"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sexta-feira, novembro 18, 2005

"Aldraba"- Os Primeiros Seis Meses de Um Projecto Partilhado em Torno do Espaço e do Património Popular*





Tendo nascido em 25 de Abril deste ano, no Ateneu Comercial de Lisboa, com a adesão de oitenta cidadãos, a Aldraba é um espaço de convívio e reflexão que tem como objectivo maior a salvaguarda de tudo o que concerne ao espaço e ao património popular, a um artefacto ou à memória do saber fazer.

Nesse sentido, em Junho, estivemos no catálogo do stand do Instituto de Formação Profissional, na FIL Artesanato, com um belíssimo artigo sobre cataventos, da autoria do meteorologista e vice-presidente da direcção, Dr. José Manuel Prista.

No início de Julho, sob o sol tórrido do Alentejo, cinquenta associados e amigos visitaram e interagiram com a realidade sócio-territorial de duas aldeias do Alqueva: aldeia da Luz e aldeia da Estrela.
Confraternizámos com a população da Estrela, que aproveitou a nossa abordagem para apresentar algumas opiniões acerca desta realidade.

No final desse mês, o presidente da Mesa da Assembleia-Geral representou-nos no júri do concurso de pintura sobre o contrabando, em Santana de Cambas, concretizando uma parceria com a autarquia local.

No começo do Outono, apresentámos em Alvaiázere, durante o III Festival do Chícharo, a exposição “Objectos do Quotidiano que Passam Despercebidos”, na sequência de uma primeira exibição em Abril, no Museu República e Resistência - Espaço Grandella, intitulada “Do Espaço à Vivência - Olhar sobre o Património Invisível”, em que eram abordados aldrabas, batentes e cataventos, em suporte fotográfico e multimédia.

No mesmo espaço esteve ainda patente outra exposição, em Outubro, “Momentos de Rua nos Pátios de Lisboa”, através da qual se homenageou Jorge Rua de Carvalho, um lisboeta, homem do fado operário, marceneiro reformado, poeta, associativista, actor amador, fundador da Aldraba, cujos bonecos (mais de 200) expostos evocam as brincadeiras de infância dos anos 20/30 e os pregões da cidade.

A par desta actividade visível, foram já alguns passos na criação de um site na Internet e desde Fevereiro é mantido um blog, que ao longo de uma centena de artigos, obteve, 51% de opiniões de não associados.

Dois grupos de trabalho foram entretanto criados, um para produzir um documentário sobre Jorge Rua de Carvalho e a sua obra e outro, com o estímulo de uma parceria com a Junta de Freguesia de Aljustrel, para homenagear o pedagogo e poeta Adeodato Barreto, cujo centenário do nascimento ocorre no dia 3 de Dezembro.

Este símbolo e expoente da cultura indo-portuguesa, fundou jornais, difundiu o esperanto, auxiliou os desfavorecidos, alfabetizou mineiros e contestou a prepotência, defendendo a conduta ética em política e a justiça social, num tempo em que exercer cidadania tinha conotações subversivas.

Temos trabalhado em colaboração com Kalidás Barreto, filho de Adeodato, e pensamos poder realizar, na primeira metade do próximo ano, uma iniciativa de interacção com a comunidade aljustrelense.

Em seis meses de existência, desenvolvemos um trabalho de sensibilização para um leque diversificado de valores e regiões, do qual nos orgulhamos, prosseguindo agora com este colóquio, que acrescenta a reflexão de cientistas sociais com possibilidade de influenciar alguns centros decisórios, cuja presença agradeço em nome da organização.

Antes de dar a palavra ao painel de convidados, gostaria de deixar um desafio aos anfitriões que nos acolhem neste simpático e emblemático local da cidade - os banhos de São Paulo.
A elegância do design e a simbologia da mão talismânica, difundida ao longo de séculos nas práticas mágico - religiosas dos povos da bacia mediterrânica, presente numa parte substancial de batentes e aldrabas, será que não merece a protecção pelo menos nos centros históricos?
Cabe-vos passar a mensagem aos autarcas e aos estudantes de artes, para redescobrirem nas práticas quotidianas o valor patrimonial destes elementos, concedendo-lhes um novo desempenho na nossa vivência identitária.

*Palavras proferidas pelo presidente da direcção da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, na abertura do IV Encontro/Colóquio da Aldraba, subordinado à temática das "Aldeias da Água do Alqueva", na Ordem dos Arquitectos, em Lisboa, pelas 18h 45m do dia 17 Novembro de 2005
(fotos de Vanda Oliveira)

quarta-feira, novembro 16, 2005

Colóquio As Aldeias da Água do Alqueva


Organizado pela Aldraba, realiza-se amanhã dia 17 de Novembro, na Sede da Ordem dos Arquitectos, Travª do Carvalho, 21 (entre a Prç da Ribeira e o Lgº de S. Paulo) o colóquio "As Aldeias da Água do Alqueva"
Depois de se ter visitado as aldeias da Estrela e da Luz, duas das 18 "Aldeias da Água" e de nos termos passeado sobre o cálido plano de água da albufeira, há que encontrar um espaço de reflexão para se debaterem algumas das questões que foram percepcionadas in loco.
O colóquio terá a participação dos oradores, a nível individual, de: Maria João Georges - Arquitecta, EDIA e responsável pela mudança da antiga para a nova Aldeia da Luz, Moisés Espírito Santo - Sociólogo e catedrático da Univ. Nova de Lisboa, Isabel Guerra - Bióloga e Auditora do Ambiente do Min. Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Raul Caixinha - Sociólogo, INAG e membro da Comissão da Acompanhamento do Alqueva
A sessão será moderada pelo Vice-presidente da Direcção da Aldraba- Associação do Espaço e Património Popular, o geógrafo Fernando Chagas Duarte, seguindo-se o debate com todos os presentes.
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segunda-feira, novembro 14, 2005

Ernesto


Estiveste aqui
Diante das cordilheiras
Do paraíso
E com as aves
Aprendeste
O voo da Liberdade!

2.12.1998
Sierra Maestra, Santiago de Cuba

Luís Filipe Maçarico

sábado, novembro 12, 2005

"Um Irmão Meu, Ali no Moinho das Juntas, Levou Um Tiro Na Cabeça. Foi Um dos Nossos Guardas..."


-“Andou no contrabando?”

-“Andei, andei! Às vezes fugíamos, com medo uns dos outros…”

(O primo deste senhor, Feliciano Marcelino Teixeira, que assistia à conversa, foi comentando situações das quais teve conhecimento através de conversas do próprio José Raposo.
FMT- “Iam para além, que a Espanha é para além, mas não saíam para além, tinham que sair aqui para a vila, para dar as curvas, para passar lá para ao pé do rio… Andavam debaixo de chuva… Quando tinhas de passar a ribeira a banho, passar agarrados a uma corda!”

JR- “A banho! Oh quantas vezes!”

FMT- “Depois todos molhados, não podiam fazer fogo, porque o fogo era um ameseador

Às vezes, que não eram saídas, chama-se o espanto, agarrar o medo a qualquer coisa -fugiam…um para um lado, outro para outro, vai-se a ver, não era nada! Essa coisa do calçado não prestar… e depois andavam já descalços. Porque eram umas alpergatas para não fazer barulho…

JR- “Chegámos a andar 4 noites… 4 noites! Com uma carga às costas e às vezes chegávamos além e perdíamos as cargas e não ganhávamos um tostão! Uma vez tínhamos as cargas agachadas ali no barranco, vínhamos além, encontrámos dois que iam para lá, foram ter com a guarda fiscal que tava ali, deram ameseio, amarrei a carga e pûs uma pedra, vieram, eles passaram por cima da pedra e nunca viram a carga, eu fui buscá-la e a minha mãe que Deus tem deitou-a dentro dum alguidar e mesmo dentro do alguidar veio aqui a guarda, mesmo assim levou-a… E outros perdiam a carga e outros roubavam uns aos outros…”

FMT- “E por exemplo, a fome que passavam, que abalavam daqui com pouco comer, tu chegaste a dizer que chegavas à ribeira já tinhas acabado o pão…”

JR- “E cada um fugia para seu lado…agachávamos as cargas e não sabíamos onde é que elas estavam (…) Pelos caminhos não se podia ir…”

FMT- “Havia cheiros como aquele do Malpique…”

JR- “Se houvesse mato como há hoje, já éramos capazes de passar…[1]” “Fomos a deixar a carga debaixo de um xeragaço, a minha era de tabaco, eu tive muita saída, nunca perdi carga nenhuma…”

FMT- “Cargas de 50 quilos às costas…”

JR- “Chovendo que era uma lástima, foi o que arrebentou com a gente todos!”

“E o contrabandista dos Fernandes que a Guarda assassinou, como foi?

JR- “Foi um irmão meu, ali no Moinho das Juntas, levou um tiro na cabeça. Foi um dos nossos guardas, os nossos eram piores que os outros![2]Mataram muitos! Então houve aí um, filho dum cabrão! Que matou três. (repete que ali mataram 3 e acrescenta “morreram muitos afogados!”) O cabrão ainda deu um tiro num homem de Moreanes. Apanhavam a gente e davam-nos porrada![3] Alguns iam para a cadeia, estavam lá meses, em Beja. Eu fui lá também… A Guarda levou-nos à frente dos cavalos até á Mina…Fui para a tropa…fui para um pelotão desse sargento que nos prendeu…ficou mê amigo! Um moço dos Picoitos, deram-lhe um tiro no ombro, o Tó Lourenço! Mas isso foram os carabineiros. Os nossos eram piores que os espanhóis. Sabe o que os nossos faziam? Apanhavam os espanhóis (que fugiam da guerra civil) e levavam-nos para Sanlúcar e à noite os guardas espanhóis descarregavam as balas e matavam-nos[4]

Metíamo-nos nos barrancos todos molhados, não podíamos fumar… Íamos do Granado para lá muito ainda. E tínhamos então um sítio muito longe, pois fica para este lado de Vila Real, era tudo assim. Entregávamos (as cargas) aos espanhóis. Mas havia gajos ameseiros que mamavam aquilo tudo…

A gente era novo, mas estamos pagando agora. Então têm morrido muitos por causa disso, apanharam reumático…”

(depoimento de José Teixeira Raposo, Fernandes, 81 anos)


[1] José Raposo, durante esta entrevista, efectuada nos Fernandes em 28-5-2004, referiu uma incursão de 60 homens, numa noite de lua, talvez a saída de dezenas de homens que Ti Chico Neto também relatou no seu depoimento…

[2] O informante distingue-se dos restantes entrevistados, acusando a Guarda-Fiscal de ser pior que as autoridades fronteiriças espanholas. Compreende-se, face ao que aconteceu ao irmão. José Raposo ficou indelevelmente marcado pelo assassinato do familiar.

[3] Este comportamento dos guardas fronteiriços, segundo a maioria dos entrevistados e até em bibliografia consultada, era apanágio dos Carabineiros.

[4] Talvez esteja aqui, nesta notícia da conivência dos guardas, a razão da aversão do informante, várias vezes repetida, à Guarda-Fiscal.

Entrevista e fotografia de Luís Filipe Maçarico. Este texto integra a obra "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas. Um Contributo para o seu Estudo", editada pela Câmara Municipal de Mértola e pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas, cujo lançamento está previsto para Dezembro de 2005.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Escrito em Itália: Oh Furtiva Gôndola


oh furtiva gôndola
dos vultos secretos
no canal soturno
em busca da lua.

oh furtiva gondola
dai volti segrete
nel canale ascuro
in cerca della luna*

Luís Filipe Maçarico

"Peregrinos do Luar" (edição de autor) foi apresentado em 7 de Julho de 1998, na Sociedade Musical Ordem e Progresso, em Lisboa e na Primavera seguinte em Alpedrinha, com a presença de Pepe de Sant'Ollaia, Salem Omrani, Conceição Baleizão e Pedro Salvado.
Capa de Rodrigo Dias Guimarães.
*versão de Fátima Sá (Abril 1999)

quarta-feira, novembro 09, 2005

Parabéns, Margarida!




Conheci-a na direcção da antiga Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio. Eu era 1º secretário e ela vice-tesoureira. Uma amizade nasceu, com a intensidade que dois escorpiões podem imprimir. Com ela aprendi o que é uma platibanda, depois de termos organizado e montado a exposição sobre os 75 anos da FPCCR no complexo desportivo dos Olivais. Escrito a meias um livro sobre os 150 anos da Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, levou-me ao barrocal algarvio, numa Primavera chuvosa mas de muita ternura. Acampei no Ferragudo, conheci melhor Portimão e em Miranda do Douro, com o Fernando Fino, apresentou os seus poemas num aconchegante encontro de poesia sem fronteiras, entre jovens da UTAD e o povo, inesquecível, da aldeia com quem partilhámos uma burricada festiva até às arribas do Douro. Estivemos juntos na fundação da Aldraba.
Há dias achei estranhíssimo o ultimato que me fez: que não podia desmontar no dia 9 a exposição de Jorge Rua Carvalho (internado no domingo, a quem desejo as melhoras), porque também tinha direito a ter um dia para ela...
Agora entendo: Parabéns Margarida!!!
Longa vida para ti e para esse notável vemos,ouvimos e lemos, que há mais de um ano animas.
E para todos aqueles que amas, como o Fernando, a Bá, o Manel e o Vasco, além da kotinha...
(imagens recolhidas a partir do site da pintora síria hala faisal)

segunda-feira, novembro 07, 2005

A Poesia e a Internet Podem Aproximar Culturas e Povos Todos Diferentes, Todos Iguais





Um livro, surgido em 1995 e reeditado várias vezes, motivou o encontro através da Internet com três bloggers tunisinos:
Iskander
Adib
Zied
Iskander (na fotografia, tirada em Roma, está de blusão e óculos), vive e trabalha em Madrid,e no próximo mês vem a um congresso em Lisboa.
Adib é veterinário em Kelibia e adora dançar salsa, como se pode ver na fotografia retirada do seu blogue.
Zied, o sorridente Zizou de Djerba, estuda saúde em Beirute, no país dos cedros (Líbano).
Todos eles têm em comum o facto de serem homens cultos, viajados e sensíveis, que discutem, sem tabús, os problemas do mundo, reflectindo o percurso quotidiano dos árabes nesse mundo que tem de ser partilhado, quantas vezes entre o desencontro e a desconfiança, frutos de muita ignorância.
Tenho a felicidade de conhecer a Tunísia, o seu povo, a sua gastronomia, alguma literatura, a música, o sorriso dos amigos, por isso estes três amigos internautas são bem vindos, pelos laços que já se criaram e são visíveis nos seus blogues.
Espreitem, saboreiem, partilhem. São pessoas muito interessantes, vivas, com quem se pode aprender e permutar o que há de melhor nesta curta passagem, que não pedimos para fazer, mas que é bom desfrutar em harmoniosa convivência.
LFM

domingo, novembro 06, 2005

Jorge Rua de Carvalho-Um Documentário e Último Dia de Exposição Na Estrada de Benfica 419






Há um ano atrás, após a reunião de quase duas dezenas de semeadores, na Casa do Alentejo, começou a ganhar corpo a ideia de uma nova associação.
Entre 24 de Outubro e 7 de Novembro de 2004, os telefonemas sucederam-se...
Alif, Calif e Aldab foram os nomes analisados e discutidos à volta da questão do património invisível...
No dia 9 escrevi o post "os ladrões de sonhos", no dia 10 enviei aos amigos um e-mail intitulado "creio ter chegado o momento de criar uma nova associação..."
E no dia 21 juntaram-se vinte pessoas para começarem a concretizar a Aldraba-Associação do Espaço e Património Popular, fundada cinco meses depois, a 25 de Abril do presente ano.
As iniciativas sucedem-se num ritmo crescente de entusiasmo e sucesso.
Actualmente, a Aldraba tem (ainda por mais 2 dias) no espaço Grandella do Museu República e Resistência a exposição "Momentos de Rua nos Pátios de Lisboa".
Segunda-feira até à hora do almoço poderão ainda disfrutá-la, na Estrada de Benfica, 419.
O autor dos 201 bonecos expostos, que representam as brincadeiras da sua infância e os pregões da cidade, tem 86 anos e está a ser alvo de uma recolha documental para vídeo, através de filmagens, que duram já há alguns meses, a cargo de Fernando Duarte e Fernando Amaral.
Jorge Rua de Carvalho associou-se à Aldraba no dia da fundação, durante a Assembleia Geral realizada no Ateneu Comercial de Lisboa.
(fotografias de LFM)

sábado, novembro 05, 2005

Um Pedido de Maria Árvore


Recebi no meu e-mail esta mensagem:

"Não costumo gastar o tempo dos outros com as minhas preocupações mas julgo que esta justifica que o faça.

No mundo em brutal aceleração em que vivemos hoje, escasseia o tempo para pararmos um pouco para reflectir em situações que nos rodeiam, de forma mais ou menos próxima / mais ou menos afastada, relacionadas com pessoas carenciadas, sem voz que permita dar expressão às suas necessidades mais básicas.

Por este motivo, procurando lutar contra o "cultivo da insensibilidade" que de alguma forma se vai instalando, um conjunto de "bloggers" decidiu reunir-se num projecto comum ("Proximizade"), visando potenciar as virtudes da blogosfera, no sentido de "aproximar uma mão amiga" (que será a de todos os que decidam de alguma forma apoiar / colaborar com este projecto) dessas pessoas carenciadas.

Como primeiro gesto prático e concreto, o "Proximizade" começou por "apadrinhar" uma criança carenciada em Moçambique, a Berta, de 3 anos.

A tua colaboração pode ser decisiva na divulgação do blogue criado para o efeito - o qual abre já nesta 4ª feira, dia 2 de Novembro -, no qual serão sucessivamente apresentadas organizações ou instituições de apoio a causas solidárias: Proximizade - http://proximizade.weblog.com.pt/.

Agradeço toda a atenção e envio um smac estalado,

Maria Árvore"

terça-feira, novembro 01, 2005

Tarde de Chuva em Havana



Há cerca de sete anos visitei Cuba.
"Quando são vinte e quatro horas em Portugal, aterramos em Havana (...) Ficámos surpreendidos com a riqueza arquitectónica da cidade, logo à chegada..." (caderno de viagem, 28 de Novembro de 1998)
Dois dias depois de ter chegado, a poesia irrompia:

"Na tarde tropical
Escancaradas varandas
mostram corpos caribenhos
contemplando a chuva compassada
que se confunde
com a cadência dum canto.
A cidade é então um viveiro
de espanto."

Luís Filipe Maçarico, Havana, 30-11-1998
Imagens: C.Otis Sweezey e web.usf.edu/iac/studyabroad/cuba

sábado, outubro 29, 2005

Enquanto Houver Força


Envelhecer é para mim normal: dentes e cabelos gastam-se, aumenta-se de volume, ganha-se sabedoria, já não se é facilmente enganado. O que se perde em inocência compensa-se com a experiência. Os conselhos, as intuições, os sentimentos, o controle emocional têm mais probabilidade de nos fazer chegar à harmonia.
Nesta foto, tirada em 1984, num parque de campismo em Graz - fronteira austro-húngara - eu tinha 32 anos.
Faço hoje 53.
Ali, eu reiniciara os meus estudos: curso nocturno para completar o 10º,11º e 12º ano. Era técnico sanitário da Câmara Municipal de Lisboa. Tinha muitos poemas dispersos por jornais e revistas, desde a adolescência, mas nenhum livro publicado. A paixão amorosa estava no auge - era um alimento precioso.
Amor, afinal, é jóia rara. As pessoas, as que ainda o são, constituem um tesouro. Aprende-se estas coisas vivendo. Cavalgando a besta do desencontro.
Chego a esta etapa com dezenas de títulos editados, concluí o mestrado em Antropologia, viajei muito, conheço melhor o Outro e eu próprio, embora como diz Viviane "a vida não chega" para abarcarmos tudo.
Aprendi a mexer no computador. Descobri esta delícia que é animar um blogue. O telemóvel é um objecto que também já entrou nas minhas rotinas, pela sua utilidade até para coisas tão ridículas como um dia destes ter ido visitar um casal amigo cuja campaínha da porta de casa estava avariada, ou para comunicar mais facilmente com os meus amigos tunisinos.
Escrevo agora muito menos cartas. Estou até cansado com o desconcerto do mundo e a secura do cravo da esperança.
Mas logo, quando à mesa da amizade trocar sorrisos como rosas, vou dizer com os olhos que existir só faz sentido na partilha desse lugar mágico, que acende de novo todas as esperanças. Ou para citar José Afonso:"Enquanto houver força..."

Uma Prenda para os meus Amigos Adib, Zied, Nizar e Salem/Un Cadeau pour Mes Amis Adib, Zied, Nizar et Salem


NOM POUR UN SOURIRE

entre deserts
et rochers
Faouzi habite
dans le palais
du silence.

J'accepts
son thè a la menthe
depuis les yeux
avoir savoré
la beauté des oásis
de montaigne.

Dans la boutique
où il vend boissons
et cartes postales,
il assure qu'il m'a vu passer
dans une autre année.

Avant partir, avec le tambour
de Ramadan
je le désire la bonne chance
et bonne santé
en dançant
plus léger
qu'n oiseau...

Écrit dans la 9ème voyage en Tunisie- 15 Avril 1998

Ce n'est pas un grand poème mais il a eté écrit avec le coeur...

NOME PARA UM SORRISO
Entre desertos
e desfiladeiros
Faouzi vive
num palácio de silêncios.

Aceito o seu chá
de menta
depois dos olhos
terem bebido
e beleza dos oásis
de montanha.

Ali, na sua loja
onde vende bebidas
e postais, ele lembra-se
de me ter visto

Então, ao som do tambor
de Ramadan e antes de partir
auguro sorte e saúde
e ponho-me a dançar
mais leve que um pássaro.

*Escrito na 9ª viagem à Tunísia, 15 de Abril de 1998.
Não é um grande poema mas foi escrito com o coração...

Luís Filipe Maçarico

quinta-feira, outubro 27, 2005

Eduardo Ramos* e o seu Novo Disco: "Cântico Para Al Mutamid": Uma Prodigiosa Homenagem Com Requinte e Mestria



A obra de Al Mutamid, passados mais de nove séculos sobre o seu nascimento, pela intemporalidade, continua a afagar-nos a alma ou a desinquietar esta passagem etérea com a criatividade e sensualidade das suas palavras ardentes e cintilantes.

Este belíssimo “Cântico para Al Mutamid” com músicas do bardo do Arade, principia com o poema Itimad, interpretado com mestria.

Aliás, todos os motes, mesmo os recitados, como o tema, “A Silves”, estão imbuídos de uma sonoridade e de uma envolvênci que nos transporta até ao requinte e exotismo dos palácios onde os madrigais trovadorescos derramavam sabedoria e suavidade.

A voz de Eduardo Ramos possui um timbre inconfundível que, mesclado com a virtuosa execução do alaúde, saz, bendir, zukra e flauta, origina uma prodigiosa homenagem ao imortal poeta luso-árabe Al Mutamid.

Exceptuando as incursões artísticas, nos territórios do Outro, experimentadas por Rão Kyao e Janita Salomé, conheço poucos criadores em Portugal capazes deste desempenho.

Eduardo Ramos é um músico de referência, pelo seu percurso excepcional, que não trocou de pele, não perdeu a rosa, não vendeu a alma. Os seus discos são momentos de dádiva, únicos, que se escutam com a satisfação de uma peregrinação aos oásis das Mil e Uma Noites, refrescando os lábios em frutos suculentos e benfazejos, no harmonioso embalo das águas cariciosas.

Os poemas musicados por Eduardo Ramos constituem habitualmente um excelente motivo de celebração da vida, a que o público adere, porém têm o condão de estimular, na intimidade, o imaginário adormecido do outro lado das nossas raízes.

Saboreemos então este “Cântico para Al Mutamid”, como um bálsamo contra a rotina: Este cálice de sonho, esta mágica viagem, é para repetir, sempre que se deseje!

Obrigado Eduardo Ramos, por mais uma tão bela partilha de Luz!

Luís Filipe Maçarico

*Eduardo Ramos pode ser contactado pelo TLM 965034764 Posted by Picasa

quarta-feira, outubro 26, 2005

O Furacão Stan e o Autismo


Tsunamis e furacões inundaram grandes extensões territoriais da Ásia e da América do Sul, bem como o sul dos Estados Unidos, que pretendem ser o Norte do Mundo.
Invadem telejornais, notícias radiofónicas, placards luminosos das urbes, periódicos e os e-mails com imagens desoladoras, que nos deixam prostrados e impotentes perante a inusitada fúria da natureza.
Porém, isto não é por acaso...
O mal tem um nome:arrogância!
A arrogância dos países ricos, como os USA, cujo presidente reeleito recusou assinar protocolos mundiais para reduzir a poluição, que acaba sempre por afectar os países mais pobres, com menos recursos para fazer frente às catástrofes naturais.
Lembro-me sempre de um poema de Brecht que diz:
"Do rio que galga as margens
Toda a gente diz violento
Mas ninguém critica
as margens que o comprimem"
No México, o Stan engoliu aldeias, memórias, vidas.
Porque é visita deste blogue, e portanto voz próxima desse sofrimento e fraterno companheiro de artes e bloguices, prometi a La Scimmia di Filo que faria qualquer coisa...
Transcrevo do seu blogue "El Mono de Alambre" (11 de Outubro):

"Mi herencia chiapaneca, la carga genética que me une con el Soconusco, se debate entre el dolor y la estupefacción: el pueblo de mis padres incomunicado, el pueblo donde nació mi abuelo, Motozintla (único lugar, hasta donde sé, donde crecen burros con el cabello rizado) destruido por completo. Lo que queda, por ahora, es la solidaridad y la acción.
Quienes deseen ayudar a los damnificados del
huracán Stan en Chiapas, pueden hacer donativos, desde cualquier cantidad, depositando en las siguientes cuentas:
BANCOMER 00149168338
BANORTE 00195581324
SANTANDER SERFIN 65501811915
BANAMEX 01790116212
O bien puede cooperar con artículos que allá se requieren con urgencia (alimentos enlatados o no perecederos, agua, ropa en buen estado, zapatos, pañales y cobertores, NO MEDICAMENTOS) a la Representación del Estado de Chiapas en el DF, sito en Toledo # 22 Colonia Juárez, o al estacionamiento número 8 puerta 1 del Estadio Olímpico de Ciudad Universitaria (del 10 al 14 de octubre, de 9 a 18 horas).
Los amigos que vivan en otros puntos de México pueden indagar cómo hacer llegar ayuda, lo mismo que mis colegas en el extranjero.
Demos una mano; no hablamos de altruismo, sino de mínima empatía.
Aguante mis paisanos, carajoooooooo.
Salut."
(fotografia de LFM: ilhas Kerkennah, Tunísia)
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terça-feira, outubro 25, 2005

Post nº300, a propósito de uma Aparição Muito Especial


"Águas do Sul" começou em 1 de Agosto de 2004, completando com este artigo 300 postagens. Um ano depois, começou o "Aparição 69", que tendo apenas 3 meses completou ontem as cento e quinze postagens.
Feito a duas mãos e com muita loucura, merece a vossa visita e os comentários que bem vos aprouverem... até porque existe "para dizer bem"...
(imagem descoberta na net)
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Dar a Cara para Denunciar O Pesadelo de uma Viagem de Intercidades na Beira Baixa


Transcrevo a carta enviada por e-mail ao Jornal do Fundão, com conhecimento ao vereador da cultura da Câmara Municipal da cidade das cerejas:

Exmo Sr. Director do Jornal do Fundão, Dr. Fernando Paulouro Neves:

No passado domingo dia 23 de Outubro, como é costume, um amigo de Alpedrinha teve a gentileza de me dar boleia até à estação dos Caminhos-de-Ferro do Fundão, para poder embarcar no Intercidades para Lisboa, que pára naquela estação às 15h 51m

Ao contrário do que era habitual, a bilheteira encontrava-se encerrada, e entrei no comboio sem bilhete e, como eu, dezenas de utentes que ali apanharam a composição, na sua maioria estudantes.

Sentei-me na carruagem 26 e, apercebi-me, estupefacto, que o revisor solicitou a alguns clientes (que tinham entrado no Fundão) que se dirigissem à carruagem 28, com um bilhete que ainda não lhes garantia lugar seguro, pois teria de o confirmar por telemóvel à estação de Castelo Branco.

Ainda sem bilhete e alarmado com aquilo que acabara de observar, embora com a promessa do diligente funcionário de ficar instalado em assento provisório, a confirmar, atravessei o comboio no sentido de chegar à bem-aventurada carruagem 28, que supus estar reservada para estes casos.

Qual não é o meu espanto, quando uma avalanche invade a composição, ostentando o bilhete, afastando os desafortunados fundanenses das cadeiras, decorrendo a viagem até ao Entroncamento em ritmo de “thriller”, num constante saltitar de lugar para lugar, para alguns, tratados como se fossem prevaricadores clandestinos ou meros passageiros penetras. Embora pagando o mesmo que os felizardos que ainda têm bilheteiras ao seu dispor.
Assim se viajou. Sempre na iminência de ter de ceder o lugar a quem chegava munido de comprovativo.

Muita gente não tem nem nunca terá hipótese, por vários motivos, sobretudo os mais idosos, oriundos de um mundo rural em extinção, que a atabalhoada modernidade ocupa com estes mimos de civilizada exigência, acesso à Internet ou ao Multibanco para avisadamente reservar um milagroso ticket.
O que significa que estarão sujeitos às agruras que os argutos e inteligentíssimos gestores das siamesas CP/REFER impõem à populaça.

Como sou consequente com o que defendo, já coloquei num marco de correio dos CTT o meu veemente protesto para a CP.

Solicito e agradeço que o Jornal do Fundão retome esta problemática, porque cada utente da cidade das cerejas está a ser utilizado como cobaia de experiências constrangedoras, tratado como gado transportado em vagons de mercadorias.

Está em causa a qualidade de um serviço, que, pomposamente, o actual primeiro-ministro apregoou aos quatro ventos da comunicação social ter atingido uma melhoria, que merecia celebração mas na realidade é mais um exemplo da sua política de Pinóquio, pois além deste desaforo, os atrasos são constantes.

Não me lembro deste Intercidades (e utilizo-o frequentemente) ter chegado às 19h 30m da tabela. O usual é entrar em Santa Apolónia sempre perto das 20h, o que constitui publicidade enganosa e serviço fraudulento, para aqueles que pagam mais na mira de chegarem mais cedo.

Daqui apelo igualmente a todos os autarcas eleitos para o Executivo e Assembleia Municipal do Fundão, no sentido de defenderem os interesses da população da região postos em causa com este descalabro que têm impactos negativos em termos sociais e turísticos.
A título de exemplo, durante a viagem conversei com um senhor que tem de se deslocar com frequência à capital para se submeter a tratamento oncológico…

Até quando a artificiosa redução de custos das estatísticas manhosas vai sobrepor-se aos direitos básicos que as gerações anteriores conquistaram para podermos viver melhor?

Para quem como eu, e digo-o sem petulância mas com muita mágoa, já viajou nos comboios da Tunísia, que vão de Tunis a Gabès, ou de Tunis a El Kef, Bizerte ou Beja, com bastante agrado pela pontualidade e qualidade dos serviços prestados, Portugal está, por culpa de administrações que preferem não pagar mais uns euros ao bilheteiro do Fundão, no 4º Mundo em termos da linha da Beira Baixa, pois os horários em vigor obrigam os que têm menos possibilidades a fazer esta viagem, mudando várias vezes e demorando muito mais tempo para chegar ao destino pretendido.

Quando será que acordaremos deste pesadelo?

Luís Filipe Maçarico

(fotografia de São Baleizão)

domingo, outubro 23, 2005

Outubro em Alpedrinha














Durante uma semana revi lugares e rostos. Conheci outros sorrisos e sítios, sempre na terra mágica de Alpedrinha.
Foi bom de ver e sentir, depois de um Verão excessivo, a água que jorrou dos céus, galgou a serra, dançando de novo nas fontes, limpando o ar, agora mais respirável por aquelas paragens.
A Gardunha ficou de novo encantada, com o cântico das águas.
Andei com as pessoas no campo, saboreei ameixas e romãs, medronhos e diospiros.
Fazer férias cá dentro é isto: beber jeropiga com a São, provar o licor da Piedade, as farófias da Maria dos Anjos, sardinhas deliciosas na pensão Clara, um churrasco com o Hugo e os seus companheiros de aventuras, falar de poesia com o Francisco e o dr. João Mendes Rosa, no Fundão, ver os bácoros e os chibinhos da Amélia, na quinta dos Bacelos, olhar as peças do museu da Liga dos Amigos de Alpedrinha, conversar com a dona Manuela e com a Marília, fugir de uma chuvada enorme e assistir a um concurso de cães de raça - e descobrir o dr. João Costa a apaparicar o Galileu, beber um cafezinho no Moisés, encontrar rostos familiares no café da dona Maria José, fotografar uma rosa para partilhar com os amigos a beleza efémera das flores são momentos inesquecíveis que uma terra como esta proporciona. Quando é que vêem conhecer Alpedrinha?
(fotografias de LFM; quadro de Isabel Aldinhas)

sexta-feira, outubro 14, 2005

Exposição da Aldraba no Museu República Resistência-Espaço Grandella


A Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, inaugurou no início desta noite, pelas 19 horas, no Museu República e Resistência/Espaço Grandella, a segunda exposição desta Associação. Jorge Rua de Carvalho, lisboeta, homem do fado operário, marceneiro reformado, poeta, associativista, actor amador, é o homenageado - através dos seus bonecos (mais de 200) que recordam as brincadeiras de infância dos anos 20/30 e os pregões da cidade.
De segunda a sexta pode ver a mostra e levar lá os seus filhos e netos. Horário: 10-18horas. Até dia 4 de Novembro.
O Espaço Grandella fica na Estrada de Benfica, nº 419.
(fotografia de LFM)

quarta-feira, outubro 12, 2005

Poema para Dois Bloggers Tunisinos/Poème pour Deux Bloggers Tunisiens


Hoje vou publicar uma parte do post em português e outra em francês para saudar dois bloggers tunisinos, cujos endereços aparecem aqui mais abaixo, no início do texto em francês, ou em alternativa, nos links.
Deliciem-se a descobri-los, aproveitando para treinar o vosso francês.
Quanto ao poema, apareceu por aqui em português, há alguns meses. Se forem aos arquivos e tiverem um bocadinho de paciência encontram-no. É uma homenagem ao poeta nacional tunisino Aboulkacem Chebbi.

J'ai l'honneur et le plaisir de offrir aux amis ZIZOU http://zizoufromdjerba.blogspot.com/ et ADIB http://adibs1.hautetfort.com/ un poème que j'ai écrit a Tozeur:

Aboulkacem Chebbi

Dans la tendresse du chant fluide des oiseaux
j'écoute ta balade de cithare enchantée
oh poète des sables sans mer
et du silence où les dattes sont en miel
la parole devient grenade sur tes lèvres
et l'oasis un poème eternel.

(postal recolhido na net/carte postal découverte dans l'Internet)

terça-feira, outubro 11, 2005

A Verdade Distorcida

Com a devida vénia, transcreve-se o blogue de João Costa Pereira de Coruche

http://barbosibordalos.blogspot.com

"Vamos lá a fazer bem as contas

Muita gente anda alarmada com os resultados eleitorais obtidos pelos candidatos de Gondomar,Felgueiras e Oeiras.

Aqui del-rei que o "poder" dos ditos cujos é um "ultraje" à ética e moral politica.
Que as populações dos respectivos concelhos não andará com muito "tino" ao fazer as escolhas que fez, é convicção de grande parte do país.

Tirei-me cá dos meus cuidados e fiz uma continhas muito simples . O resultado é o seguinte:

Fátima Felgueiras
-Eleitores inscritos: 45.462.
-Votos obtidos: 16.761
-Em cada 100 eleitores inscritos no concelho SÓ 37 votaram Fátima Felgueiras.
-Em cada 100 eleitores inscritos no concelho 63 NÂO votaram em Fátima Felgueiras.

Valentim Loureiro
-Eleitores inscritos: 132.948
-Votos obtidos: 48.826
-Em cada 100 eleitores inscritos no concelho SÓ 37 votaram V. Loureiro
-Em cada 100 eleitores inscritos no concelho 63 NÂO votaram em V. Loureiro

Isaltino Morais
-Eleitores inscritos: 137.695
-Votos obtidos: 26.404
-Em cada 100 eleitores inscritos no concelho SÓ 20 votaram I.Morais
-Em cada 100 eleitores inscritos no concelho 80 NÂO votaram em I.Morais

Como se constata a esmagadora MAIORIA dos eleitores NÃO VOTOU nas criaturas.

O Povo na sua secular sabedoria.

Para que os "politicos de meia tijela" meditem, se para isso tiverem capacidade.

(Na foto - de LFM - o actor Jorge Neves)

segunda-feira, outubro 10, 2005

Cesário


1.
Em versos de apuro delicado
dignos de paleta genial
com dor e euforia está gravado
o tédio de viver em Portugal.
2.
Amou a cidade como ninguém
cantava um campo só de alegria
colhia o colorido que tudo tem
sonhava a impossível harmonia.
27.9.88
Luís Filipe Maçarico
in "Antologia de Homenagem a Cesário Verde", ed. Câmara Municipal de Oeiras, 1991

domingo, outubro 09, 2005

A Derrota do PS


Venho por este meio agradecer aos senhores do Partido Socialista o facto de terem traído a coligação de esquerda, que houve em Lisboa.
Na freguesia onde resido, a vitória foi para o PSD. Tal como na Câmara Municipal de Lisboa.
Para os Coelhos espertalhaços e para os Fócrates, de fígados azedos, que nada aprenderam com o pantanal de Guterres e passaram estes meses a zurzir em quem trabalha, roubando o futuro e a esperança ao povo, a derrota nestas autárquicas é a resposta para uma política que Jerónimo de Sousa, definiu como a de uma comissão de serviço do primeiro-ministro ao grande capital. Primeiro-ministro elogiado agora mesmo (22h51m) na Antena 1, pelo major de Gondomar. O que diz tudo.
(Na imagem, de costas, uma sobrevivente do pantanal liminiano de Guterres, depois de se ter dividido pelas campanhas de Manuel Maria, Assis e João... "Continuamos de tanga!"assegurou.)

quinta-feira, outubro 06, 2005

Ecos da Campanha Eleitoral na Freguesia de Prazeres


Manuel Maria pavoneou-se num palco montado pelo partido da rosa e da mãozinha, na Praça da Armada, prometendo tudo. Toda a gente sabe que promessas leva-as uma ligeira brisa, que estes políticos são muito voláteis...
A maioria dos escassos e pouco convictos comensais (5 dezenas?) que por lá andaram, agitando bandeiras que tinham imenso espaço para rodopiar, tais eram as clareiras, provavelmente estariam mais interessados no petisco, patrocinado pelos senhores que pretendem levar Soares de novo ao trono.
Porém, mais constrangedor foi o facto do entertainer de serviço nunca se ter referido ao candidato do partido-cabetudo à freguesia, apelando sempre ao voto no candidato-vedeta à Câmara de Lisboa.
Aliás, a postura do entertainer, enquanto ponta do iceberg, talvez explique uma parte do atraso do nosso país.
Com acordes metálicos bem vincados, um som tremendo que atroava longe dali, o cantor de serviço espalhou aos sete ventos a intenção de "chupar os peitos da cabritinha" e convictamente nostálgico soltou um vigoroso "Ó Tempo Volta Para Trás", misturando Zeca Afonso, à saída, provavelmente para não ficarmos a pensar que se desenrolava ali um comício de um qualquer grupelho saudosista.
Admiram-se os investigadores de ainda hoje a prioridade de muitos autarcas ser o saneamento básico. Pudera, com intervenções culturais de tão belo quilate, em que um candidato, que foi ministro da cultura, tem à sua volta este esmero...é caso pra dizer: mas esta cambada pensa que somos todos uns camelos?
(fotografia de Rafael Pina) Posted by Picasa