"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, setembro 01, 2005

Uma Camponesa que vale ouro


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Primeiro, conheci-a através de versos inspirados, que brotam da sua alma andarilha e fraterna. Cada palavra de um poema da Rosa Dias é a voz da sabedoria, misto de experiência, beleza, simplicidade e humanismo. Atrevo-me a dizer com o mesmo equilíbrio de sabores que um bom cozinhado alentejano tem. A Rosa é de Campo Maior, publicou as "Toadas Alentejanas" que tive a honra de apresentar na terra do café, com Isabel Wolmar, José do Carmo Francisco e pedro Albuquerque.
Com ela tenho participado em belos recitais, que aconteceram nas colectividades de Lisboa e da margem sul, além de inesquecíveis momentos em Alpedrinha, nos últimos três encontros de poesia, onde actuou ao lado de poetas locais e nacionais, com imenso agrado por parte da população daquela vila da Beira Baixa.
Ouvi dizer que a querem de novo por lá, na Feira da Transumância...
Do muito que posso partilhar sobre ela, e dela só sei falar de coisas exaltantes e solidárias, pois é uma força da natureza, direi que é dos poucos poetas de quem conheço de cor uma quadra, esta:
"Chamas bruto a quem trabalha,
Inculto a quem não estudou...
Mas vás comendo o produto
que este bruto semeou!"
Gosto muito da Rosa Dias, é uma pessoa a valer. Poeta cinco estrelas, amiga excelente. É caso para dizer que a poetisa que é camponesa, escreve de facto o que sente. E o que sente vale ouro.
(fotografia de Paula Lucas, em Viana do Alentejo, durante o segundo encontro da Aldraba)

quarta-feira, agosto 31, 2005

Alpedrinha em Festa


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Estão todos convidados a visitar Alpedrinha no terceiro fim de semana de Setembro (16,17 e 18) para vivenciarem uma festa única.
Precisamos todos do convívio, do petisco, do docinho, do sorriso,de alegria. De tambores e palavras fraternas para exorcizar um tempo que não é de veludo.
Vai ser o quarto ano consecutivo de uma iniciativa, que uniu como nunca a população, em torno da salvaguarda do seu património e da sua identidade.
Do folclore às exposições, dos concertos de música clássica na Capela do Leão à poesia, das tasquinhas à venda de produtos da terra, da animação das ruas que para lá dos cheiros e do colorido, contempla a passagem dos chocalheiros e do rebanho,esta iniciativa é imperdível.
Por isso com quinze dias de antecedência resolvi partilhar a notícia. É que a esta hora, alojamento provavelmente só se encontra fora da vila monumental. O que não deve obstar ao prazer de ir lá.
(Foto de Paula Cristina Lucas da Silva, onde se vê ao centro o actual presidente da direcção da Liga dos Amigos de Alpedrinha, professor Carlos Ventura e o grupo dos Zabumbas, que se estreou na última festa.)

terça-feira, agosto 30, 2005

A Alheira Moralista


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Na terra das alheiras,a responsável pela educação, em nome da moral e dos bons costumes, decidiu retirar dois quadros de uma pintora, com nus, por ofenderem os olhos das crianças.
Segundo o jornal "Público" de hoje, página 49, suplemento Local, as telas têm enquanto carga erótica apenas uma romã mordida. Pudor excessivo ou extrema insensibilidade?
Se o/a leitor/a deste blogue conhece Eça de Queiroz e encontra várias similitudes entre a prosa daquele escritor e este tempo, se acha que a História está sempre a repetir-se, ao contrário do que se diz em certas esferas, perante este acontecimento,celebre a atitude com o óscar(alhinho) que os moralistas merecem.
A imagem que partilho foi-me enviada por F.D. e ocorre-me Gedeão, na "Fala do Homem Nascido": "e as forças da natureza/nunca ninguém as venceu".
É devido à prepotência e pesporrência dos fascistóides que a existência de todos os que acreditam na luz e no futuro só tem um sentido: a luta constante, contra a sombra.
Este é o meu contributo.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Uma Mão Cheia de Notícias Breves


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1-Já tenho a net a funcionar comme il faut em casa.
2-Durante duas semanas, a partir de amanhã, vou ser menos assíduo. Motivo: preparação da dissertação, que se aproxima a passos de gigante.
A vida é isto: saímos de túneis, vemos um rasgo de claridade e entramos num novo túnel...faz lembrar certas auto-estradas da Itália...
3-Vou à Festa do "Avante", que é já a seguir (dias 2,3e 4). Tenho saudades de dar um abraço ao João, ao Raimundo, ao José e rever a Paula, o Fernando, o JP,a Maria Alice, a Dina,a Emília, o Moreira...tantos amigos!!!
4-Também vou ver a Simone ao Coliseu, dia 8.
5-No fim de semana de 16, 17 e 18 de Setembro,em Alpedrinha,realiza-se mais uma Festa dos Chocalhos/Feira da Transumância. Quero ver se não falto!
De tudo isto conto informar-vos com os detalhes que leitores cinco estrelas merecem.
(fotografia de LFM-entrada do castelo de Monsanto)

sexta-feira, agosto 26, 2005

Lembrança de Agosto 2004






Decidi colocar mensalmente, a selecção do ou dos posts que me parecem melhores, de há um ano atrás. Começo este espaço da memória com um texto, que ao reler me pareceu mais interessante, relativamente a tudo o que postei aqui no "águas", em Agosto do ano passado:

MILITANTE SOLAR
Sou militante do sol. Adoro acampar, mas desde 2000 que não passo uma semana tão deliciosa, como aquela que a Guida e a mãe Clarinda me proporcionaram em Portimão...
Devia ser sempre Junho, Julho, Agosto...Grilos e cigarras, melros e jacarandás entrando nos textos, despertando-nos em cada alvorada.
Eu voto no sol. Sou apoiante do Verão.
Dormir de janela encostada na brisa, escutando o chafariz do largo onde moro a derramar acordes de água luarenta, é um privilégio.
Eu sou um dos adoradores da luz, do calor deste sol que me anima, e persigo, seja em Lisboa, em Havana, na Lajinha ou em Djerba.Ou ainda em Dubrovnik, Nacala, Arrifana, Tozeur, Alpedrinha ou Aegina.
Tomo duche frio, ando pela casa de peito ao léu, descalço. Visto tee-shirt para sair à rua e perco os olhos no mar.Dentro do qual o sol se enrosca, quando a noite chega para se espreguiçar na manhã seguinte.
Dispenso as sombras geladas de Outono, as chuvas de Dezembro, as friagens traiçoeiras de Novembro, a tristeza de uma paisagem invernosa, o gelo de certas manhãs do Porto, em Janeiro.
Apetece fugir, mudar de país, quando o sol não aparece.
Ontem estive na praia e garanto-vos que não me apetecia tornar à rotina. Desejei ser daquele lugar, pertencer ao jogo de luz que transformava todos os seres em aparições de cristal e ouro, fossem pessoas ou insectos, algas ou gaivotas...
Resta-me de consolo o saber que um dia voltarei lá, à essência marinha, ao ar refrescante do fim de tarde, à textura das dunas, ao corpo do silêncio, onde mergulham todos os passos, todos os sonhos, todos os cansaços.
Para ficar mais perto do sol.
7 e 15/8/2004
(fotografia de LFM-pôr do sol em Seixo, visto de Valongo do Côa, em Agosto de 2005)

quarta-feira, agosto 24, 2005

Uma Esplanada Muito Especial na "Nave de Pedra"*


No passado fim de semana, desfrutei da paisagem de Monsanto, percorrendo quelhas e calçadas, a caminho do castelo. Depois, na descida, a via foi outra: pelos penedos ajuntados, por veredas entre penedos de granito e visões de cortar a respiração, que nos põem mais perto do céu. Durante a subida, descansei corpo e alma num miradouro, onde descobri esta esplanada...
Sobre esta terra vale a pena consultar a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova em:
*Nave de Pedra é o nome de um livro de Fernando Namora, que em Monsanto exerceu durante anos a medicina, junto de uma população de camponeses e contrabandistas.
(fotografia de LFM)Posted by Picasa

Lenda das Marafonas


Maria Ressurreição Rolão costuma oferecer aos apreciadores das suas marafonas (bonecas de trapos feitas à mão) uma lembrança singular - a lenda das marafonas.
Ligadas a Maia*, deusa da fecundidade dos pagãos, as marafonas não têm olhos. De cores garridas, o vestuário forra uma cruz de madeira, que os monsantinos supõem ter o poder de afastar as trovoadas...
*Na mitologia grega, MAIA, mãe do deus Hermes e a mais importante das "irmãs" (representadas pela constelação das Pléiades) deu origem ao nome deste mês. Maia, também chamada de MAIUS pelos romanos, era a deusa do calor vital, da sexualidade e do crescimento. Neste mês, em homenagem a deusa Maia (deusa do fogo que regia o calor vital e a sexualidade), era permitida uma certa liberdade sexual. Posteriormente, na igreja católica esta data foi dedicada à Maria, a rainha do céu e, em lugar dos rituais sexuais da fertilidade, declarou-se maio o mês dos casamentos. Recolhido em: www.usinadeletras.com.br
(fotografia de LFM) Posted by Picasa

A Fazedora de Marafonas


Maria da Ressurreição Rolão tem oitenta anos e mora na Rua da Azinheira, em Monsanto. Criadora de Marafonas, esta senhora também canta e toca adufe. De uma e outra arte sei que é exímia. Em tempos, foi com o grupo das Adufeiras de Monsanto à Jugoslávia. Tinha um burrinho branco. Vendeu-o há meia dúzia de meses, na sequência da morte do marido. As palavras e o olhar são menos alegres. Mas é ainda uma velhota meiga e bonita...
(fotografia de LFM)
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Terra da Poesia


Volto no tempo das cerejas
Aos sítios mágicos.
Manhãs de melros e
Músicas de sorrisos desabrocham
Entre árvores e versos.
Volto nos dias de lume
Com uma sílaba festiva
À Terra da Poesia!

26-6-2004
(Alpedrinha-fotografia de LFM) Posted by Picasa

Sede de Música


Esta noite há uma janela
Com estrelas frias e o mais antigo
Silêncio que as minhas veias
Conhecem. Já vi a Gardunha
A arder, amigos perdi
Na incessante errância
Pelos atalhos do Mundo e
Ainda hoje não sei se procuro
Um jardim de ilusões
Na tinta de lumes
Ou a breve
Respiração da vida numa
Vereda de ciprestes.
Esta noite, há um murmúrio
De seivas e vozes
No ventre da terra
Com sede de música.

Alpedrinha, Outubro de 2003

(fotografia de LFM-chafariz de D.João V)

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terça-feira, agosto 23, 2005

Palácio do Picadeiro


Presidentes da República e Primeiros Ministros visitaram o espaço e prometeram mundos e fundos. No início dos anos 80 escrevi no jornal da Liga dos Amigos de Alpedrinha que aquele monumento estava entregue às galinhas, transformado em capoeira, num abandono e incúria gritantes.
Sábado passado, o espanto foi enorme ao ver esta imagem. Decorridos vários decénios, ei-lo repleto de andaimes, coroado por um guindaste, a caminho do futuro.
Esperemos que a recuperação seja harmoniosa e Alpedrinha e o concelho do Fundão ganhem um novo edifício, onde a tradição e a modernidade coexistam, sem reboliço e mágoas...
(fotografia de LFM) Posted by Picasa

Termas do Cró-II


A água com cheiro a enxofre ainda sai de uma torneira, mas todo o espaço das Termas do Cró exala uma melancolia decadente que motivou algumas frases escritas nas paredes em ruína, como estas: "Não estraguem mais!" e "Por favor recuperem!"
A quem interessará a degradação deste espaço?
(fotografia de LFM)Posted by Picasa

Termas do Cró-I


Sábado passado visitei as Termas do Cró, perto de Valongo do Côa. Contaram-me que por ali chegaram a estar 500 pessoas, entre utentes e pessoal do apoio terapêutico. Disse-me um informante que as freiras que asseguravam o funcionamento das Termas trataram do seu desmantelamento, na sequência do 25 de Abril, acometidas de súbitos receios, que nenhuma água medicinal cura. A minha avó costumava dizer que "a água tudo lava... só não lava é a má-língua..."
(fotografia de LFM) Posted by Picasa

Ponte Sequeiros-II


Dentro da ponte de Sequeiros, a bela jóia de Valongo do Côa, que integrava as vias romanas, existe a antiga "portagem", segundo um habitante, que me relatou "Antigamente, de um lado era Espanha e do outro Portugal, e tinha de se pagar a portagem, porque aqui era a fronteira..."
Não pude confirmar o depoimento, mas mesmo que seja lenda, pensei que seria interessante ilustrar a imagem com estas palavras de um popular...
Para mais informações acerca das vias romanas, vale a pena visitar um trabalho de Pedro Soutinho:
(fotografia de LFM) Posted by Picasa

Ponte Sequeiros


Sexta feira passada fui até à bela aldeia de Valongo do Coa e fiquei maravilhado com este monumento - a ponte Sequeiros, romana. Agradeço ao Mané, à Carla, à D. Mariana e ao sr. António os momentos agradáveis que me proporcionaram. Não podia deixar de partilhar com os meus leitores...
Para quem quiser saber mais acerca desta terra, sugiro que visite http://valongo.free.fr
(fotografia de LFM)Posted by Picasa

quarta-feira, agosto 17, 2005

A Poesia das Pequenas Coisas


São pequenas cintilações quotidianas, livros, fotografias, desenhos, postais, velhos brinquedos. A memória respira neles. A infância e os amigos que já partiram perpetuam-se nestes objectos biográficos. A poesia pode nascer, subitamente, no simples acto de olhar para um destes fragmentos da existência.
(foto de LFM) Posted by Picasa

terça-feira, agosto 16, 2005

Olá, Artur Bual!


Desde aquela tarde de domingo, em que o entrevistei na Rádio Horizonte da Amadora, que fiquei seu amigo. Estávamos então no Outono de 1987. Eu olhava para o seu rosto carregado, e de repente, o gelo quebrou-se e o Artur Bual disse a frase mágica "está um pôr-do-sol com um dourado que parece saído de um tela de Leonardo"...
As visitas ao atelier, a participação em exposições, a partilha de versos e telas, de textos e silêncios, começou nesse dia, numa profícua colaboração. Bual foi sempre ao lançamento dos meus livros. Mesmo quando nesse distante Verão de 1992, o "Mais Perto da Terra" foi oferecido ao povo de Alpedrinha. O Grande Artur esteve lá, apesar do calor e da sua dificuldade de respirar. Quis lá estar, foi assim sempre.
Julgo ter retribuído com a mesma dedicação: recordo que me meti num comboio para Leiria, numa noite tenebrosa de chuva, vento, lama, em Novembro. Com uma gripe, mas com a vontade de estar na Escola Superior de Educação, a vê-lo pintar com os jovens, a acompanhá-lo nesse momento tão importante para ele, em que a sua arte se derramava na pele do quadro e era como se renascesse dos cansaços e das traições a que todos os criadores estão sujeitos.
O coração falhou no início de Janeiro de 1999. Foi o tabaco, a respiração, o desregulado ritmo cardíaco, os falsos amigos que o adulavam e lhe sacavam energia, sangue, pintura...
Para trás ficava uma existência repleta de inquietude, a inquietude dos criadores que se sentem sós, não obstante estarem rodeados por vezes, de uma enorme corte. Mas acima de tudo, uma vida vivida à escala que ele desejou.
Recordo-me de ele ter esperado por um secretário de estado da cultura, durante a inauguração de trabalhos seus, numa galeria de Oeiras. Como Sua Excelência não aparecia, decidiu ir jantar. Durante a refeição, solícito, um responsável da galeria tentou demovê-lo, para ir ao beija-mão do governante atrasado, que finalmente chegara. "Agora é a minha hora sagrada de jantar. Ele que viesse mais cedo!" respondeu Bual, tornando à galeria depois de ter saboreado o alimento.
Na viragem do século um grupo de amigos decidiu perpetuar o seu nome, a sua obra. Por isso existe o Círculo Artístico e Cultural Artur Bual, dirigido por José Ruy. E neste dia 16 de Agosto, em que se fosse vivo, completaria 79 anos de vida, não posso deixar de lhe dizer: "Olá, Artur Bual!"
(fotografia de LFM)
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sexta-feira, agosto 12, 2005

Uma Notícia Boa


O meu amigo José Rodrigues, que no passado fim de semana partiu para a Suíça, enviou-me ontem uma mensagem a dizer que estava em Veneza, maravilhado com aquele lugar do planeta. Também eu queria estar longe. Por isso, vou passar estes dias com a Ana, saborear momentos fora da rotina, a ver se a tristeza dos últimos posts acalma e um sorriso se acende no meu caminho.
(fotografia recolhida no Google) Posted by Picasa

quinta-feira, agosto 11, 2005

Inquérito


Que resposta daria à questão "Como baixar as estatísticas de um estudo da União Europeia, que revelam que Portugal somou cerca de metade dos incêndios do sul da Europa? (fotografia, publicada há dois dias no "Público") :
a) O ministro - que já foi da Justiça- diz que tudo se resolverá com mão mais pesada dos Tribunais.
b) O ministro, entrevistado na passada sexta-feira, disse que as estatísticas em seu poder provam que este ano ainda não ardeu tanto como em 2003.
c) Talvez fosse melhor haver um ministério dos Incêndios.
d) A culpa é do povo, que não sabe que
"Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
(...) Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida.
(...) E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

(...) Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

(...) Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

(...) Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht (excertos do poema "Dificuldade de Governar)Posted by Picasa

terça-feira, agosto 09, 2005

A Cinza na Lapela, ou quando os políticos sem categoria decidem Falazar


Dizer tristeza é dizer quase nada da revolta e da mágoa destes dias.
Eles esgrimem com estatísticas e sacodem a cinza da lapela. Eles, os políticos sem categoria, que cada vez mais detesto. Na sua discursata autista, eles não sabem nem sonham que com este falazar mais se enterram, perante um povo enganado.
As palavras dizem nada ou quase, perante a desmedida tragédia destes dias. As florestas que não tinham ardido em anos anteriores acabam de ser devoradas por fogos monstruosos que consumiram num ápice árvores, pessoas, casas e animais.
O "Público" de hoje publicou uma imagem patética, onde um homem muito velho aponta uma mangueira, entre cinzas e ruínas, numa aldeia do devastado interior portugês.
Quem escuta o choro dos anciãos sem abrigo, sem a companhia dos bichos, sem esperança, sem vida?Quem escuta o murmúrio das águas secas? E o silêncio de cinzas das árvores mortas?
(pintura sobre a Toscânia, recolhida no Google) Posted by Picasa

segunda-feira, agosto 08, 2005

Ponto e Traço: A Sabedoria da Paciência


Hoje volto a falar da pintura Manuel Passinhas, celebrando a arte deste galardoado com o 1º Prémio no Concurso de Pintura sobre Contrabando, realizado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas.
Em Maio deste ano, durante o III Festival Islâmico esteve patente ao público a exposição "Ponto e Traço".
Na altura escrevinhei umas impressões sobre as obras patentes nessa mostra que agora torno públicas:
"A pintura de Manuel Passinhas consubstancia a sabedoria da paciência, em que o alentejano é Mestre.
O geometrismo, de forte influência árabe, que integrou a sua recente exposição, realizada em Mértola, no bar Alsafir, surpreendeu-nos pelo apuro, pela beleza, pela harmonia.
Manuel Passinhas transcendeu-se em "Ponto e Traço".
O seu precurso, construído discretamente, atingiu nesta fase um expoente que se celebra.
Passinhas é um pintor digno das palavras mais luminosas, luz que as suas telas irradiam, tocando-nos de uma forma envolvente."
Palavras guardadas, que nunca cheguei a enviar para nenhum jornal alentejano, mas que neste momento faz todo o sentido divulgá-las aqui. Como dizia Rita Maria da aldeia da Luz, "a linha nunca se perde...Posted by Picasa

quinta-feira, agosto 04, 2005

Manuel Passinhas, Pintor


A tela que hoje reproduzo obteve o 1º Prémio no Concurso de Pintura sobre o Contrabando, organizado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Concorreram 8 pintores (o regulamento abrangia todos os naturais e residentes do concelho de Mértola que desejassem participar). Apareceram 18 trabalhos, que um júri, integrado por Santiago Macias, arqueólogo, Guadalupe Godinho, pintora, e José Alberto Franco, em representação da Aldraba, Associação do Espaço e Património Popular, durante 3 horas e meia, classificou com critérios de avaliação e uma transparência dignos de louvor.
Manuel Passinhas pintor, que tem vindo a destacar-se pela evolução do seu trabalho, é o autor da pintura escolhida, que será capa do livro "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas-Um Contributo para o seu Estudo".
O artista está de parabéns, tal como a Junta de Freguesia referida, que teve a ideia inovadora de lançar o concurso e de editar o livro. A qualidade dos trabalhos apresentados foi destacada na sessão da inauguração.
As obras estão patentes até ao final do mês no novo edifício da junta.
(foto de LFM)Posted by Picasa

segunda-feira, agosto 01, 2005

Um Ano de Blogue


No dia 1 de Agosto de 2004 nasceu este espaço de partilha e reflexão, de cidadania e sonho. Com a poesia, palavras quotidianas e o olhar crítico de quem não pede desculpa à vida por estar vivo.
Este blogue embalou o berço de outras peripécias: O Grande Benemérito, Lost Photos, O Guardador do Silêncio, e também os blogues do Jorge, do Nuno, da Zé, da Paula, receberam os primeiros estímulos nestas páginas.
A Aldraba, Associação do Espaço e Património Popular, também nasceu nestas "águas", onde o embrião do Manifesto foi divulgado.
Evitou-se comentar o comentado, mas houve intervenção cívica e solidariedade onde era preciso demonstrar o espírito fraterno de quem navega nestas palavras.
O "Águas do Sul" já foi atacado por gente sem nível. Uma coisa é ter opinião diferente, mas ser discordante não significa ser ordinário.
Nem por isso vou desistir. O projecto continua a ser aliciante para quem escreve e para quem lê. E há leitores que acompanham "Oásis do Sonho" desde Coruche, Montemor-o-Novo, Alpedrinha, Loulé, México, Brasil, Djerba, além dos vários fiéis que incentivam, desde o primeiro momento, o autor destas notas. Uma palavra especial para Teresa, Augusto, Fernando, Ana, Vanda, Isabel, Carlos, Nádia, Sónia. E a palavra mais festiva para a Margarida Alves, madrinha desta aventura.
A todos, a gratidão de uma caminhada com eco, entre sugestões, reparos e apoios.
(Foto de Paula Silva, relógio de sol de Viana do Alentejo)
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segunda-feira, julho 25, 2005

Entrevista ao "Diário do Alentejo"


Transcrevo, com a devida vénia, a entrevista que concedi ao "Diário do Alentejo", publicada na edição nº1213, de 22 do corrente:

Alentejanos: Luís Filipe Maçarico, escritor e antropólogo
“Fui recebido na Tunísia como se lá tivesse nascido”

Nascido em Évora em Outubro de 1952, mas criado desde os dois anos pela avó paterna no popular Bairro de Alcântara, em Lisboa, o escritor e antropólogo Luís Filipe Maçarico é um dos fundadores e presidente da “Aldraba”, uma nova associação para a preservação e divulgação do património popular.

Luís Filipe Maçarico nasceu em Évora mas foi criado e educado pela avó paterna no bairro lisboeta de Alcântara, tendo construído a pulso o seu futuro, numa amálgama diversificada de experiências profissionais e académicas, desde servente de pedreiro a cantoneiro de limpeza até defender um mestrado universitário. Escritor e antropólogo é um viajante de longo curso, tendo no entanto como rota de eleição os países magrebinos e a Tunísia como a sua pátria afectiva, onde diz ter sido recebido "como se lá tivesse nascido".
Com que idade e porque motivo saiu do Alentejo?
-Nasci na Rua das Alcaçarias, freguesia de S. Mamede, em Évora, na noite de 29 de Outubro de 1952. Por ali vivi os meus primeiros meses de existência, tendo sido depois criado pela minha avó paterna num primeiro andar de Lisboa, onde ainda hoje moro.
Nos seus livros há um profundo apelo às sonoridades e ao enquadramento social e estético dos países do Magrebe. A que se deve essa "punção" criativa?
-Eu diria que é o sul das coisas essenciais de Eugénio de Andrade, como muito bem assinalou Fernando Palouro Neves, perpassando todos os meus versos e livros, dois dos quais foram publicados sobre e no Alentejo (O Sabor da Cal, Beja, 1997, e A Celebração da Terra, Évora, 1999). A Itália, a Beira-Baixa e Lisboa também estão presentes no conjunto dos meus 14 livros de poemas. E depois há inéditos que cantam a ternura e a aridez de Cabo Verde. A luz, a terra, a água, o vento... e um silêncio que me acompanha desde a infância, mais a sede do encontro, são alguns dos temas principais da minha poesia. É o sul da essência e da errância, o sul do afecto e da partilha que pulsa nessas palavras... A influência magrebina irrompeu somente em Os Pastores do Sol, que é um olhar sensível acerca da Tunísia, onde fui recebido como se lá tivesse nascido.
Sabemos que está envolvido num projecto que dá pelo nome bem alentejano, e com fortes reminiscências árabes, de "Aldraba". Quais os objectivos dessa nova associação e que iniciativas já foram realizadas?
-A "Aldraba – Associação do Espaço e Património Popular" é um projecto novo, de carácter colectivo, onde não se pratica o culto a "gurus" ou notáveis, não havendo associados de mérito nem de cariz grupal.
As únicas equipas estimuladas são as do trabalho, para apoiar a direcção, na concretização das iniciativas do programa de acção proposto na sua Assembleia-Geral Constituinte.
Tendo começado com 80 associados, que decidiram fundá-la em 25 de Abril deste ano, portanto há apenas três meses, foi desde logo proposto e aceite que o número a atribuir a cada um desses associados dianteiros correspondesse ao da ordem alfabética e é de realçar que nenhum dos elementos da comissão promotora integra os primeiros sete associados.
Além deste aspecto formal, o que distingue a "Aldraba" de muitas instituições congéneres é que a prática da sua direcção e dos restantes órgãos sociais se baseia na vontade de ser útil à comunidade e não de ter um ascendente sobre os outros cidadãos pelo facto de pertencerem à associação.
Estatutariamente, a nossa associação "tem como objectivo ser um ponto de encontro e de comunicação para a preservação e divulgação do património popular nos espaços onde ele se encontra, através da pesquisa, recolha e tratamento das memórias, dos sítios, das pessoas, dos grupos e das colectividades".
Antes da sua constituição formal, a "Aldraba" tinha realizado ainda em 2004 dois encontros de convívio e reflexão do seu núcleo promotor, em Montemor-o-Novo e Viana do Alentejo, e organizado, já em 2005, num espaço municipal de Lisboa – o Museu República e Resistência – a exposição "Aldrabas e Cataventos", visitada por muitas dezenas de pessoas e que mereceu divulgação televisiva (TVI) e na imprensa.
No dia 2 do corrente, um sábado, foi realizado um encontro nos concelhos de Mourão e Moura, com visitas ao Museu da Luz e à albufeira do Alqueva, com 50 participantes, que percorreram de barco uma parte do maior lago artificial da Europa, entre a Estrela e a barragem, regressando de novo à Estrela, onde teve lugar uma confraternização com dos grupos corais (o da aldeia de Luz e o feminino Brisas do Guadiana).
A população da Estrela foi convidada a participar no evento, tendo as cerca de 100 pessoas ali reunidas, interagido numa rica partilha de experiências e sonhos.
Neste momento estão a ser estabelecidas parcerias com diversas autarquias e associações, como é o caso da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Vila (Montemor-o-Novo) e do Ateneu Comercial de Lisboa – no sentido de apresentarem a exposição "Aldrabas e Cataventos" – e da Junta de Freguesia de Aljustrel, a propósito do centenário do nascimento do poeta, notário e esperantista Adeodato Barreto, tendo sido formado para o efeito um grupo de trabalho que integra alguns associados e o conhecido sindicalista Kalidás Barreto, filho do notável cidadão a homenagear.
Entre outras iniciativas já agendadas para este ano, destaque para a edição de um primeiro caderno temático e uma exposição em Lisboa, no mês de Outubro e de novo no Museu República e Resistência, sobre o nosso associado Jorge Rua de Carvalho, com a produção de um documentário sobre esta popular figura "alfacinha", tendo como referência os pátios, as colectividades, as cegadas, o teatro amador, o fado operário e os pregões.
Pensa regressar em dia em definitivo ao Alentejo?
-Face à gritante falta de qualidade de vida que as cidades como Lisboa evidenciam, cada vez mais anseio um retorno às origens, essa "Pátria do Sonho", onde ainda há quem resista ao bloqueio da estupidificação e do individualismo, que contamina tudo e todos. Alentejo, terra amada!
BIOGRAFIA
Luís Filipe Maçarico nasceu em Évora no dia 29 de Outubro de 1952, mas desde a infância que vive em Lisboa no característico bairro de Alcântara.
Actualmente quadro técnico superior na Câmara Municipal de Lisboa, onde chegou a desempenhar as funções de cantoneiro de limpeza, possui o mestrado em Antropologia (Patrimónios e Identidades), tendo apresentado como tese: "Os processos de construção de um herói do imaginário popular: o caso do pugilista Santa Camarão".
É autor de uma extensa e diversificada obra literária, sobretudo ao nível da poesia, com destaque para Da Água e do Vento e Os Pastores do Sol.
Entre os vários cargos que já desempenhou no movimento associativo foi dirigente da Casa do Alentejo e da Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio. É presidente da direcção da "Aldraba – Associação do Espaço e Património Popular".
autor Manuel Geraldo texto Miguel Fernandes foto (no jornal)
Foto publicada aqui:Em casa de Mabrouk e Monia, com a poetisa estremocense Maria Conceição Baleizão, co-fundadora da Aldraba.
NOTA: A vermelho e bold, algumas gralhas corrigidas. No jornal saiu Castro Verde e médico...Posted by Picasa

Mabrouk


Podia titular este post com "Djerba Forever", mas como escreveu um dia Bertolt Brecht, a paisagem sem as pessoas não tem o interesse que lhe damos a partir das referências pessoais com que as voltamo a olhar depois de conhecermos alguém.
Djerba para mim será sempre Mabrouk, o amigo proprietário do estaminé que vende amêndoa torrada salgadinha e semente de girassol estaladiça...além de água fresca, bolachas, tabaco à unidade e um sem número de produtos.
"Miá Ramsi Glube" pedem os clientes.
E ele enche um cartuchinho de papel, feito com jornais usados. Meia dúzia de "milimes" e saboreia-se uma deliciosa iguaria...
Tal como noutras casas tunisinas, o Alentejo respira através de algumas peças de artesanato que lhe ofereci, festejando uma amizade serena.
Passo horas à porta da loja, sentado num banquinho azul, observando o movimento.
Ao lado, numa papelaria, Nizar cresceu e já não é o miúdo ao qual eu levava "petits cadeaux simboliques". O ano passado Nizar retribuiu, gravando um CD com artes e tradições jerbianas.
Voltei de lá emocionado. Os pequenos gestos ajudam a consolidar as boas recordações.
Lembro-me ainda de Kamel, do Restaurante Central, que me levou a sua casa, onde comemos da mesma gamela, onde a família degustava o seu couscous. Kamel disse-me, há dez anos, que passaram um serão a ler e a discutir o meu livro "Os pastores do Sol".
Fiquei comovido.
Volto ao lar acolhedor de Mabrouk, à simpática Monia, aos filhotes traquinas. À sensação de estar em casa, rodeado de amigos, que é o que sinto quando regresso a Djerba.
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Salem


Estamos noVerão, tempo de férias, embora eu trabalhe sempre nesta época, supostamente mais sossegada, para aproveitar o sabor de uma cidade com outra qualidade de vida...
Ao rever o que tenho andado a escrever nos últimos tempos, pensei: Basta de resmunguice, como diria a amiga Isabel Mendes Ferreira.
E regressei ao post que fiz no início do mês, antes dos fogos, das bombas em Londres, da pequenez humana que destrói o paraíso breve, onde passamos como uma pluma empurrada pelo vento para outras paragens...
Torno a Tozeur, à Tunísia, à casa antiga dos Omrani. À frescura do pátio com tamareiras, à gentileza daquelas pessoas, à fraternidade de Salem. Há dias recebi um e-mail dele pedindo-me achegas para a sua tese sobre "Marginalidade e Criatividade". Peguei no telemóvel e disse-lhe que podia abordar, p. ex., a "Capoeira", o "Fado", os "grafitti"... tudo manifestações criativas de gente urbana estigmatizada pela pobreza. Hoje são encaradas como manifestações artísticas e enriquecedoras da Cultura Popular.
Espero que este amigo que conheci em Agosto de 1991 faça um bom trabalho e um dia o possa cumprimentar aqui ou na sua terra. Somos família. Disse-o Semia, a irmã professora. "Tu me manques beaucoup", asseguram. Tenho saudades deles. Posted by Picasa