE, José Luís Pereira (1996) “Adeodato Barreto, Esse Quase Desconhecido”, in “Lucerna”, Leiria, Boletim da Associação dos Antigos Alunos da Escola Domingos Sequeira, nº 18.

MIRANDA, Lúcio de (1940) “Adeodato Barreto (Ensaio Biográfico e Crítico)”, Bastorá, Tipografia Rangel.

RASQUINHO, Francisco (1976) “Filhos de Aljustrel”, edição de autor, Lisboa.

FONTES ORAIS

Conversas com Francisco Colaço, Kalidás Barreto, José Soares e Olavo Rasquinho.

JORNAIS

"Círculo”, Todos os números (7), de 18-6-1934 a 26-8-1934.

“República”, 7 de Agosto de 1937.

WEBGRAFIA

http://aaldraba.blogspot.com

http://ciberduvidas.sapo.pt/antologia/souza.html

http://www.rtp.pt/index.php?article=208388&visual=16

http://www.goacom.com/casa-de-goa/boletimSetOut2003.html

Fotografias:
Adeodato Barreto (gentilmente cedida por Kalidás Barreto)
Tagore (recolhida na Net)
Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel(LFM)
Olavo Rasquinho, filho de um discípulo de Adeodato, junto à fotografia de seu avô no Museu Municipal de Aljustrel(LFM)

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Três Poemas de Adeodato Barreto


Completam-se 100 anos dia 3 de Dezembro, que nasceu em Goa (Margão) um homem notável, que foi pedagogo, notário e poeta: Adeodato Barreto.
São dele os 3 poemas que a seguir se partilham, e para a sua memória a rosa da Gardunha, rosa do Mundo, com que celebro a existência deste expoente da cultura luso-indiana.

AS AZINHEIRAS

São como eu aquelas azinheiras
do montado...

Como o verão alegre põe doçuras
e sorrisos no côncavo estrelado,
aprestam, em sorrisos, seu toucado
e vão erguendo ao céu os galhos novos.

Mas sob o verde-claro dos renovos
o negro da tristeza
se lhes adensa, em rama, tristemente
nos abrigos;

e quem as vê por dentro já pressente
o inverno que ameaça a Natureza:
-igual ao que se adensa na minha alma,
igual ao que não vêem meus amigos...

Aljustrel, 28 de Agosto de 1935.

in "Livro da Vida" (incluído na compilação póstuma da Obra completa, p.315)

ROMAGEM INÚTIL

Porque buscas o Bem, santo romeiro,
em longínquos países, sempre a andar?
Antes que partas, busca-o, primeiro,
(Talvez o encontres...) no teu próprio lar...

in "O Livro da Vida" (p.339 da edição póstuma de toda a obra, Hugin,2000)

A PENEIRA

Aquele pobre insensato
que despreza o Permanente,
por um prazer aparente
só por ser imediato:

Lembra a peneira doidinha,
tão doida quanto fininha,
que, conservando o farelo,
deixa fugir a farinha...

Idem, p. 338.

(Fotografia de LFM: Rosa da Gardunha)

FUERZABRUTA





É espantoso. Não se trata de um filme, mas de uma intervenção teatral, estilo performance, que nos obriga a percorrer um espaço enorme, quer atrás dos actores, tentando acompanhar as cenas alucinantes, quer fugindo dos cenários e de uma perturbação que alastra nos gestos, no som, nos cenários...
"Fuerza Bruta" veio da Argentina e visa mexer connosco acerca do quotidiano de absurdos, stress e alienação.
Os actores têm um desempenho fantástico, de grande entrega corporal e emocional.
Acontece mais uns dias ali ao pé da doca de alcântara, no toyotabox. E sempre vos digo que é imperdível.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A SIDA continua a matar




















Seis mil pessoas morreram de Sida em Portugal, ouvi dizer na rádio.

Li há tempos que muitas prostitutas têm relações sexuais sem preservativo, porque os clientes assim o exigem.

Estas imagens são demasiado fortes para falar deste assunto, sem demais comentários.

E são um pretexto para conhecerem um outro blogue que descobri, enquanto navegava neste mar virtual. Descubram também:

http://dozedetalhes.blogspot.com/

Escrito entre Tozeur e Tunis


Ficaste na obscuridade
dos lugares onde a poeira
se entranha na língua
e não há palavras
que me devolvam a tarde
onde eu era um sorriso
e tu, a nascente.
É de lama, o dia. As águas
caíram como uma revolta
no país do sonho. As lágrimas
guardo-as para quando acordar..."

Escrito em 24-X-1995, durante a viagem Tozeur-Tunis.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Para a Ana, com Muito A(HU)MOR


Passámos muitas noites a rir, porque gostamos até ao desvairo, de nos "mijar" a rir dos espertalhaços bimbóides, das excelências, dos cromos, dos palhaços que andam por aí, fora dos cartazes circenses, na grande arena da vida. Os dogmáticos, os frustrados, os moralistas, os e as malfodidas, os que noutra incarnação devem ter sido da família dos Borgia, os dótores, os pirosos. Passámos muitas noites a rir, dizia. Desde o final dos anos setenta.
Tanto rimos, que num dos casos o cabelo ficou como no faduncho do cacilheiro, e noutro, só de peruca é que a careca se disfarça. Não perdemos essa capacidade e até rimos de nós, o que as vestais e os eruditos do humor, desse humor de museu de múmias podres, empaturradas de caldo rançoso e cicuta, aposto, não são capazes de conseguir.
Passámos tantas noites a rir, que agora basta olharmos um para o outro para desatar o riso. Torcemo-nos de riso quando nos aparecem os cultos sacerdotes do humor. Ou uma palavra, uma imagem que descobrimos para nos fazer cócegas e um riso que deve escandalizar os que não acham graça ao riso dos outros, mas riem-se quando os outros nos agridem, com humores de peido que não sabe se deve ser punhal ou punheta de bacalhau.
Sabes Ana, quem sabe de nós o suficiente para se atrever a rotular-nos de forma fascistóide, fazendo-nos o retrato tipo que agradaria a Hitler ao enviar judeus para o crematório?
Quem nos pode julgar pelos silêncios ou pelos risos (e também pelas lágrimas, porque somos humanos e também temos dias assim), não é querida?
Ainda bem que às vezes aparece um incauto chicoesperto, tipo guarda nocturno, fiscal das finanças, que nos inspira, para podermos dar largas ao nosso a(Hu)mor, ao nosso riso desatado, que, incomode quem incomodar, é o nosso e nos sabe como carícia de alma, num tempo de macambúzios e pequenos déspotas frustrados, para os quais humor é foder a cabeça aos outros e regorgitar de prazer pelos estilhaços.
Sejamos politicamente incorrectos num blogue que não obedece a partidos nem a condotieri, como o nosso "69."
E que vá para o caralho quem não tiver tomates para suportar este humor que também me pertence como a pele.
(foto de LFM)

terça-feira, novembro 29, 2005

TRAGÉDIA GREGA COM COIRO




EL CAUDILHO-se calar é ser cobarde/e opinar é mau humor...
LOS PORKITOS- humor mau, mau, mau
EL CAUDILHO-o que será rezingar/e destilar fel e bolor?
EL TRAUMA-No me hables desa manera/que soy hermano amigo
LOS PORKITOS-amigo hermano hermano hermano
EL TRAUMA-No me hables que me paso/e me mordo en el umbigo.
(o responsável deste blog não se responsabiliza pelo diálogo destes manequins, evadidos do Museu Etnográfico da Liga dos Amigos de Alpedrinha.)
Os ditos cujos apoderaram-se deste espaço, reinvindicando um lugar que lhes está destinado noutro blog...
Caso desejem rir, queiram dirigir-se a:

segunda-feira, novembro 28, 2005

Pré-Apresentação em Alpedrinha da obra "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas-Um Contributo Para o Seu Estudo"




Realizou-se no passado dia 26 de Novembro, numa iniciativa conjunta da Liga dos Amigos de Alpedrinha, da Junta de freguesia de Alpedrinha e da Fábrica da Igreja local, o VII Encontro de Poetas de Alpedrinha, no Salão Paroquial.

A primeira parte deste evento foi preenchida com a pré-apresentação do livro “Memórias do Contrabando em Santana de Cambas - Um Contributo para o Seu Estudo”, da autoria de Luís Filipe Maçarico. A edição é da Junta de Freguesia de Santana de Cambas, cujo presidente José Rodrigues Simão esteve presente. A obra foi apresentada por José Alberto Franco e pelo autor, com a participação de Rosa Dias, que disse um poema seu, escrito expressamente para este livro.

Francisco Miguel Barata Roxo, presidente da autarquia local, deu as boas vindas a todos, realçando a qualidade que estes encontros culturais têm apresentado e destacou a qualidade do livro que iria ser divulgado.
José Alberto Franco elogiou as vistas largas do autarca do concelho de Mértola, por se ter abalançado num projecto que é raro as Câmaras desenvolverem, quanto mais as juntas e reforçou a ideia destas iniciativas fazerem falta para nos conhecermos melhor.
José Rodrigues Simão, autarca de Santana de Cambas, agradeceu a hospitalidade beirã e sublinhou a necessidade de serem recolhidos depoimentos dos indivíduos da zona da raia, ainda vivos, que tiveram de fazer contrabando para sobreviver. Referiu ainda que a Junta de Freguesia a que preside concretizou dois objectivos de um projecto, que envolve a criação de um Museu do Contrabando, nomeadamente, um concurso de pintura sobre o contrabando e a edição do livro, cujo lançamento vai ocorrer no próximo dia 17 de Dezembro, pelas 15h30m no novo edifício da Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Para esta iniciativa está já convidado o presidente da Junta de freguesia de Alpedrinha.

Luís Maçarico iniciou a sua intervenção declarando que “Há muito desejava partilhar com Alpedrinha este olhar que procura saber mais acerca de quem somos, das raízes, dos comportamentos, dos costumes, das tradições.”
No remate da sua alocução, o antropólogo sublinhou, a propósito do presente trabalho: “Tantas vidas, tanto sofrimento. E tudo para ter direito a respirar, sonhar, existir, sobreviver. Para alimentar e criar filhos, famílias, salvaguardando o património maior que são as pessoas, teimando em manter a identidade da fala e as artes da vida.”
A sessão teve ainda intervenções musicais, a cargo do professor Carlos Ventura e do jovem músico Walter, de Monsaraz. O evento terminou com a actuação dos poetas convidados para este sétimo encontro: Padre Manuel Igreja, Alice Peixeiro, Francisco Amaro, Luís Maçarico e Rosa Dias.
Durante a parte poética, L.M. leu dois poemas do luso-goês Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento ocorre no próximo dia 3 de Dezembro. Foi também lida uma mensagem e dois poemas de Paula Lucas, poetisa alpetriniense, impedida de participar, por motivos de saúde.
Estes encontros têm já um interessante historial, pois realizaram-se 7 estimulantes convívios, 2 dos quais internacionais.
Participaram ao longo deste 9 anos, 24 poetas, sendo 8 deles das Beiras, 6 do Alentejo, 5 de Espanha e 5 de Lisboa, além de 2 declamadoras da capital e uma da Beira Alta.
(fotografias de Monia Roxo)

sexta-feira, novembro 25, 2005

VII ENCONTRO DE POETAS EM ALPEDRINHA


Realiza-se no próximo dia 26 de Novembro numa iniciativa conjunta da Liga dos Amigos de Alpedrinha e da Junta de freguesia de Alpedrinha, o VII Encontro de Poetas de Alpedrinha, que decorrerá a partir das 21h no Salão Paroquial. A primeira parte deste evento será preenchida com a pré-apresentação do livro “Memória do Contrabando em Santana de Cambas - Um Contributo para o Seu Estudo”, da autoria de Luís Filipe Maçarico. A edição é da Câmara Municipal de Mértola e da Junta de Freguesia de Santana de Cambas, cujo presidente José Rodrigues Simão estará presente. A obra será apresentada por José Alberto Franco e pelo autor, com a participação de Rosa Dias, que declamará um poema que escreveu expressamente para este livro, acerca do tema.
A sessão, que terá intervenções musicais a cargo dos professores Carlos Ventura e Monia Roxo, prosseguirá com a intervenção dos poetas convidados para este sétimo encontro: Padre Manuel Igreja, Alice Peixeiro, Francisco Amaro, Luís Maçarico, Rosa Dias - todos repetentes - e Luís Jordão, estreante nestas lides, ex-autarca de Mourão, ex-presidente da Casa do Alentejo, director do “Almanaque Alentejano”.

Estes encontros têm já um historial apreciável, pois realizaram-se já 6 belos convívios, 2 dos quais internacionais, tendo participado ao longo deste 9 anos 8 poetas da Beira - Baixa, 6 do Alentejo, 5 de Espanha e 5 de Lisboa, além de 2 declamadoras da capital e 1 de Carregal do Sal.

Recapitulando, o 1ºEncontro realizou-se no Salão Paroquial em Março de 1997 e nele estiveram presentes os poetas alpetrinienses Braz Ribeiro, Elsa Chambel, Padre Manuel Igreja. Os poemas de Elsa, que tinha ganho a mais recente edição dos Jogos Florais de Alpedrinha foram na ocasião lidos pela pintora Mena Brito. Participaram ainda Jorge Rua de Carvalho e a declamadora Lucília Lucas, que apresentou o livro "O Sabor da Cal" de Luís Maçarico.

No 2º Encontro realizado a 3 de Julho de 1999 no Palácio do Picadeiro e além dos poetas residentes e de Luís Maçarico, intervieram António Figueira, Conceição Baleizão, Luís Graça e os espanhóis Fernando Diaz e Raul Vacas. A declamadora Esmeralda Veloso esteve igualmente presente neste encontro.

O 3º Encontro decorreu no Chafariz D. João V a 1 de Julho de 2000 e além de Maçarico e dos alpetrinienses, compareceram os poetas Cristina Pombinho e Pedro Albuquerque, bem como os espanhóis Joan Gonper, Fernando Gutiérrez e Juan Garochi.

O 4º Encontro aconteceu na Capela do Espírito Santo a 14 de Julho de 2001 e teve as participações dos poetas alpetrinienses a que se juntou Alice Peixeiro, e além de Luís Maçarico estiveram ainda Belmira Besuga, Francisco Amaro, os prémios de revelação da Associação Portuguesa de Escritores, Nicolau Saião e Ruy Ventura e Rosa Dias.

O V Encontro decorreu na Capela do Leão, em 14 de Novembro de 2003, com os poetas Jorge Rua de Carvalho, João Coelho, Luís Maçarico, Maria José Lascas Fernandes e Rosa Dias, além dos beirões Francisco Amaro, Alice Peixeiro, Elsa Chambel e Braz Ribeiro.
Durante este Encontro foi apresentado por Luís Maçarico o livro de poemas de João Coelho “Sementes de Verdade”

O VI Encontro, ocorreu em 27 de Novembro de 2004, no Salão Paroquial, com a presença dos poetas Cristina Pombinho, Margarida Alves, Conceição Baleizão, Rosa Dias e Luís Maçarico, que apresentou o seu último livro de poemas - “Caligrafia do Silêncio”, participando ainda neste evento a designer desta obra, Marta Barata.
Alice Peixeiro, Braz Ribeiro e Paula Lucas (cujos poemas foram lidos por Luís Maçarico e Cristina Pombinho) partilharam igualmente textos de sua autoria.

É justo sublinhar que estes encontros, sem o entusiasmo de Francisco Miguel Barata Roxo, o autarca de Alpedrinha, talvez nunca tivessem sido uma realidade de prestígio, que é lembrada por todos os que já participaram, enquanto protagonistas ou como ouvintes.
(fotografia de LFM)

sábado, novembro 19, 2005

Associados da Aldraba Reunem Com Autarcas de Aljustrel para Preparar Centenário do Nascimento de Adeodato Barreto






Durante a manhã de sábado 19 de Novembro, além da visita ao Museu de Aljustrel, dirigentes da Aldraba-Associação do Espaço e Património Popular, acompanhados por membros do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto, reuniram com o presidente da Junta de Freguesia de Aljustrel.
Foram apresentadas várias perguntas e sugestões, com o objectivo de se concretizar uma evocação do goês de Margão, nascido há cem anos, no dia 3 de Dezembro, que exerceu o notariado na vila mineira no início da década de 30 do século passado, cativando a população operária da mina e a juventude, pelo seu altruísmo, nomeadamente na alfabetização dos homens toupeiras, na difusão do esperanto entre os mais novos, na edição de um jornal -"Círculo"- na participação associativa e na ajuda aos pobres, criando uma sopa para os desvalidos, em tempo de fome.
Poeta, pedagogo, por ter ideias avançadas para o seu tempo, foi perseguido, porque tudo o que era diferente do estabelecido era considerado comunista.
Em 8 anos, na década de 20 Adeodato completou 3 cursos superiores na Universidade de Coimbra.Correspondendo-se com Tagore e Romain Rolland, Adeodato funda com o aplauso destes, um Instituto de Cultura Indiana e preside ao Grémio Republicano proferindo conferências.
A sua obra póstuma encontra-se reunida no volume "O Livro da Vida".
Corroborando a antropóloga Sónia Frade, em tão pouco tempo fez tanto!
Kalidás Barreto, ex-sindicalista e deputado da Constituinte, é filho deste homem e a Aldraba vai em breve promover um jantar em local a indicar, para evocar a personalidade fascinante que é Adeodato Barreto, modelo de tolerância e humanismo, de encontro feliz com o Outro, estabeleceu, pela inteligência e sensibilidade, uma ponte cultural entre Oriente e Ocidente, que nestes dias de incomunicabilidade vale a pena conhecer melhor.
A Aldraba quer dar o seu contributo no sentido de difundir por mais pessoas a memória deste luso-goês exemplar...
Com autarcas, professores e descendentes dos discípulos de Adeodato.
De referir que este grupo visitou ainda Ervidel integrando-se nas festividades da VIN&CULTURA, desfrutando de vários momentos de cante, petiscos e provas do néctar dos deuses, no belo ritual pagão de celebrar Baco, entre amigos, no aconchego das adegas e das conversas.
(fotos de Luís Maçarico e Luís Ferreira)

sexta-feira, novembro 18, 2005

"Aldraba"- Os Primeiros Seis Meses de Um Projecto Partilhado em Torno do Espaço e do Património Popular*





Tendo nascido em 25 de Abril deste ano, no Ateneu Comercial de Lisboa, com a adesão de oitenta cidadãos, a Aldraba é um espaço de convívio e reflexão que tem como objectivo maior a salvaguarda de tudo o que concerne ao espaço e ao património popular, a um artefacto ou à memória do saber fazer.

Nesse sentido, em Junho, estivemos no catálogo do stand do Instituto de Formação Profissional, na FIL Artesanato, com um belíssimo artigo sobre cataventos, da autoria do meteorologista e vice-presidente da direcção, Dr. José Manuel Prista.

No início de Julho, sob o sol tórrido do Alentejo, cinquenta associados e amigos visitaram e interagiram com a realidade sócio-territorial de duas aldeias do Alqueva: aldeia da Luz e aldeia da Estrela.
Confraternizámos com a população da Estrela, que aproveitou a nossa abordagem para apresentar algumas opiniões acerca desta realidade.

No final desse mês, o presidente da Mesa da Assembleia-Geral representou-nos no júri do concurso de pintura sobre o contrabando, em Santana de Cambas, concretizando uma parceria com a autarquia local.

No começo do Outono, apresentámos em Alvaiázere, durante o III Festival do Chícharo, a exposição “Objectos do Quotidiano que Passam Despercebidos”, na sequência de uma primeira exibição em Abril, no Museu República e Resistência - Espaço Grandella, intitulada “Do Espaço à Vivência - Olhar sobre o Património Invisível”, em que eram abordados aldrabas, batentes e cataventos, em suporte fotográfico e multimédia.

No mesmo espaço esteve ainda patente outra exposição, em Outubro, “Momentos de Rua nos Pátios de Lisboa”, através da qual se homenageou Jorge Rua de Carvalho, um lisboeta, homem do fado operário, marceneiro reformado, poeta, associativista, actor amador, fundador da Aldraba, cujos bonecos (mais de 200) expostos evocam as brincadeiras de infância dos anos 20/30 e os pregões da cidade.

A par desta actividade visível, foram já alguns passos na criação de um site na Internet e desde Fevereiro é mantido um blog, que ao longo de uma centena de artigos, obteve, 51% de opiniões de não associados.

Dois grupos de trabalho foram entretanto criados, um para produzir um documentário sobre Jorge Rua de Carvalho e a sua obra e outro, com o estímulo de uma parceria com a Junta de Freguesia de Aljustrel, para homenagear o pedagogo e poeta Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento ocorre no dia 3 de Dezembro.

Este símbolo e expoente da cultura indo-portuguesa, fundou jornais, difundiu o esperanto, auxiliou os desfavorecidos, alfabetizou mineiros e contestou a prepotência, defendendo a conduta ética em política e a justiça social, num tempo em que exercer cidadania tinha conotações subversivas.

Temos trabalhado em colaboração com Kalidás Barreto, filho de Adeodato, e pensamos poder realizar, na primeira metade do próximo ano, uma iniciativa de interacção com a comunidade aljustrelense.

Em seis meses de existência, desenvolvemos um trabalho de sensibilização para um leque diversificado de valores e regiões, do qual nos orgulhamos, prosseguindo agora com este colóquio, que acrescenta a reflexão de cientistas sociais com possibilidade de influenciar alguns centros decisórios, cuja presença agradeço em nome da organização.

Antes de dar a palavra ao painel de convidados, gostaria de deixar um desafio aos anfitriões que nos acolhem neste simpático e emblemático local da cidade - os banhos de São Paulo.
A elegância do design e a simbologia da mão talismânica, difundida ao longo de séculos nas práticas mágico - religiosas dos povos da bacia mediterrânica, presente numa parte substancial de batentes e aldrabas, será que não merece a protecção pelo menos nos centros históricos?
Cabe-vos passar a mensagem aos autarcas e aos estudantes de artes, para redescobrirem nas práticas quotidianas o valor patrimonial destes elementos, concedendo-lhes um novo desempenho na nossa vivência identitária.

*Palavras proferidas pelo presidente da direcção da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, na abertura do IV Encontro/Colóquio da Aldraba, subordinado à temática das "Aldeias da Água do Alqueva", na Ordem dos Arquitectos, em Lisboa, pelas 18h 45m do dia 17 Novembro de 2005
(fotos de Vanda Oliveira)

quarta-feira, novembro 16, 2005

Colóquio As Aldeias da Água do Alqueva


Organizado pela Aldraba, realiza-se amanhã dia 17 de Novembro, na Sede da Ordem dos Arquitectos, Travª do Carvalho, 21 (entre a Prç da Ribeira e o Lgº de S. Paulo) o colóquio "As Aldeias da Água do Alqueva"
Depois de se ter visitado as aldeias da Estrela e da Luz, duas das 18 "Aldeias da Água" e de nos termos passeado sobre o cálido plano de água da albufeira, há que encontrar um espaço de reflexão para se debaterem algumas das questões que foram percepcionadas in loco.
O colóquio terá a participação dos oradores, a nível individual, de: Maria João Georges - Arquitecta, EDIA e responsável pela mudança da antiga para a nova Aldeia da Luz, Moisés Espírito Santo - Sociólogo e catedrático da Univ. Nova de Lisboa, Isabel Guerra - Bióloga e Auditora do Ambiente do Min. Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Raul Caixinha - Sociólogo, INAG e membro da Comissão da Acompanhamento do Alqueva
A sessão será moderada pelo Vice-presidente da Direcção da Aldraba- Associação do Espaço e Património Popular, o geógrafo Fernando Chagas Duarte, seguindo-se o debate com todos os presentes.
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segunda-feira, novembro 14, 2005

Ernesto


Estiveste aqui
Diante das cordilheiras
Do paraíso
E com as aves
Aprendeste
O voo da Liberdade!

2.12.1998
Sierra Maestra, Santiago de Cuba

Luís Filipe Maçarico

sábado, novembro 12, 2005

"Um Irmão Meu, Ali no Moinho das Juntas, Levou Um Tiro Na Cabeça. Foi Um dos Nossos Guardas..."


-“Andou no contrabando?”

-“Andei, andei! Às vezes fugíamos, com medo uns dos outros…”

(O primo deste senhor, Feliciano Marcelino Teixeira, que assistia à conversa, foi comentando situações das quais teve conhecimento através de conversas do próprio José Raposo.
FMT- “Iam para além, que a Espanha é para além, mas não saíam para além, tinham que sair aqui para a vila, para dar as curvas, para passar lá para ao pé do rio… Andavam debaixo de chuva… Quando tinhas de passar a ribeira a banho, passar agarrados a uma corda!”

JR- “A banho! Oh quantas vezes!”

FMT- “Depois todos molhados, não podiam fazer fogo, porque o fogo era um ameseador

Às vezes, que não eram saídas, chama-se o espanto, agarrar o medo a qualquer coisa -fugiam…um para um lado, outro para outro, vai-se a ver, não era nada! Essa coisa do calçado não prestar… e depois andavam já descalços. Porque eram umas alpergatas para não fazer barulho…

JR- “Chegámos a andar 4 noites… 4 noites! Com uma carga às costas e às vezes chegávamos além e perdíamos as cargas e não ganhávamos um tostão! Uma vez tínhamos as cargas agachadas ali no barranco, vínhamos além, encontrámos dois que iam para lá, foram ter com a guarda fiscal que tava ali, deram ameseio, amarrei a carga e pûs uma pedra, vieram, eles passaram por cima da pedra e nunca viram a carga, eu fui buscá-la e a minha mãe que Deus tem deitou-a dentro dum alguidar e mesmo dentro do alguidar veio aqui a guarda, mesmo assim levou-a… E outros perdiam a carga e outros roubavam uns aos outros…”

FMT- “E por exemplo, a fome que passavam, que abalavam daqui com pouco comer, tu chegaste a dizer que chegavas à ribeira já tinhas acabado o pão…”

JR- “E cada um fugia para seu lado…agachávamos as cargas e não sabíamos onde é que elas estavam (…) Pelos caminhos não se podia ir…”

FMT- “Havia cheiros como aquele do Malpique…”

JR- “Se houvesse mato como há hoje, já éramos capazes de passar…[1]” “Fomos a deixar a carga debaixo de um xeragaço, a minha era de tabaco, eu tive muita saída, nunca perdi carga nenhuma…”

FMT- “Cargas de 50 quilos às costas…”

JR- “Chovendo que era uma lástima, foi o que arrebentou com a gente todos!”

“E o contrabandista dos Fernandes que a Guarda assassinou, como foi?

JR- “Foi um irmão meu, ali no Moinho das Juntas, levou um tiro na cabeça. Foi um dos nossos guardas, os nossos eram piores que os outros![2]Mataram muitos! Então houve aí um, filho dum cabrão! Que matou três. (repete que ali mataram 3 e acrescenta “morreram muitos afogados!”) O cabrão ainda deu um tiro num homem de Moreanes. Apanhavam a gente e davam-nos porrada![3] Alguns iam para a cadeia, estavam lá meses, em Beja. Eu fui lá também… A Guarda levou-nos à frente dos cavalos até á Mina…Fui para a tropa…fui para um pelotão desse sargento que nos prendeu…ficou mê amigo! Um moço dos Picoitos, deram-lhe um tiro no ombro, o Tó Lourenço! Mas isso foram os carabineiros. Os nossos eram piores que os espanhóis. Sabe o que os nossos faziam? Apanhavam os espanhóis (que fugiam da guerra civil) e levavam-nos para Sanlúcar e à noite os guardas espanhóis descarregavam as balas e matavam-nos[4]

Metíamo-nos nos barrancos todos molhados, não podíamos fumar… Íamos do Granado para lá muito ainda. E tínhamos então um sítio muito longe, pois fica para este lado de Vila Real, era tudo assim. Entregávamos (as cargas) aos espanhóis. Mas havia gajos ameseiros que mamavam aquilo tudo…

A gente era novo, mas estamos pagando agora. Então têm morrido muitos por causa disso, apanharam reumático…”

(depoimento de José Teixeira Raposo, Fernandes, 81 anos)


[1] José Raposo, durante esta entrevista, efectuada nos Fernandes em 28-5-2004, referiu uma incursão de 60 homens, numa noite de lua, talvez a saída de dezenas de homens que Ti Chico Neto também relatou no seu depoimento…

[2] O informante distingue-se dos restantes entrevistados, acusando a Guarda-Fiscal de ser pior que as autoridades fronteiriças espanholas. Compreende-se, face ao que aconteceu ao irmão. José Raposo ficou indelevelmente marcado pelo assassinato do familiar.

[3] Este comportamento dos guardas fronteiriços, segundo a maioria dos entrevistados e até em bibliografia consultada, era apanágio dos Carabineiros.

[4] Talvez esteja aqui, nesta notícia da conivência dos guardas, a razão da aversão do informante, várias vezes repetida, à Guarda-Fiscal.

Entrevista e fotografia de Luís Filipe Maçarico. Este texto integra a obra "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas. Um Contributo para o seu Estudo", editada pela Câmara Municipal de Mértola e pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas, cujo lançamento está previsto para Dezembro de 2005.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Escrito em Itália: Oh Furtiva Gôndola


oh furtiva gôndola
dos vultos secretos
no canal soturno
em busca da lua.

oh furtiva gondola
dai volti segrete
nel canale ascuro
in cerca della luna*

Luís Filipe Maçarico

"Peregrinos do Luar" (edição de autor) foi apresentado em 7 de Julho de 1998, na Sociedade Musical Ordem e Progresso, em Lisboa e na Primavera seguinte em Alpedrinha, com a presença de Pepe de Sant'Ollaia, Salem Omrani, Conceição Baleizão e Pedro Salvado.
Capa de Rodrigo Dias Guimarães.
*versão de Fátima Sá (Abril 1999)

quarta-feira, novembro 09, 2005

Parabéns, Margarida!




Conheci-a na direcção da antiga Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio. Eu era 1º secretário e ela vice-tesoureira. Uma amizade nasceu, com a intensidade que dois escorpiões podem imprimir. Com ela aprendi o que é uma platibanda, depois de termos organizado e montado a exposição sobre os 75 anos da FPCCR no complexo desportivo dos Olivais. Escrito a meias um livro sobre os 150 anos da Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, levou-me ao barrocal algarvio, numa Primavera chuvosa mas de muita ternura. Acampei no Ferragudo, conheci melhor Portimão e em Miranda do Douro, com o Fernando Fino, apresentou os seus poemas num aconchegante encontro de poesia sem fronteiras, entre jovens da UTAD e o povo, inesquecível, da aldeia com quem partilhámos uma burricada festiva até às arribas do Douro. Estivemos juntos na fundação da Aldraba.
Há dias achei estranhíssimo o ultimato que me fez: que não podia desmontar no dia 9 a exposição de Jorge Rua Carvalho (internado no domingo, a quem desejo as melhoras), porque também tinha direito a ter um dia para ela...
Agora entendo: Parabéns Margarida!!!
Longa vida para ti e para esse notável vemos,ouvimos e lemos, que há mais de um ano animas.
E para todos aqueles que amas, como o Fernando, a Bá, o Manel e o Vasco, além da kotinha...
(imagens recolhidas a partir do site da pintora síria hala faisal)

segunda-feira, novembro 07, 2005

A Poesia e a Internet Podem Aproximar Culturas e Povos Todos Diferentes, Todos Iguais





Um livro, surgido em 1995 e reeditado várias vezes, motivou o encontro através da Internet com três bloggers tunisinos:
Iskander
Adib
Zied
Iskander (na fotografia, tirada em Roma, está de blusão e óculos), vive e trabalha em Madrid,e no próximo mês vem a um congresso em Lisboa.
Adib é veterinário em Kelibia e adora dançar salsa, como se pode ver na fotografia retirada do seu blogue.
Zied, o sorridente Zizou de Djerba, estuda saúde em Beirute, no país dos cedros (Líbano).
Todos eles têm em comum o facto de serem homens cultos, viajados e sensíveis, que discutem, sem tabús, os problemas do mundo, reflectindo o percurso quotidiano dos árabes nesse mundo que tem de ser partilhado, quantas vezes entre o desencontro e a desconfiança, frutos de muita ignorância.
Tenho a felicidade de conhecer a Tunísia, o seu povo, a sua gastronomia, alguma literatura, a música, o sorriso dos amigos, por isso estes três amigos internautas são bem vindos, pelos laços que já se criaram e são visíveis nos seus blogues.
Espreitem, saboreiem, partilhem. São pessoas muito interessantes, vivas, com quem se pode aprender e permutar o que há de melhor nesta curta passagem, que não pedimos para fazer, mas que é bom desfrutar em harmoniosa convivência.
LFM

domingo, novembro 06, 2005

Jorge Rua de Carvalho-Um Documentário e Último Dia de Exposição Na Estrada de Benfica 419






Há um ano atrás, após a reunião de quase duas dezenas de semeadores, na Casa do Alentejo, começou a ganhar corpo a ideia de uma nova associação.
Entre 24 de Outubro e 7 de Novembro de 2004, os telefonemas sucederam-se...
Alif, Calif e Aldab foram os nomes analisados e discutidos à volta da questão do património invisível...
No dia 9 escrevi o post "os ladrões de sonhos", no dia 10 enviei aos amigos um e-mail intitulado "creio ter chegado o momento de criar uma nova associação..."
E no dia 21 juntaram-se vinte pessoas para começarem a concretizar a Aldraba-Associação do Espaço e Património Popular, fundada cinco meses depois, a 25 de Abril do presente ano.
As iniciativas sucedem-se num ritmo crescente de entusiasmo e sucesso.
Actualmente, a Aldraba tem (ainda por mais 2 dias) no espaço Grandella do Museu República e Resistência a exposição "Momentos de Rua nos Pátios de Lisboa".
Segunda-feira até à hora do almoço poderão ainda disfrutá-la, na Estrada de Benfica, 419.
O autor dos 201 bonecos expostos, que representam as brincadeiras da sua infância e os pregões da cidade, tem 86 anos e está a ser alvo de uma recolha documental para vídeo, através de filmagens, que duram já há alguns meses, a cargo de Fernando Duarte e Fernando Amaral.
Jorge Rua de Carvalho associou-se à Aldraba no dia da fundação, durante a Assembleia Geral realizada no Ateneu Comercial de Lisboa.
(fotografias de LFM)

sábado, novembro 05, 2005

Um Pedido de Maria Árvore


Recebi no meu e-mail esta mensagem:

"Não costumo gastar o tempo dos outros com as minhas preocupações mas julgo que esta justifica que o faça.

No mundo em brutal aceleração em que vivemos hoje, escasseia o tempo para pararmos um pouco para reflectir em situações que nos rodeiam, de forma mais ou menos próxima / mais ou menos afastada, relacionadas com pessoas carenciadas, sem voz que permita dar expressão às suas necessidades mais básicas.

Por este motivo, procurando lutar contra o "cultivo da insensibilidade" que de alguma forma se vai instalando, um conjunto de "bloggers" decidiu reunir-se num projecto comum ("Proximizade"), visando potenciar as virtudes da blogosfera, no sentido de "aproximar uma mão amiga" (que será a de todos os que decidam de alguma forma apoiar / colaborar com este projecto) dessas pessoas carenciadas.

Como primeiro gesto prático e concreto, o "Proximizade" começou por "apadrinhar" uma criança carenciada em Moçambique, a Berta, de 3 anos.

A tua colaboração pode ser decisiva na divulgação do blogue criado para o efeito - o qual abre já nesta 4ª feira, dia 2 de Novembro -, no qual serão sucessivamente apresentadas organizações ou instituições de apoio a causas solidárias: Proximizade - http://proximizade.weblog.com.pt/.

Agradeço toda a atenção e envio um smac estalado,

Maria Árvore"

terça-feira, novembro 01, 2005

Tarde de Chuva em Havana



Há cerca de sete anos visitei Cuba.
"Quando são vinte e quatro horas em Portugal, aterramos em Havana (...) Ficámos surpreendidos com a riqueza arquitectónica da cidade, logo à chegada..." (caderno de viagem, 28 de Novembro de 1998)
Dois dias depois de ter chegado, a poesia irrompia:

"Na tarde tropical
Escancaradas varandas
mostram corpos caribenhos
contemplando a chuva compassada
que se confunde
com a cadência dum canto.
A cidade é então um viveiro
de espanto."

Luís Filipe Maçarico, Havana, 30-11-1998
Imagens: C.Otis Sweezey e web.usf.edu/iac/studyabroad/cuba

sábado, outubro 29, 2005

Enquanto Houver Força


Envelhecer é para mim normal: dentes e cabelos gastam-se, aumenta-se de volume, ganha-se sabedoria, já não se é facilmente enganado. O que se perde em inocência compensa-se com a experiência. Os conselhos, as intuições, os sentimentos, o controle emocional têm mais probabilidade de nos fazer chegar à harmonia.
Nesta foto, tirada em 1984, num parque de campismo em Graz - fronteira austro-húngara - eu tinha 32 anos.
Faço hoje 53.
Ali, eu reiniciara os meus estudos: curso nocturno para completar o 10º,11º e 12º ano. Era técnico sanitário da Câmara Municipal de Lisboa. Tinha muitos poemas dispersos por jornais e revistas, desde a adolescência, mas nenhum livro publicado. A paixão amorosa estava no auge - era um alimento precioso.
Amor, afinal, é jóia rara. As pessoas, as que ainda o são, constituem um tesouro. Aprende-se estas coisas vivendo. Cavalgando a besta do desencontro.
Chego a esta etapa com dezenas de títulos editados, concluí o mestrado em Antropologia, viajei muito, conheço melhor o Outro e eu próprio, embora como diz Viviane "a vida não chega" para abarcarmos tudo.
Aprendi a mexer no computador. Descobri esta delícia que é animar um blogue. O telemóvel é um objecto que também já entrou nas minhas rotinas, pela sua utilidade até para coisas tão ridículas como um dia destes ter ido visitar um casal amigo cuja campaínha da porta de casa estava avariada, ou para comunicar mais facilmente com os meus amigos tunisinos.
Escrevo agora muito menos cartas. Estou até cansado com o desconcerto do mundo e a secura do cravo da esperança.
Mas logo, quando à mesa da amizade trocar sorrisos como rosas, vou dizer com os olhos que existir só faz sentido na partilha desse lugar mágico, que acende de novo todas as esperanças. Ou para citar José Afonso:"Enquanto houver força..."